Sonia Canheo
Harmonia em tintas
Há pintores que transmitem inquietação e outros que levam o
observador das telas a ver o universo como um todo harmônico, em
que a natureza e os homens não disputam o espaço, mas se
integram num equilíbrio que proporciona uma visão otimista das
possibilidades da alma num mundo cada vez mais desumano.
As telas de Sonia Canheo são um exemplo de como cores
vibrantes e alegres podem transmitir as mais diversas emoções,
voltadas geralmente para locais paradisíacos ou imagens
futuristas, plenas de alegria, nas quais objetos do mundo
tecnológico, como foguetes, interagem, sem conflitos, por mais
estranho que isso possa parecer, com rurais e ingênuas casinhas
coloridas.
Nascida em 30 de maio de 1953, em Monte Aprazível, SP, cidade
onde reside até hoje, Sonia Maria Balero Canheo sonhava ser
aeromoça. Filha de pai marceneiro e mãe costureira, ela gostava,
desde criança, de música, artes, teatro e desenho. Auxiliar de
papiloscopista policial, Sonia, que hoje realiza identidades on
line, sempre adorou bordar e costurar, mas a pintura só se tornou
uma presença constante com a decisão de enfeitar a própria
casa.
Sonia começou fazendo algumas cópias de quadros, mas não
gostou. Pintou um tela, em 1996, com morros, umas casas e um
casamento caipira perto de um riacho, e a levou, meio
envergonhada, para um salão na cidade de Olímpia, SP. Para sua
própria surpresa, o trabalho foi premiado, dando início a sua
carreira nas artes plásticas.
Um bom exemplo do talento de Sonia é Carnaval das cobras, tela
que revela intenso cromatismo, aliado ao dinamismo dos répteis se
movendo. Em lugar de pessoas, cobras assumem o centro da festa,
dançando e tocando instrumentos num jogo de profusão de cores.
O fundo colorido e fragmentado em laranja, amarelo, rosa e azul
dialoga com as diversas cores das serpentes que se entrelaçam. A
tela oferece uma visão criativa da principal festa popular
brasileira e participou do Mapa Cultural Paulista, evento da
Secretaria Estadual de Cultura, de 1998, passando pelas fases
municipal, regional e estadual e sendo selecionado para inclusão
no catálogo.
A artista também realiza obras mais próximas ao naïf, com
cenas idílicas do Interior, nas quais a simplicidade e a pureza
dos traços é valorizada. Ao conhecer os artistas Daniel Firmino
e Orlando Fuzinelli, em São José do Rio Preto, cidade vizinha a
Monte Aprazível, Sonia se apresentou como artista plástica e foi
convidada a participar da abertura da edição 1998 da Bienal
Naïfs do Brasil, organizada pela SESC de Piracicaba, SP.
Na edição seguinte, Sonia apresentou dois quadros: A arca
2000 e O pic-nic. No primeiro, a imagem do célebre meio de
transporte bíblico surge transformada numa espécie de nave
espacial. Os animais são caracterizados com muitas cores, com
destaque para o pavão, bem embaixo da arca, e de duas figuras
humanas vestidas com roupas pictoricamente bastante trabalhadas.
O pic-nic apresenta um universo rural encantador. À esquerda
da tela, há uma mesa de piquenique, com alguns elementos, como
frutas e talheres, em escala desproporcional em relação ao
conjunto da paisagem, traço característico da arte naïf. O
mesmo efeito ocorre na relação entre os peixes e os barcos do
rio, que cruza o quadro na diagonal, e ainda na comparação entre
o tamanho das galinhas e dos bois.
Sonia Canheo atinge a harmonia em tintas principalmente graças
às cores que utiliza. Cada imagem é um convite ao conhecimento
de um mundo em que é possível viver sem agredir aos outros. As
suas cenas de campo, por exemplo, são paisagens que convidam ao
relaxamento e à introspecção. Mostram que, no carnaval da vida,
com talento no manejo das tintas, o equilíbrio, pelo menos no
mundo das artes, pode ser alcançado.
Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação
Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp).