por Oscar D'Ambrosio


 

 


S. Mendes

 

Imagens pujantes

 

A arte não é apenas uma forma do ser humano expressar o belo. Pode também ser uma maneira de protesto e de contestação e sempre oferece a possibilidade de firmar uma visão de mundo e de encontrar o próprio lugar na sociedade, principalmente quando o criador apresenta talento e destreza técnica, seja aprendida na academia ou de maneira autodidata.

Sebastião Mendes é um pintor que tem na arte o seu modo de ser e de estar entre os outros seres humanos. Nascido em Cáceres, MT, em 17 de agosto de 1966, ele assina as telas como S. Mendes, e residindo em Maracaí, SP, desde 1999, dedica sua vida à construção de uma obra sólida, com um estilo bem definido, caracterizado, acima de tudo, pela intensa luminosidade.

Desde jovem, Mendes manifestou interesse pela arte e, por meio dela, escapou da marginalidade. Por isso, uma de suas principais atividades, além de pintar, é a realização de freqüentes oficinas de desenho e pintura, nas quais pode travar contato com jovens, muitos deles meio perdidos, que podem encontrar na arte uma legítima força de ação e de inserção social.

Em 1994, por exemplo, desenvolveu oficinas em dez municípios do Estado do Mato Grosso e, nos últimos anos, vem realizando trabalhos similares na Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Assis, SP, mostrando como técnica e talento podem – e devem – caminhar juntos quando se trata de buscar parâmetros artísticos de qualidade.

As telas de Mendes logo se diferenciam pela presença de um fundo vermelho, preto, azul e amarelo. As cores, colocadas, na maior parte dos casos, em linhas horizontais separadas, geram a sensação de uma superposição de horizontes, suficiente para estabelecer a ilusão de continuidade das telas, num dinamismo interno obtido pelo uso de tonalidades geralmente quentes.

Quanto à temática, não predominam apenas temas interioranos, mas a solidão do ser humano nas mais variadas situações. Há figuras únicas, isoladas, e pares de pessoas olhando o espectador frente a frente, como se estivessem indagando algo ou pedindo a participação do observador.

A tela Meninas com pássaros é um exemplo dessa delicadeza, em que a composição tem como ponto alto a presença de um pássaro pousado num fino galho e a lépida imagem de um colibri, ave que indicia justamente a fugacidade dos sentimentos humanos, da natureza, da vida, enfim.

Nessa mesma linha, Outono encanta pelas folhas caídas junto à imagem central. Elas acentuam o sentido de que a existência é fugidia. A expressão dos rostos com lábios carnudos do pintor mato-grossense também dão peso às imagens que parecem prisioneiras da terra da qual o homem foi gerado e para onde retornará.

A atmosfera lírica permanece em telas como Menino com violino e Vendedora de flores. A primeira se vale da evocação da musicalidade para acentuar a prevalência de um clima de sonho, enquanto a segunda se destaca pela presença das flores amarelas com o centro vermelho na mão da protagonista e branca com centro amarelo num vaso.

Frutas são um tema recorrente. Surgem em diversas situações, em telas como Frutos saborosos, Mulher com pequi, Colhendo laranjas e Que belas frutas. Em todas, os antebraços e mãos deformadas criadas por Mendes ganham destaque pelo diálogo com as formas arredondadas das frutas.

O lirismo se mantém em telas como Bem-me-quer, na qual o encantamento de jovens ao praticar a superstição de desfolhar uma margarida ganha romantismo, efeito obtido, em boa parte, pelo olhar perdido no horizonte da figura humana, marca registrada das obras de Mendes.

Seresteiro, em que o cantador surge em uma janela, traz à mente as tradições perdidas de melodias antes cantadas por todo o Interior do País e hoje cada vez mais raras, desaparecidas perante o pop sertanejo e outras manifestações modernas que ameaçam a permanência das tradicionais modas de viola cantadas para encantar as meninas.

Melancolia, Mãe e filha, Mulher na janela e Menino com bola de futebol compõem um universo em que as figuras retratadas compartilham uma sensação curiosa de estar no mundo, embora participem dele a certa distância, observando tudo com desconfiança, matutando sobre como se integrar à sociedade.

Quadros como Longa caminhada, Batendo arroz e Dia a dia no campo apresentam uma vertente mais social, não no sentido de simples engajamento político, mas de denúncia do trabalho cansativo ao qual boa parte da população rural é submetida. O duro e incansável trabalho de Sísifo – condenado a rolar eternamente uma pedra ao topo de uma montanha – também surge em Puxando a rede, tela em que o lirismo se acentua pela relação entre a atividade árdua de pescar e um clima romântico, criado pelo uso de cores suaves e nostálgicas.

As atividades físicas mostradas por S. Mendes focalizam justamente aqueles que sofrem com a seca, a ausência de serviço na entressafra e as péssimas condições de trabalho, ligadas à produção agrícola ou ao mar. As telas do artista, nesse sentido, evocam os melhores momentos da prosa de Graciliano Ramos e de Jorge Amado.

O artista também realizou painéis para a sala da reitoria da Universidade do Estado do Mato Grosso, em que mostra as raízes e a cultura local, a Casa do Povo de Alte Loule, em Portugal, o refeitório da Escola Agrotécnica Federal de Cáceres e o escritório da Unesco, em Cuiabá.

Com exposições já realizadas na Espanha, Alemanha, Portugal, França e Cuba, Mendes tem, em seu currículo importantes realizações, como as 22 telas para o projeto “Resgate Histórico e Arquitetônico de Cáceres”, realizado para a Universidade do Estado do Mato Grosso, que deu início à Pinacoteca da instituição, em 1992.

As grandes referências de Mendes são a brasilidade de Tarsila do Amaral, algumas temáticas com ressonâncias de Portinari e as formas características de Di Cavalcanti. Tudo isso se mescla com uma certa atmosfera oriunda do espanhol Pablo Picasso, principalmente em alguns trabalhos com a luz, que evocam algumas telas do mestre espanhol.

Essa mescla de informações gera uma arte cuja principal característica é a intensa luminosidade, em figuras humanas que parecem dominadas pelo peso do mundo. Cada uma delas é apresentada muitas vezes sentada, tendo o solo como sustentação para uma existência sofrida, retratada em olhares vagos, perdidos e, geralmente, desesperançados.

Autodidata, Sebastião desenvolveu um estilo próprio que atrai a atenção de colecionadores não só do Brasil, mas também do Japão, Alemanha, EUA, Portugal, Áustria, Espanha, Rússia, China, Itália e França, que encontram, em sua arte, indagações e respostas.

As perguntas são sobre o sentido da vida, da morte e da passagem do tempo de figuras estáticas e meditativas. As respostas ficam ao critério do olho clínico de cada um. O trabalho com figuras de grandes proporções em relação ao todo e os fundos intensamente coloridos que transmitem às telas um sentido épico são os passos de S. Mendes em sua jornada pictórica, um caminho de meninos, meninas, trabalhadores e violeiros que muitas vezes se perdem pelas veredas da vida, mas, que nas telas, do artista mato-grossense, ganham vigor e estatura narrativa, numa jornada de intensas luzes, cores vigorosas e imagens pujantes.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Bem-me-quer"

O.S.T - Bem-me-quer  cm - 2001

S. Mendes

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio