por Oscar D'Ambrosio


 

 


        Sirley Lacerda

 

            A paciência poética

 

            Traços curvilíneos continuamente em busca de formas são a resposta poética e estética de Sirley Lacerda aos enigmas do mundo. Suas pinturas parecem surgidas de um microscópio, alcançando movimentos espiralados originais e construídos com extrema paciência e delicadeza, seja nos trabalhos coloridos ou em preto e branco.

            A riqueza de detalhes mínimos e diferenciados gera um universo marcado pela capacidade de as formas se articularem em insuspeitadas combinações. Não há compromisso com a figura, mas com a composição e o equilíbrio. Eles surgem com uma naturalidade assombrosa e assustadora, como se não fossem o resultado do domínio técnico, mas  frutos apenas da espontaneidade.

            O enigma da criação de Sirley reside justamente do exercício da liberdade de criar com responsabilidade estética. Laranjas, lilás, magentas, azuis e verdes estabelecem infinitas possibilidades de diálogo. Geralmente na vertical, suas telas transmitem um movimento constante, numa profusão de linhas que evocam tanto espirais de DNA como o movimento de seres fluidos em constante jornada para adquirir as mais variadas formas.

Nascida em Recreio, MG, em 5 de julho de 1953, iniciou sua prática nas artes plásticas em 1985, trabalhando com grafite sobre papel. Depois, passou para o nanquim e, em 1987, para a tela. A partir de 1989, começa a desenvolver esculturas em argila.

Progressivamente, foi definindo o seu trabalho rumo ao Paciencionismo – termo registrado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro –, em termos de pintura, e a Caramelização, técnica de envernizamento em cerâmica no universo da escultura, que propicia um efeito em que a verticalidade evoca as antigas e inesquecíveis esculturas primitivas alusivas à maternidade e à feminilidade.

Entre 1990 e 2001, parou com as artes plásticas, dedicando-se à escritura de poesias e à confecção de bijouterias. Retomou a carreira ao ser convidada pelo pintor Nerival Rodrigues a participar com as suas esculturas da I Bienal do Alto Tietê, mergulhando novamente no mundo da pintura e da escultura.

            Sirley é artista plenamente consciente do seu fazer. Não realiza um trabalho pela metade, mas sempre pleno. Cada obra, seja, pintura ou escultura, é inteira como proposta estética. O amor ao detalhe e o preciosismo na criação e arranjo de formas gera a saudável dúvida de se estar perante uma artista que esculpe quando pinta e vice-versa. Surgem daí telas não-figurativas plenas de humanidade, rigor de composição e esforço mental e físico na concepção e feitura, e esculturas em que a cor e o traço são fundamentais.

            Curiosamente, o nome Sirley vem de uma trapezista que fascinou a mãe da artista plástica. Quando foi batizar a menina, o então noviço Gino, em Recreio, não quis aceitar o nome por ser de artista de circo, profissão geralmente relacionada à devassidão. Só aceitou se tivesse o sagrado nome de Maria na frente.

            De fato, o padre Gino estava certo. Sirley é nome de artista, principalmente quando concebemos essa profissão como aquela relacionada a reinterpretar o mundo com um olhar atento e técnica apurada. Em cada trabalho que realiza, está muito mais em jogo do que a mera composição de cores e formas. Há uma lúcida inquietação transformada em arte. E dela brota uma linguagem poética de intensa beleza que se torna convite a uma densa reflexão sobre como representações visuais podem desvendar tão bem a alma humana.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

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Atrás do arco-íris 
acrílica sobre tela 100 x 60 cm 2002
Sirley Lacerda 

 

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