por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Sonya Grasmann

 

            Cores dilacerantes

 

            Há artistas com biografias tão extraordinárias, que as imagens que criam correm o risco de ficarem ocultas perante vidas praticamente cinematográficas. Esse é o caso de Sonya Grassmann (1933-1997). Fatos como ser búlgara , ter emigrado para o Brasil como lutadora de luta livre e ainda ter se casado com Marcelo Grassmann, um dos mestres da gravura brasileira, fizeram com que o seu nome não ficasse associado a produções plásticas de inegável qualidade e fascinante mistério.

            Com apenas três exposições individuais e oito coletivas, sendo uma com o marido e três póstumas, Sonya, cujo nome verdadeiro era Anne Marie Elisabeth Graesse, tem boa parte de sua obra dedicada à representação de mulheres. Pode-se dizer que todas elas não passam de variações do próprio auto-retrato.

            E não há ressalva alguma nisso, pois quando se observa seus quadros, reunidos em julho de 2006, no James Lisboa Escritório de Arte, em São Paulo, SP, em conjunto, percebe-se que o tema enfocado é o menos importante. Está ali uma artista que soube desenvolver uma linguagem muito pessoal em termos de tratamento técnico.

            A crítica, desde os anos 1970, aponta os olhos dessas mulheres e a forma da pintora revisitar o Renascimento e a Idade Média como pontos cruciais para buscar o entendimento pleno do trabalho de Sonya. Existe, no entanto, um elemento que ainda não parece ter sido destacado com a devida atenção: o uso da cor.

            A artista búlgara, principalmente no uso de vermelhos e verdes, cores também muitos presentes no Leste Europeu, atinge resultados absurdamente primorosos nas vestimentas dessas mulheres que fascinam por certa lascívia, impregnada, todavia, de um contraditório recato.

            As mencionadas cores surgem com muita força, mas não ofuscam os cativantes olhos. Talvez por isso não tenham recebido a dimensão merecida. Chegar a elas é resultado de aprimoramento técnico gradual, é verdade, mas, acima de tudo, de ter a coragem de arriscar.

            Os vestidos das mulheres, a intensidade das plantas e mesmo dos míticos lagartos criam, em vermelho e verde, uma sinfonia com vários movimentos e ritmos. O olhar vai de um extremo ao outro da obra com ávido desejo de perscrutar como aquilo foi feito, e a dinâmica de observação alerta para um universo em que a presença dos detalhes de pintura não se esgota num fundo, numa roupa, num bordado pintado ou num bicho simbólico.

            A atmosfera onipresente é de sedução visual. Ela se apresenta nas mulheres, nos seres anfíbios ou répteis. A imagem pouco interessa quando se mergulha na forma em que Sonya pintava. O maior mistério de seu talento não pode ser colocado na esfera autobiográfica ou nos enigmáticos olhares.

            Tais variáveis até tornam menor o transbordamento de talento de Sonya. Seu talento, principalmente na pintura, apesar de também presente na gravura e no desenho, é o de tomar a técnica e colocá-la ao seu serviço. Quando isso ocorre, como se dá no óleo e na tinta acrílica, observa-se a construção de um mundo de sonho sem retorno.

            Vermelhos e verdes intensos capitaneiam o convite a um universo muito peculiar. Dilaceram a alma. Quem os observa pela primeira vez não consegue se libertar. Contamina-se pela técnica, pelos olhares, pelos vestidos, pela atmosfera, por um todo chamado Sonya Grassmann, criadora de uma poesia visual que ainda não conseguimos absorver em toda a sua riqueza e significado, escondidos nas veladuras de uma artista única, que incita ao pranto, pela criação de um mundo paralelo ao nosso que não se consegue desvendar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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O lenço e as folhas
acrílica sobre tela
50 x 40 cm
década de 1980
Coleção Antonio e Rose Maluf

Sonya Grassmann

 

 

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