José
Luiz Soares
Espaços
nunca vazios
A
pintura é um universo autônomo. Dentro da tela, o artista
realiza sua concepção de mundo. O artista primitivista José
Luiz Soares mostra bem isso ao estabelecer, em suas telas, um
cosmos repleto de imagens, com céu, montanhas, rios, pequenos
caminhos, árvores, arbustos, casinhas, flores e animais. As
pessoas são colocadas na tela por último, dando à obra um toque
de humanidade.
O
ponto alto do trabalho do artista está nas festas populares. A
profusão de cores transmite toda a alegria das procissões
religiosas, enfocando o universo do Interior do País. Cada tela
de Soares é um convite para um mergulho num Brasil esquecido pela
mídia, um mundo em que as cores e os sentimentos brotam com
espontaneidade, perpetuando tradições.
Nascido
em Belo Horizonte, em 25 de maio de 1935, Soares rabiscava, quando
criança, as paredes da casa, usando pedaços de carvão . O
resultado não podia ser diferente: broncas maternas. O artista
lembra inclusive das dificuldades de sua infância. "Filho
ilegítimo, tive uma infância muito pobre", comenta.
Também
desses primeiros anos de vida vem a profunda ligação do artista
com as festas populares. "Minha mãe era a rainha do congado
de Santa Ifigênia e fez uma promessa para que eu não servisse o
Exército. Por isso, saí numa festa como rei de São
Benedito", recorda.
No
primário, Soares desenhava os heróis de história em quadrinhos
e ficava fascinado com a riqueza anatômica dessas imagens.
"Esses primeiros exercícios foram significativos para o
desenvolvimento de meu desenho", conta. No entanto, ele
precisou trabalhar desde muito cedo para ajudar em casa, o que
dificultou que se dedicasse às tintas. Mesmo assim, conseguiu
concluir o primário.
Soares
começou a trabalhar em 1946 no mercado municipal. Depois, atuou
numa fábrica de Coca-Cola e teve uma experiência como barbeiro.
Estimulado pela professora Márcia, em 1948, aos 13 anos,
concorreu e ganhou uma bolsa de estudos para freqüentar o curso
livre de desenho ministrado pelo mestre Guignard, até hoje um dos
maiores pintores nacionais.
Nesse
curso, oferecido a filhos de operários, Soares recebeu noções
de perspectiva, proporções , claro-escuro e técnicas mais
elaboradas. Após quase dois anos, no entanto, foi obrigado a
parar por falta de recursos. Abandonou o desenho e, em 1957,
ingressou na Guarda Civil, na qual trabalhou como carcereiro e se
aposentou, em 1986, como detetive de classe especial.
Durante
as horas de folga do seu trabalho, em 1973, o artista mineiro
voltou a pintar, conseguindo vender alguns trabalhos e realizar
encomendas. No ano seguinte, classifica quatro trabalhos no Salão
do Ministério de Educação e Cultura, no Rio de Janeiro,
RJ,tendo o estímulo necessário para prosseguir definitivamente
na carreira de pintor.
O
grande salto, porém, ocorreu graças a uma amiga da esposa do
artista que viu algumas telas na sala da casa de Soares. "Ela
afirmou que eu era primitivista e que devia pesquisar o tema e
prosseguir com a minha produção", conta o pintor. Assim ele
começou a formar uma ampla biblioteca sobre o assunto e sobre os
temas de cunho popular que desenvolve.
A
curiosidade se estendeu a outras áreas e Soares tem hoje mais de
8 mil discos de vinil, além de coleções de revistas em
quadrinhos, livros de santos e recortes de jornais, material que
lhe serve como fonte de pesquisa para suas telas. Esse gosto pela
informação, seja por meio de rádio, jornais ou televisão,
provavelmente provém de uma necessidade inata e também da sua
profissão de detetive.
Talvez
se explique assim também sua reverência aos mestres que o
ajudaram (Raimundo Costa, Rodelnégio e Petrônio Bax) e o seu
prazer em travar contato com as pessoas. "As galerias são
frias. Eu gosto é do contato com o público e os turistas na Praça",
confessa.
Esse
amor ao próximo também pode ser constatado quando Soares cede o
direito de imagem de suas obras a causas assistenciais, como cartões
de Natal e agendas do Hospital Mário Pena. Um exemplo é
Nascimento doRei dos Reis, repleto de imagens bíblicas, com a
presença de São Jorge, frases das Sagradas Escritura e, no
centro, o nascimento de Jesus Cristo. Flores de diversas cores
formam uma estrela de cinco pontas e imagens de anjos e alusivas
ao Espírito Santo estabelecem um espaço visual que tem como
centro o presépio.
Soares,
portanto, só tomou consciência de que seu estilo era naïf aos
37 anos. Foi ainda por iniciativa da esposa, Leda, com quem casou
em 1958 e com tem quatro filhos, que conseguiu a licença para
expor na feira de artesanato de Contagem, MG, em 1973. No ano
seguinte, transferiu-se para a feira da Praça da Liberdade, em
Belo Horizonte, MG, que atualmente ocorre aos domingos na Avenida
Afonso Pena.
Outro
apoio muito importante foi o de Palhano Júnior, que logo admirou
o trabalho de Soares exposto na Feira da Praça da Liberdade. Por
meio dele, o artista conseguiu realizar uma exposição no Minas Tênis
Clube e passou a ser conhecido, principalmente no Estado de Minas
Gerais, assumindo, posteriormente, uma posição de liderança
entre os primitivistas mineiros.
