por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sobre papel

 

            Uma exposição funciona quando provoca nos observadores numerosos questionamentos. Não se trata de reunir uma série de obras que um dia poderão estar em paredes de casas, mas sim de motivar uma reflexão sobre o mundo circundante, mobilizando internamente os indivíduos. A técnica, assim, aliada ao pensamento, oferece a discussão de um problema, tanto técnico quanto existencial.

            O conjunto dos trabalhos expostos, em setembro de 2007, na Casa Caiada 35,  em São Paulo, SP, traz à discussão o próprio papel como suporte. Inventado na China há mais de 2 mil anos, ele sofre alguns preconceitos ligados, por exemplo, à conservação, que são fruto de um  pensamento eurocêntrico que tende a considerar nobre apenas a pintura em óleo sobre tela.

            Há ainda a discussão do próprio desenho, processo – geralmente injustamente desvalorizado por ser visto como uma atividade menor – caracterizado pela pressão de uma ferramenta (em geral, um lápis, caneta ou pincel) sobre o papel. Movendo-a, surgem pontos, linhas e formas planas, muitas vezes enriquecidas por materiais como café, folha de ouro e muitos outros.

            Os trabalhos sobre papel de Alice NM, Mauricio Parra, Ricardo Sanzi, Rubens Matuck e Sergio Lucena envolvem uma atitude perante a própria arte. Cada um manifesta, com a técnica escolhida, um gesto, uma marca digital, um movimento da mão e uma visão de mundo, ou seja, um raciocínio visual.

            Alice NM retoma a técnica do retrato para estabelecer figuras em que busca incessantemente um padrão de excelência. Cada uma delas é um diálogo com a tradição e um exercício técnico a ser constantemente aprimorado. A conversa que a imagem estabelece com o branco do papel fornece o diferencial.

Mauricio Parra traz dois trabalhos semelhantes no processo constitutivo pelo uso de letras para dar forma de rostos às obras que apresenta. No terceiro, predomina o silêncio, numa figura que remete diretamente às gravuras do artista. Se, nos primeiros, a riqueza está no jogo visual; no segundo, há uma densa consciência do uso do espaço.

            Ricardo Sanzi se caracteriza pela impressionante regularidade qualitativa. Das três imagens apresentadas na exposição, a que está mais próxima da abstração se destaca justamente por exigir do observador reflexão atenta sobre a maneira como ele trabalha as linhas, formas e cores.

            Rubens Matuck enfatiza o humor como resposta a um mundo que se crê como sério e se alimenta da própria sisudez para esconder a sua mediocridade. A homenagem ao humorista Carlos Estevão e a  imagem construída do bode são indícios de um artista que se vale do seu instinto varzeano para questionar a ignorância da cultura oficial.

            Sergio Lucena apresenta duas obras sobre papel em que a figura feminina predomina. São ícones plenos de porte, realeza, sedução e mistério que fascinam num primeiro olhar a distância e também encantam numa observação mais próxima e detalhada pelo ambíguo poder de reunir qualidade técnica e capacidade de exploração de um assunto.

            Além da sua qualidade intrínseca, a exposição tem o mérito de trazer à discussão o desenho e o suporte sobre papel. As imagens expostas levam a refletir sobre o ato de pensar e fazer arte. Obrigam a revisitar mestres como Leonardo da Vinci, Albrecht Dürer, Rembrandt, Ingres e Escher, entre tantos outros, e, acima de tudo, a entender o desenho de um artista como uma postura frente ao mundo.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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