Speto
A própria figuração
Quando se pensa em
artistas ligados ao grafite, logo
vem à mente que o vocábulo, de origem italiana, significa
“escritas feitas com carvão”. Também lhe é atribuída a
denominação de um dos cinco pilares do movimento hip-hop, ao lado do
rap, do DJ, do MC e do break. O significativo é que, muitas vezes
perdidos nessa sopa de definições e siglas, os observadores se
esquecem do que é mais importante: ver o trabalho propriamente dito.
O
que mais interessa na exposição de Speto, nome pelo qual é
conhecido o grafiteiro e artista plástico Paulo César Silva, na
Galeria Choque Cultural, de 20 de janeiro a 10 de março de 2007, é
justamente a riqueza de mesclas técnicas que caracteriza o artista
paulistano, nascido em 19 de dezembro de 1971.
Muito
mais que nomes de estilos, a produção de Speto chama a atenção
pelo que atinge em termos de intensidade visual, principalmente em
dois momentos da exposição: a que se volta para uma série de
retratos, feitos com spray, e uma interessante mescla de pintura com
xilogravura, que evoca a arte dos grandes mestres do desenho, como
Aldemir Martins, além de toda uma tradição popular de entalhe em
madeira.
Os
retratos possuem uma linguagem muito peculiar. O mais impressionante,
talvez, seja a figura Mãe,
na qual é possível encontrar um misto de humanidade e santidade.
Seja na clássica posição da figura ou na maneira como as cores são
distribuídas, temos aí um autêntico ícone, que, como ensina o
pesquisador francês Jean-Yves Leloup por definição, não deve ter
valor em si mesmo, mas sim apontar para outra dimensão.
Mais
três retratos geram significativo impacto: o do jogador de futebol
Mané Garrincha, o de Vinícius de Moraes e o de Dora (na verdade, uma
imagem de Dorival Caymmi que acabou se tornando uma outra coisa). O
que eles têm em comum é a capacidade revelada por Speto de
transferir espírito a essas representações visuais.
Quando
se fala hoje que a arte conceitual ocupa cada vez mais espaço nas
galerias realizando uma arte para artistas, que poucos entendem, seja
na teoria ou na prática, mas que muitos fingem adorar, seja no ato de
fazer ou de pensar, os retratos de Speto, com o perdão do pobre
trocadilho, espetam a consciência.
Tanto
na figura maternal e divina, no atleta igualmente idolatrado, no poeta
imortal ou numa figura feminina desconhecida, está o mesmo desejo de
transformar uma imagem em algo mais. É valorizada a figuração ao
lado de uma busca constante por
aprimoramento técnico.
Trabalhos
como o de Speto, guardadas as devidas proporções e realidades históricas,
trazem à tona uma discussão que Rubens Gerchman e outros artistas
brasileiros levantaram, em fins dos anos 1970, chamando de nova figuração
expressões visuais de formas familiares, com pessoas ou ambientes,
terminando com uma certa ditadura da abstração e do conceito na arte
brasileira.
Speto
faz a sua figuração para desnudar estados da alma, entendidos como
instantes emocionais e psicológicos. É na forma de tratar os
assuntos e de construir a sua gestualidade, que cada obra oferece a
oportunidade de penetrar em um mundo marcado pela cor e pela forma.
Quando
se trata de pesquisa técnica, as obras que se destacam são as que
trazem o processo de entalhe da madeira associado à tinta preta. O
que se vê são algumas construções formais que homenageiam Aldemir
Martins, mas dentro de uma linguagem em que a xilogravura é a grande
referência não só como forma de expressar o mundo, mas, acima de
tudo, como uma maneira de realizar um trabalho de proporções
reduzidas que possa se aproximar do público, desejo maior do artista.
Speto,
com sua própria figuração, com raízes na tradição do passado e
olho em possibilidades técnicas e formais no futuro, apresenta
diversidade em sua proposta estética e coragem e qualidade
suficientes para enfrentar novos desafios não dependendo de denominações
teóricas ou estéticas.
Seja
nas dimensões maiores, onde se sente mais à vontade, nos retratos ou
nas novas experimentações técnicas, desperta apenas uma dúvida: até
onde conseguirá chegar? Se mantiver a sede atual de buscar novas
fronteiras, a perspectiva é muito animadora.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).