Após
a aposentadoria, Soares passou a dedicar todo o seu tempo à
pintura, enfocando temas brasileiros, principalmente folclore e
sacros, além de festas religiosas do interior.A repercussão se
observa em mais de 30 exposições coletivas e 12 individuais, além
de sua obra já ter sido objeto de estudo de um grupo de alunos de
pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade do
Estado de Minas Gerais.
Em
seu currículo, destaca-se ainda a Medalha de Bronze por sua
participação, em 1984, na Mostra Contemporânea "G. B.
Viotti Di Fontanettoro, em Vercelli, Itália, além de ter
realizado, em 1995, um painel no SESC-Pompéia, em São Paulo,
dentro do projeto Babel. Três anos depois, esteve entre os 30
participantes da exposição "Lendas e Crenças" no
SESC-Piracicaba, na qual artistas de todo o País mostraram a sua
leitura particular de lendas e crendices.
Os
trabalhos de Soares se caracterizam pela quase total ocupação do
espaço de maneira compulsiva e com uma delicada harmonia, as áreas
livres, seja no céu ou na terra, vão sendo preenchidas com
bandeiras, estandartes e as duas marcas registradas do artista: as
bandeiras do Brasil e do Estado de Minas Gerais e uma bela lua com
São Jorge dentro. "Minha mãe dizia que via São Jorge assim
mesmo, dentro da lua", conta.
Para
o artista, ter essas marcas pessoais e inconfundíveis é
fundamental. "Como os estrangeiros gostam muito do meu
trabalho, coloco as bandeiras. Todo artista deve ter a sua para
ser reconhecido em vida e depois da morte", afirma. "O
importante é pintar o que se pensa, dispensando as regras, as técnicas,
as perspectivas. Dispenso os rótulos. O essencial é ter a
liberdade de fazer o que se quer. No lugar da técnica está a
criatividade, que é muito importante."
Há
telas de Soares que são aulas intensamente coloridas de folclore.
É o caso de Procissão de São João Menino, que reúne balões
no céu, a tradicional imagem de São Jorge dentro da lua, a
bandeira do Divino Espírito Santo, as bandeirinhas de festa
junina, barracas de comidas típicas e de jogos, a dança do Moçambique,
a dança da fita, o congado, a capoeira, a cavalhada, o
quebra-pote e o pula-fogueira, além da procissão propriamente
dita com velas acesas, andor, ornamentos de flores brancas,
coroinhas e padre.
As
telas de Soares, todavia, não se limitam ao rico universo das
festas populares. Ele já homenageou, entre outros, o jogador de
futebol Djalma Dias e o presidente Juscelino Kubitschek, que no
quadro O homem que amou a sua pátria, é colocado em destaque com
cenas da construção de Brasília e as bandeiras do Brasil e de
Minas. Outro trabalho nessa linha é um encontro entre Chico
Mendes e São Francisco de Assis, que ressalta, com profusão de
imagens, o amor de ambos pela natureza.
A
faceta religiosa do pintor, em boa parte herdada da mãe adotiva,
resulta em trabalhos como uma Arca de Noé em que os bichinhos são
colocados para fora para tomar sol, uma Via Sacra que demorou três
anos para ser feita, pois foi pintada apenas nas Quintas e
Sextas-Feiras da Paixão e uma Santa Ceia com efervescência de
imagens e cores.
Se o
tema é Jesus Cristo, sua alegria em fazer o bem, as tristezas em
sua jornada terrestre e a dor do Calvário são transformadas em
imagens que vão desde o nascimento, no canto inferior esquerdo da
tela, até a ressurreição no canto superior direito. Ao centro,
a Santa Ceia. Pombas, simbolizando o Espírito Santo e o Sagrado
Coração de Jesus compõem o conjunto, indicando,além de
pesquisa na fonte bíblica, um apurado senso de combinação de
cores e de aproveitamento do espaço pictórico.
Lendas
do negrinho do pastoreio, caipora, mula-sem-cabeça, saci-pererê,
figas, preto velho, oxum e iara também integram o repertório do
artista, cujo talento pode ser visto hoje nas embaixadas da Grécia,
Itália, Chile e Suíça, e no acervo de colecionadores de
Portugal, Japão, Holanda e Inglaterra, entre outros países.
O
artista consegue ainda articular o religioso e o popular com rara
habilidade. Um presépio e a folia de reis, por exemplo, convivem
com harmonia na mesma tela. O céu, repleto de estrelas, serve de
cenário para uma obra em que músicos e foliões se encontram,
propiciando o surgimento na tela de um lampejo de luz divina, que
ilumina o presépio em que está o Menino Jesus. Próximos dele,
no plano espiritual, os Reis Magos do Novo Testamento, enquanto,
no plano popular, os reis da festa popular celebram o nascimento
do Cordeiro de Deus.
José
Luis Soares traz, com cores vivas e riqueza de imagens, o universo
das festas populares às suas telas. Cada quadro é resultado de
observação, pesquisa e combinação de formas e proporções bem
próprias, resultado do apuro de um estilo próprio, baseado na
intuição própria do artista naïf, na pesquisa temática e na
extrema dedicação no estabelecimento pictórico de cenas
criativas, sem espaços em branco e sempre iluminadas pelo São
Jorge em combate com o dragão dentro da lua e pelas bandeiras do
Brasil e do Estado de Minas Gerais, berço de numerosos artistas
primitivistas de qualidade internacional.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).