por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sol Abadi

 

            Um diálogo para vida inteira

 

            Um dos maiores segredos dos artistas é o respeito pelos materiais com os quais trabalham. Essa admiração, porém, não basta. É necessário ainda verdadeiro amor para conhecer o suporte com o qual se desenvolve um trabalho plástico. A questão essencial não é dominar autoritariamente o material, mas interagir com ele, incorporando seu temperamento e eventuais acidentes.

            A artista plástica argentina Sol Abadi soma ao respeito e amor uma terceira característica: a dedicação. Experimentadora e pesquisadora por natureza, devota ao seu material, o vidro, a própria vida. Radicada em São Paulo, SP, Brasil, oferece, como resultado plástico, a busca incessante por momentos de encantamento.

            Lidar com o vidro significa estar em contato permanente com um suporte versátil que, na sua essência, é um líquido com características de sólido. Tal ambigüidade o envolve em mistério e gera fascinação. Tomá-lo como projeto de vida demanda  o exercício da compreensão de que se está perante um desafio eterno.

            Frágil pela sua composição, mas eterno enquanto capacidade de vencer intempéries de toda ordem, o vidro, em seu processo artístico, comporta numerosos caminhos de propostas de tratamento do material. A incorporação de bolhas, por exemplo, ao processo criativo é uma escolha estética.

Saber que as variáveis escolhidas podem ser pouco ou nada controláveis envolve um exercício de humildade constante. Entre o planejado, seja na mente ou num esboço em papel e o realizado, pode haver uma distância quilométrica, mas isso não constitui um problema para Sol.

Pelo contrário, ela pratica e ensina que o melhor caminho para aceitar e compreender o vidro é dialogar com ele da maneira como o material se apresenta. Se muitos procedimentos, como resfriamento ou a queima podem ser controlados, há outros em que o artista funciona como autêntico demiurgo, criador que dá a sua criatura uma liberdade que exige desprendimento do próprio ego artístico.

A translucidez do vidro fascina a artista. Seus melhores trabalhos têm a estrutura de pensamento de uma aquarela, técnica na qual a transparência tem um papel fundamental. Saber observar o material e conhecer o poder da luz de interagir com cada peça criada apresenta-se como a dimensão plástica mais densa de cada trabalho.

A completude ocorre justamente quando se sabe esperar para construir a luz mais desejada ou julgada adequada em cada caso. Trabalhar a superfície numa linha mais opaca, incolor, lisa ou texturizada implica na seleção de um caminho. Respeitar a cor do próprio vidro, por exemplo, é um exercício de respeito ao material imenso.

Jogar uma cor é uma hipótese que, em certos trabalhos, pode até agredir o vidro.  Realizar incisões, por exemplo, oferece compensações plásticas, mas o há o risco, muitas vezes, de cometer exageros que fazem com que o material perca aquilo que tem de melhor a oferecer: a  possibilidade de visualizar o mundo por seu filtro.

Sol, que teve como mestres Carlos Herzberg, Beatriz Castro, Coco Russo, Miriam di Fiore, Karina del Sávio, Raquel Passarelli e Raúl Ferreira, além de experiências na Argentina, Inglaterra, Itália e Espanha, além de formação em escultura e desenho com o artista plástico argentino Juan Carlos Distéfano, desenvolveu um estilo que tem, ainda, como uma fonte de inspiração o consagrado trabalho do casal Stanislav Libensky e Jaroslava Brychtova, ambos nascidos na região da Boêmia, na República Checa, celebre pelos seus cristais e vidros.

Após atuar na área de cinema documentário e publicidade, desenvolvendo grande experiência com questões relacionadas à fotografia e à luz, Sol, nascida  em 1º de abril de 1958 e residente em São Paulo desde 2003, já realizou diversas exposições coletivas e ganhou alguns prêmios pelo seu trabalho em vidro.

A pesquisa mais recente da artista consiste em maximizar o potencial de algumas pequenas placas de vidro, numa linguagem plástica que evoca  a exploração do espaço de Mondrian, pela divisão da área em quadrados e retângulos de diversas proporções, e, em alguns momentos, uma releitura do skyline da cidade de São Paulo.

Mas há também o conceito de incorporar irregularidades, bolhas, texturas e transparências, assim como o respeito da cor natural do vidro. Acima de tudo, o trabalho com o material é visto como um grande jogo em que não há limites para a experimentação, a não ser a certeza de que a luz e o vidro têm linguagens próprias e muito especiais.

Sol Abadi realiza a sua arte com grande prazer. Soma respeito ao material, amor e dedicação em doses amplas. Cada peça é definida como uma “brincadeira”,  maneira modesta de definir uma pesquisa constante, caracterizada pela competência e pela delicadeza, num diálogo com o vidro marcado para durar a vida inteira.

 

            Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 
 

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 Bambu
 vidro 24x24x2,5cm - 1999

Sol Abadi

 

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