Sirley Lacerda
A paciência
poética
Traços
curvilíneos continuamente em busca de formas são a resposta poética
e estética de Sirley Lacerda aos enigmas do mundo. Suas pinturas
parecem surgidas de um microscópio, alcançando movimentos
espiralados originais e construídos com extrema paciência e
delicadeza, seja nos trabalhos coloridos ou em preto e branco.
A
riqueza de detalhes mínimos e diferenciados gera um universo
marcado pela capacidade de as formas se articularem em
insuspeitadas combinações. Não há compromisso com a figura,
mas com a composição e o equilíbrio. Eles surgem com uma
naturalidade assombrosa e assustadora, como se não fossem o
resultado do domínio técnico, mas
frutos apenas da espontaneidade.
O
enigma da criação de Sirley reside justamente do exercício da
liberdade de criar com responsabilidade estética. Laranjas, lilás,
magentas, azuis e verdes estabelecem infinitas possibilidades de
diálogo. Geralmente na vertical, suas telas transmitem um
movimento constante, numa profusão de linhas que evocam tanto
espirais de DNA como o movimento de seres fluidos em constante
jornada para adquirir as mais variadas formas.
Nascida
em Recreio, MG, em 5 de julho de 1953, iniciou sua prática nas
artes plásticas em 1985, trabalhando com grafite sobre papel.
Depois, passou para o nanquim e, em 1987, para a tela. A partir de
1989, começa a desenvolver esculturas em argila.
Progressivamente,
foi definindo o seu trabalho rumo ao Paciencionismo – termo
registrado na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio
de Janeiro –, em termos de pintura, e a Caramelização, técnica
de envernizamento em cerâmica no universo da escultura, que
propicia um efeito em que a verticalidade evoca as antigas e
inesquecíveis esculturas primitivas alusivas à maternidade e à
feminilidade.
Entre
1990 e 2001, parou com as artes plásticas, dedicando-se à
escritura de poesias e à confecção de bijouterias. Retomou a
carreira ao ser convidada pelo pintor Nerival Rodrigues a
participar com as suas esculturas da I Bienal do Alto Tietê,
mergulhando novamente no mundo da pintura e da escultura.
Sirley
é artista plenamente consciente do seu fazer. Não realiza um
trabalho pela metade, mas sempre pleno. Cada obra, seja, pintura
ou escultura, é inteira como proposta estética. O amor ao
detalhe e o preciosismo na criação e arranjo de formas gera a
saudável dúvida de se estar perante uma artista que esculpe
quando pinta e vice-versa. Surgem daí telas não-figurativas
plenas de humanidade, rigor de composição e esforço mental e físico
na concepção e feitura, e esculturas em que a cor e o traço são
fundamentais.
Curiosamente,
o nome Sirley vem de uma trapezista que fascinou a mãe da artista
plástica. Quando foi batizar a menina, o então noviço Gino, em
Recreio, não quis aceitar o nome por ser de artista de circo,
profissão geralmente relacionada à devassidão. Só aceitou se
tivesse o sagrado nome de Maria na frente.
De
fato, o padre Gino estava certo. Sirley é nome de artista,
principalmente quando concebemos essa profissão como aquela
relacionada a reinterpretar o mundo com um olhar atento e técnica
apurada. Em cada trabalho que realiza, está muito mais em jogo do
que a mera composição de cores e formas. Há uma lúcida
inquietação transformada em arte. E dela brota uma linguagem poética
de intensa beleza que se torna convite a uma densa reflexão sobre
como representações visuais podem desvendar tão bem a alma
humana.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes
da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).