por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sobre In abysmos, de Aguinaldo Gonçalves

 

A efemeridade da rosa

           

            O poeta inglês Shelley (1792-1822) afirmou que “os poetas são os legisladores do mundo, não reconhecidos”. Entenda-se aí “legislar” como o de “estabelecer ou fazer leis”, só que essa capacidade, nos artistas da palavra, raramente traz algum reconhecimento, gerando, sim, muitas vezes, uma distância quase irreconciliável com o mundo.

            Não são poucos os poetas ou aprendizes que mergulham na arte e esquecem da vida, criando um abismo às vezes intransponível. Aguinaldo Gonçalves, que, com o  lançamento de Vermelho, em 2000, pela Ateliê Editorial, já oferecia uma poesia diferenciada, pela qualidade e erudição cada vez mais rara no panorama editorial brasileiro, oferta, em In abysmos (Nankin Editorial, 2006) uma fértil aproximação com o leitor sem perder a densidade de sua construção poética e visual.

            O livro reúne três movimentos/momentos, cada um deles com um tipo e uma cor de papel diferente. Com capa de Arnaldo Antunes, orelhas de Valentim Facioli e posfácio de Antonio Medina Rodrigues, parece dispensar maiores comentários ou apresentações.

            Mas não é o que ocorre, principalmente porque Gonçalves, docente do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, campus de São José do Rio Preto,  e um dos principais estudiosos de semiótica do país, ainda mais quando se fala da relação entre linguagens, mais especificamente entre poesia e artes plásticas.

            Gonçalves corria o risco de se adensar em seus conhecimentos acadêmicos e silenciar enquanto poeta e ser humano capaz de dialogar de forma inteligente e rica com o mundo. In abysmos propicia a grata confirmação de que o professor nunca deixou de ser um apaixonado pela vida e pela palavra.

            Na primeira parte, “portal da criação”, surge um dos grandes signos do livro: a areia que integra as dunas em uma imensidão infinita ao olhar humano. O tema e a forma de apresentá-lo remete a uma referência talvez aparentemente alheia à de Gonçalves, mas muito presente em cada linha: as paisagens nordestinas de Aldemir Martins.

            Cidadão poético do mundo por excelência, é curiosa a possibilidade dessa analogia visual, reforçada ainda pela expressão de sentimentos de mal-estar e de inquietação perante o mundo tão bem expressos por Fernando Pessoa e seus heterônimos.

            Surgem nessa primeira parte ainda “sucatas de arame” (como não lembrar das esculturas de Frida Baranek?), “pedaços de pedra-sabão” (ecos de Aleijadinho e seu angustioso desfazer-se em corpo e alma em cada escultura?) e imagens que evocam as célebres aves mitológicas do lago Estínfalo, com suas penas mortais de bronze, apenas vulneráveis no peito sem proteção para as flechas mortais de Hércules.

            Gonçalves expõe essas referências e centenas de outras numa jornada pela história da arte e da poesia universal. Para encerrar esse primeiro movimento, lista dezenas de verdes tomados do desejo de “formar um jardim”. Está aí posto o desafio de construção de um sólido edifício poético e lingüístico a partir de um passeio selecionado, por memórias afetivas, pelo mundo dos sons e vocábulos.

            A segunda parte, “no jardim retórico”, vem marcada pelo jogo gráfico com a ilustração de uma rosa feita por Carmen Herrera. O tom é mais narrativo e entram em cena referências explícitas a poetas como Walt Whitman, e.e. cummings e Rimbaud, além, claro, de Gertrude Stein.

            O mito do deus da morte Platão (o Hades grego) apaixonado por Prosérpina (Perséfone, na Hélade) metaforiza bem as ambigüidades que vão sendo estabelecidas com ritmo e velocidade. O limite entre o Éden e o reino da morte infernal, com seus perigos, é tão sutil quanto a diferença que separa um verso genial de um pueril.

            O terceiro momento, “nas imediações do quase”, deixa a imensidão solar das dunas e o poder da história da poesia, que marcaram as duas primeiras partes, para penetrar um grande vazio. Tornamo-nos estrangeiros de Albert Camus no mundo, contemplando a “implosão o silêncio impossível”.

            O areal de Aldemir Martins fica amplo como uma tela de Turner. Cria-se um espaço longínquo, quase espacial, uma noite gélida e terna de gotas congeladas em que o “quase” é a força motriz de intenções não finalizadas e desejos sempre não completados em sua totalidade.

            Victor Hugo (1802-1885) dizia que “um poeta é um mundo encerrado num homem”. Aguinaldo Gonçalves, com In abysmos, confirma essa tese, conseguindo algo muito difícil para os artistas da palavra que ingressam na vida acadêmica: manter-se poetas e humanos sem sucumbir ao tecnicismo e à erudição vazia.

            O livro, com suas partes que interagem em um dinâmico diálogo entre o despertar da poesia, a força da tradição onipresente e o corajoso salto no “quase”, quando é necessário abrir mão das certezas em busca da própria essência da existência, da arte e de si mesmo, alertam que a poesia ainda é possível, desde que tenha a mais profunda humanidade, aquela que artistas como Aguinaldo Gonçalves conhecem: a de que viver significa conviver com as aproximações e com o falível, não tentando manter a rosa eterna, mas convivendo, com grandeza, com o seu caráter efêmero e imperfeito.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela Unesp, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (AICA – Seção Brasil).

 



 

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