por Oscar D'Ambrosio


 

 
 
Sônia Valério

              Técnica com emoção

             Ao se debruçar sobre uma obra de arte, historiadores, filósofos e críticos de arte costumam cometer um pecado. Cada um coloca no foco de suas atenções aquela área que mais domina, atribuindo ao objeto observado qualidades próprias do universo que eles preferem. Desse modo, o pensamento, a perspectiva diacrônica ou a forma de trabalhar tecnicamente ganham local privilegiado em detrimento de outras visões.

Esses breves apontamentos servem como porta de entrada para a obra da artista plástica Sônia Valério. Ela geralmente se apresenta como uma artista vinculada ao universo urbano, mas seus momentos mais intensos parecem ser aqueles em que o núcleo da essência feminina – a sensibilidade de estar no mundo – aparece com mais vigor e sinceridade.

Ao realizar seu trabalho plástico a partir de fotografias, sobre as quais ocorrem as mais variadas interferências, com predominância do jogo cromático, baseado em contrastes onde o olho e a mente caminham em paralelo, ela atinge o que muitos procuram em vão: a sensibilidade do observador logo na primeira olhadela, que convida a realizar novos olhares seqüenciais, num jogo caleidoscópico de olhar mais para vislumbrar e descobrir as raízes de uma poética que alia a sensibilidade à emoção.

Quando mostra mulheres com o cabelo cobrindo o rosto ou partes do corpo em close quase irreconhecíveis pelo uso da cor como elemento diferenciador e gerador de emoções, Sônia abre um caminho visual dos mais interessantes. O domínio técnico adquirido pela prática, estudo e pesquisa consegue se soltar com um resultado mais vigoroso ao desnudar almas.

E isso, muito mais do que uma frase de efeito ou um jogo de palavras, se dá nos momentos em que a coragem de ser mulher no sentido mais pleno se cristaliza no uso da cor como elemento lingüístico a revelar sentimentos, atmosferas e um ser entre milhões de seres, um sentir diferenciado por ser único, mas não exclusivo, por ser verdadeiro, mas não definitivo.

Quando a artista mergulha em si mesma, seja no sentido mais literal ou no ato de confiar no próprio modo de ver a realidade circundante com olhar diferenciador, pode usar o conhecimento sem nenhum tipo de receio. Ao se esquecer da técnica, ela surge mais forte. No momento que valoriza a emoção, naturalmente vem à tona um vasto repertório de nuances que pode enriquecer o resultado final.

O desafio está em tornar esse processo o mais natural possível. Isso não quer dizer que ele não seja pensado. Pelo contrário, a vitória estética no cruzamento entre o fazer e o pensar acontece quando a obra é tão elaborada no resultado que parece espontânea na criação, ou seja, no momento em que o observador tem a impressão que fazer aquilo é fácil, mas não sabe dizer por que sente isso e muito menos colocar esse sentimento em prática.

Em busca da liberdade, Sônia Valério corre o agradável risco de conhecer o mais profundo de si mesma. Nesse momento, o urbano some – e a mulher vem à tona, sem pieguice, com força quase sobrenatural, num movimento plástico que vem das entranhas, das vísceras.

E, como já ensinavam os gregos, há 25 séculos, é justamente do centro de nós mesmos, de nosso umbigo particular do mundo, que tudo se constrói ou se destrói.  No caso de Sônia, o simbólico ato de esmagar e corroer as próprias vísceras certamente trará a técnica ao primeiro plano com uma força emocional – no sentido mais denso do termo – até então insuspeitada.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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Solidão
acrílico sobre tela - 2005

Sônia Valério

 

 

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