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Sônia Valério
Esses breves apontamentos servem como porta de entrada para a obra da artista plástica Sônia Valério. Ela geralmente se apresenta como uma artista vinculada ao universo urbano, mas seus momentos mais intensos parecem ser aqueles em que o núcleo da essência feminina – a sensibilidade de estar no mundo – aparece com mais vigor e sinceridade. Ao realizar seu trabalho plástico a partir de fotografias, sobre as quais ocorrem as mais variadas interferências, com predominância do jogo cromático, baseado em contrastes onde o olho e a mente caminham em paralelo, ela atinge o que muitos procuram em vão: a sensibilidade do observador logo na primeira olhadela, que convida a realizar novos olhares seqüenciais, num jogo caleidoscópico de olhar mais para vislumbrar e descobrir as raízes de uma poética que alia a sensibilidade à emoção. Quando mostra mulheres com o cabelo cobrindo o rosto ou partes do corpo em close quase irreconhecíveis pelo uso da cor como elemento diferenciador e gerador de emoções, Sônia abre um caminho visual dos mais interessantes. O domínio técnico adquirido pela prática, estudo e pesquisa consegue se soltar com um resultado mais vigoroso ao desnudar almas. E isso, muito mais do que uma frase de efeito ou um jogo de palavras, se dá nos momentos em que a coragem de ser mulher no sentido mais pleno se cristaliza no uso da cor como elemento lingüístico a revelar sentimentos, atmosferas e um ser entre milhões de seres, um sentir diferenciado por ser único, mas não exclusivo, por ser verdadeiro, mas não definitivo. Quando a artista mergulha em si mesma, seja no sentido mais literal ou no ato de confiar no próprio modo de ver a realidade circundante com olhar diferenciador, pode usar o conhecimento sem nenhum tipo de receio. Ao se esquecer da técnica, ela surge mais forte. No momento que valoriza a emoção, naturalmente vem à tona um vasto repertório de nuances que pode enriquecer o resultado final. O desafio está em tornar esse processo o mais natural possível. Isso não quer dizer que ele não seja pensado. Pelo contrário, a vitória estética no cruzamento entre o fazer e o pensar acontece quando a obra é tão elaborada no resultado que parece espontânea na criação, ou seja, no momento em que o observador tem a impressão que fazer aquilo é fácil, mas não sabe dizer por que sente isso e muito menos colocar esse sentimento em prática. Em busca da liberdade, Sônia Valério corre o agradável risco de conhecer o mais profundo de si mesma. Nesse momento, o urbano some – e a mulher vem à tona, sem pieguice, com força quase sobrenatural, num movimento plástico que vem das entranhas, das vísceras. E, como já ensinavam os gregos, há 25 séculos, é justamente do centro de nós mesmos, de nosso umbigo particular do mundo, que tudo se constrói ou se destrói. No caso de Sônia, o simbólico ato de esmagar e corroer as próprias vísceras certamente trará a técnica ao primeiro plano com uma força emocional – no sentido mais denso do termo – até então insuspeitada. Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).
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Solidão
acrílico sobre tela - 2005
Sônia Valério