Siron
Franco
Em defesa
da estetização
O crítico
de arte Harold Rosemberg aponta, em seu ensaio “Desestetização”,
publicado na The New Yorker,
em 24 de janeiro de 1970, que,
na arte chamada contemporânea ocorre muitas vezes um progressivo repúdio
da estética e, com a eliminação total do objeto de arte e a sua
substituição por uma idéia.
Esse é um
grande risco que boa parte da arte brasileira produzida hoje corre,
pois torna-se, infelizmente, cada vez mais comum,
redação de imensos textos nas paredes de galerias para
justificar aquilo que é praticamente injustificável, ou seja, o
discurso vem se tornando cada vez mais necessário perante manifestações
estéticas que não
convencem.
Se a obra
de arte não conquista pelos seus elementos intrínsecos, como cor,
forma, textura, relação entre seus elementos constitutivos, cria-se
uma teoria, geralmente com base na Filosofia e na Estética, para
tentar “explicar” aquilo que se vê pendurado nas paredes ou
exibido na forma de instalações.
Nesse
contexto, a obra do artista plástico goiano Siron Franco traz um
suspiro de alívio. A sua mais recente exposição, no Instituto Tomie
Ohtake, em São Paulo, de 5 de dezembro de 2006 a 4 de fevereiro de
2007, mostra, em 35 trabalhos, como ele domina, acima de tudo, o ofício
da pintura.
Nesse
sentido, a discussão se as telas são mais ou menos figurativas se
torna secundária. A questão central é verificar como o tempo trouxe
a esse artista, nascido em 25 de julho de 1947, a capacidade de
mergulhar cada vez mais em si mesmo para encontrar alternativas
de expressão visual progressivamente mais ricas em sentidos.
Do recente
conjunto de imagens, Anjo e
homem me parece paradigmático. Temos ali a sugestão da figura
humana e, pela próprio título,
o diálogo entre o aparente e o imanente, ou seja, entre aquilo
que Siron Franco faz e o que ele sugere. Esse movimento mental se faz
presente em quase todas as telas recentes.
É necessário
parar em cada quadro pormenorizadamente para poder apreender o que se
vê. Franco não oferece facilidade de observação. Se uma olhada rápida
e apressada infelizmente basta hoje para contemplar boa parte do que
se expõe nas galerias, os elos que o artista goiano estabelece com a
arte de pintar e, em conseqüência, com o mundo, demandam um outro
tempo de observação.
Tal
pensamento se torna mais nítido em Pop
star, onde a tela, dividida na metade, traz justamente a figura
humana nítida, de um lado, e
a sua aparente ausência, no outro. Claro que quando se pensa na ação
visceral de Franco para criar, a presença humana é mais do que
constante.
Não me
refiro apenas ao ato de pintar em si mesmo – o que é evidente –,
mas ao próprio processo do artista de colocar as suas mãos na tela
nas mais variadas posições e maneiras. Espalmadas, elas tornam-se a
própria corporificação do trabalho. Não interessa mais a discussão
se essa manifestação é figurativa ou não, mas sim como o artista
se relaciona com aquilo que faz.
O jogo de
“imposição de mãos” e o intenso cromatismo se articulam num
sucessivo processo de pesquisa, que dá ao trabalho de Franco um denso
senso estético. Sua pintura prescinde de textos de parede. Fala por
si mesma – e isso é uma grande vitória.
Tentar
reduzir a sua pintura mais recente a uma discussão sobre se ela está
menos figurativa que antes é diminuir a possibilidade que o artista
oferece de se voltar especificamente para cada imagem. Noite
azul, por exemplo, permite uma jornada pictórica pelos próprios
tons de azul e pela forma como o artista atinge a paleta que deseja.
A
exposição, que reúne dípticos com 3 a 4 metros de largura, mostra
a materialidade do processo de construção de pintura de Franco. Ele
traz de volta à arte brasileira algo que não pode faltar: o
entendimento de que pintar significa lidar com tintas sobre telas –
não apenas desenvolver
um assunto.
Siron
Franco, nestes recentes trabalhos, mostra justamente o amadurecimento
plástico de alguém que, mesmo sem desprezar o assunto – que pode
ser mais ou menos engajado de acordo com a ocasião – mostra-se
capaz de, num progressivo diluir aparente da forma humana, criar o seu
próprio espaço pictórico.
Não
se trata mais de discutir o acidente com o metal césio a partir de
suas pinturas, de se maravilhar com sua interpretação grandiosa dos
desaparecidos e mortos nos bastidores da ditadura ou vislumbrar em
seus quadros visões críticas de um Brasil bem longe das utopias de
“país do futuro”.
Agora,
mais do que nunca, o artista de Goiás Velho constrói a própria
eternidade, alcançada pela estetização da arte defendida por
Rosemberg. Ela reside no domínio
pelos mestres de um progressivo aprimoramento técnico, obtido com o
enfrentamento dos materiais, que conquista a imortalidade dinâmica de
quem transforma, junto ao olhar atento do observador, cada quadro numa
imagem atemporal, rica em si mesma como documento de uma época e de
um instante de pensar o próprio trabalho e o mundo circundante.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da
UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).