por Oscar D'Ambrosio


 

 


Speto

 

            A própria figuração

 

            Quando se pensa em artistas ligados ao grafite, logo vem à mente que o vocábulo, de origem italiana, significa “escritas feitas com carvão”. Também lhe é atribuída a denominação de um dos cinco pilares do movimento hip-hop, ao lado do rap, do DJ, do MC e do break. O significativo é que, muitas vezes perdidos nessa sopa de definições e siglas, os observadores se esquecem do que é mais importante: ver o trabalho propriamente dito.  

O que mais interessa na exposição de Speto, nome pelo qual é conhecido o grafiteiro e artista plástico Paulo César Silva, na Galeria Choque Cultural, de 20 de janeiro a 10 de março de 2007, é justamente a riqueza de mesclas técnicas que caracteriza o artista paulistano, nascido em 19 de dezembro de 1971.    

Muito mais que nomes de estilos, a produção de Speto chama a atenção pelo que atinge em termos de intensidade visual, principalmente em dois momentos da exposição: a que se volta para uma série de retratos, feitos com spray, e uma interessante mescla de pintura com xilogravura, que evoca a arte dos grandes mestres do desenho, como Aldemir Martins, além de toda uma tradição popular de entalhe em madeira.

Os retratos possuem uma linguagem muito peculiar. O mais impressionante, talvez, seja a figura Mãe, na qual é possível encontrar um misto de humanidade e santidade. Seja na clássica posição da figura ou na maneira como as cores são distribuídas, temos aí um autêntico ícone, que, como ensina o pesquisador francês Jean-Yves Leloup por definição, não deve ter valor em si mesmo, mas sim apontar para outra dimensão.

Mais três retratos geram significativo impacto: o do jogador de futebol Mané Garrincha, o de Vinícius de Moraes e o de Dora (na verdade, uma imagem de Dorival Caymmi que acabou se tornando uma outra coisa). O que eles têm em comum é a capacidade revelada por Speto de transferir espírito a essas representações visuais.

Quando se fala hoje que a arte conceitual ocupa cada vez mais espaço nas galerias realizando uma arte para artistas, que poucos entendem, seja na teoria ou na prática, mas que muitos fingem adorar, seja no ato de fazer ou de pensar, os retratos de Speto, com o perdão do pobre trocadilho, espetam a  consciência.

Tanto na figura maternal e divina, no atleta igualmente idolatrado, no poeta imortal ou numa figura feminina desconhecida, está o mesmo desejo de transformar uma imagem em algo mais. É valorizada a figuração ao lado de uma busca constante  por aprimoramento técnico.

Trabalhos como o de Speto, guardadas as devidas proporções e realidades históricas, trazem à tona uma discussão que Rubens Gerchman e outros artistas brasileiros levantaram, em fins dos anos 1970, chamando de nova figuração expressões visuais de formas familiares, com pessoas ou ambientes, terminando com uma certa ditadura da abstração e do conceito na arte brasileira.

Speto faz a sua figuração para desnudar estados da alma, entendidos como instantes emocionais e psicológicos. É na forma de tratar os assuntos e de construir a sua gestualidade, que cada obra oferece a oportunidade de penetrar em um mundo marcado pela cor e pela forma.

Quando se trata de pesquisa técnica, as obras que se destacam são as que trazem o processo de entalhe da madeira associado à tinta preta. O que se vê são algumas construções formais que homenageiam Aldemir Martins, mas dentro de uma linguagem em que a xilogravura é a grande referência não só como forma de expressar o mundo, mas, acima de tudo, como uma maneira de realizar um trabalho de proporções reduzidas que possa se aproximar do público, desejo maior do artista.

Speto, com sua própria figuração, com raízes na tradição do passado e olho em possibilidades técnicas e formais no futuro, apresenta diversidade em sua proposta estética e coragem e qualidade suficientes para enfrentar novos desafios não dependendo de denominações teóricas ou estéticas.

Seja nas dimensões maiores, onde se sente mais à vontade, nos retratos ou nas novas experimentações técnicas, desperta apenas uma dúvida: até onde conseguirá chegar? Se mantiver a sede atual de buscar novas fronteiras, a perspectiva é muito animadora.                                        

 

          Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 
 

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grafite, 2006

Speto

 

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