por Oscar D'Ambrosio


 

 


     Só (so) Frida Kahlo

 

            Descobrir o pedaço de Frida Kahlo (1907-1954) que existe em cada um de nós é o desafio proposto pela exposição Recuérdame. As seis artistas representam, cada qual a seu modo, facetas de uma mulher que, no centenário de seu nascimento, ainda gera muitos mistérios. O fascínio pela pintura renascentista italiana, principalmente os retratos o amor pelos antepassados, a devoção pela disseminação de uma consciência nacional mexicana e a temática da morte são alguns de seus assuntos preferidos.

            Eles vêm à tona em dezenas de auto-retratos, em que a onipresença da artista é proporcional à sua solidão. Paralelamente, o ato de escrever nos quadros, a bissexualidade, a fascinação pelo cabelo como indicador de momentos emocionais e o uso da fauna (papagaios, macacos...), da flora e do sol surgem com força infinita.

            As dores físicas e depressões de Frida são tão presentes em sua pintura como a possibilidade de transcendência que ela coloca no terceiro olho de si mesma e do amado Diego Rivera e na catarse que seus diários revelam, numa justaposição de imagens que apresentam, de forma ilustrativa, um percurso acidentado literal e metaforicamente.

            Nesse amplo universo, Aline Hannun seleciona a Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo, destacando uma parede daquela cor como uma amplidão em que a idéia de oportunidades bloqueadas pelas vicissitudes exteriores convive com a possibilidade da uma harmonia  poucas vezes conhecida pela criadora mexicana.

            Clara Marinho trabalha, em vidro, a coluna vertical fragmentada e o rosto da artista, mas é no ato de pintar a célebre cena fotografada do beijo de Diego em Frida deitada na cama que atinge seu ponto alto. O tom escuro da cena revela como a felicidade daquele instante apenas pontua uma vida de sofrimento.

            Habituada a trabalhar com encáustica, técnica em que a cera exerce um papel fundamental, Lú Salum, geralmente voltada para abstrações  e criações colorísticas, ao tomar a figuração como ponto de partida, realiza um trabalho de extrema força, principalmente nas flores e na vegetação que tanto agradavam Frida Kahlo.

            Rita Bassan estabelece o clima do vôo. Sua caixa exalta a predominância das asas sobre os pés, ou seja, do poder de sonhar sobre o áspero cotidiano. Seus quadros, para completar esse raciocínio, mostram olhos e cores que tornam Frida Kahlo um ícone de si mesma, uma figura a ser destruída e bordada para ser melhor desfrutada.

            Sandra Scaffide, com seu caderno de auto-retratos de Frida, ao colocar um espelho na página final, aponta para a artista mexicana que existe em cada observador, conectada com a pintora mexicana por um fio que mescla a emoção e o intelecto, o sentir e o fazer.

            Silvia Fischetti desconstrói os auto-retratos da artista para oferecê-los em novos contextos. A sutileza e o vazio se fazem presentes e propiciam asas livres para cada observador voar, principalmente na imagem que a silhueta de Frida é apenas sugerida. É da imagem da artista latino-americana, repetida quase infinitamente por ela mesma, que surge uma reflexão sobre o sentimento de cada um de nós de estar no mundo.

            São instauradas então, no mínimo, seis visões, de Frida. Os azuis cativantes, o beijo ambíguo, a exploração da cor e da natureza, a possibilidade do vôo, o mergulho em si mesma e a destruição plástica do mito se coadunam em torno da cama onde a artista passou boa parte de seus últimos anos e nos corações plásticos e existenciais de cada artista e de cada observador. Todos unidos pelo sentimento de estar, ao mesmo tempo, acompanhados e sós na jornada da sofrida Frida.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

           

 

 



 

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