por Oscar D'Ambrosio


 

 

Sindicato dos Calígrafos

 

            Um sindicato é uma associação que visa à defesa dos interesses de seus membros. Sob essa perspectiva, trata-se de um conjunto de pessoas com um objetivo comum, empenhado em tornar a sua causa vitoriosa. Para isso, a discussão dos pontos de acordo entre as diferenças individuais é essencial.

            No conto de Moacyr Scliar “Sindicato dos calígrafos”, o que torna os calígrafos próximos é o seu amor à caligrafia, pois cada um tem uma maneira bem diferente de conceber as possibilidades e as características da escrita. Acima de tudo, unem-se para se manter vivos, resistindo a um mundo que não lhe concede mais espaço com a datilografia e outras tecnologias.

            Qualquer lembrança da arte parece simples nesse momento, pois os artistas, sejam das artes visuais ou das palavras, assim como os calígrafos, necessitam, de alguma maneira, estarem juntos, apesar de geralmente terem um ego bem desenvolvido, para poder sobreviver pela profissão que os une, transformando a realidade em imagens ou textos renovados e renovadores.

            Caligrafia, de acordo com o Novo Aurélio, é a “arte de escrever a mão segundo determinadas regras e modelos”. Essa definição aplica-se a qualquer atividade artística, pois criar uma obra exige seguir, de forma consciente ou inconsciente, certos paradigmas, que podem ser quebrados ou não de acordo com o desejo e a vocação estética de cada um.

            Ainda segundo o Aurélio, a caligrafia é a “maneira própria de cada pessoa no uso dessa arte”, ou seja, mesmo num sindicato, cada um tem a sua própria forma de se relacionar com a letra, com a arte e com o mundo. Não há um estilo único, mas formas individuais de conceber a realidade.

            A caligrafia pode ser entendida apenas como uma forma de letra manuscrita, absolutamente pessoal e dificilmente transferível. Para alguns, significa uma escrita cuidada, de morfologia uniforme e elegante. No entanto, estabelecer um padrão dominante na caligrafia pode ser perigoso, pois corre-se o risco de desejar afastar tudo aquilo que não parece “belo” num primeiro momento.

            Caligrafia não é necessariamente “bela escrita” ou “letra bem cuidada”, mas a capacidade individual que cada um tem de se expressar por meio da letra. Analogamente, a arte comporta infinitas caligrafias, pois cada pessoa responde de uma maneira aos múltiplos estímulos que a realidade oferece.

            O grupo que participou do curso de Desenho Artístico no primeiro semestre de 2005, de março a julho, é, à sua maneira, um sindicato dos calígrafos. Como fez Scliar, vamos conhecer um pouco de cada integrante, percebendo como se dá a sua articulação com o todo do conjunto a partir de sua produção específica para o curso, sem contar, mas não desprezando, o trabalho paralelo de cada integrante do sindicato em suas atividades individuais.

            As propostas foram quatro: articulação entre uma frase e uma pintura sorteadas; combinação entre uma frase e uma pintura à livre escolha; análise de um quadro e trabalho final, a partir da leitura de “Sindicato dos calígrafos”, conto do escritor gaúcho Moacyr Scliar. O principal mérito do grupo foi justamente a multiplicidade de visões, não gerando uma unidade temática, técnica ou expressiva. O respeito a essa liberdade parece ser a maior qualidade do sindicato.

            Mônica Huambo começou a sua jornada no diálogo entre o artista plástico Canaletto e o filósofo Voltaire. O trabalho plástico realizado naquele momento mostrou a preocupação em encontrar na tela do mestre italiano a essencialidade, expressa, naquele momento, pelo arco numa muralha e por uma mulher de vestido vermelho, apresentados esteticamente em embalagens de pizza.

            Num segundo momento, música e pintura se mesclaram. A pintura de Milliet, solene em sua religiosidade e no afã de mostrar a fé do homem de campo na própria terra e na divindade. Curiosamente, as figuras em posição de reverência à terra foram transformadas em anjos delicadamente coloridos e com traços enganosamente infantis, que se tornaram pela sua expressividade, em muitos momentos próximos ao abstrato, um dos belos momentos do curso.

            No trabalho final, foram apresentadas duas visões conceitualmente importantes, em termos do jogo com a caligrafia e da construção de uma pipa. Talvez pela pressão do tempo, o ideal talvez houvesse sido a fusão dessas duas idéias, com uma pipa que trabalhasse a questão da caligrafia de uma forma aparentemente ingênua e criativa. Creio que o futuro pode indicar um  caminho nesse sentido.

            Ana Luisa Sirota de Azevedo fez uma trajetória menos regular, mas com dois momentos bem expressivos. Começou com a comparação entre o pensamento de Fernando Pessoa e a obra de Matisse, apresentando uma colagem em que se destacava uma figura do mestre francês surgida em meio a uma favela. Foi apresentado um trabalho que poderá ser desenvolvido com mais precisão no futuro, principalmente pela decisão conceitual mais clara se a proposta é o trabalho com cor, a questão social ou ambas as tendências.

            O passo seguinte foi uma reflexão sobre a personagem Ofélia, de Shakespeare, a partir de obra sobre a virgem suicida realizada pelo simbolista Redon. O trabalho incluiu uma jornada, infelizmente breve, sobre o poema “Ismália”, de Alphonsus de Guimaraens, já que o potencial deste último merecia um maior aprofundamento.

 No trabalho final, as linhas da vida se entrecruzaram na constituição de uma figura evocada por Matisse em meio a um bastidor. O jogo entre as diversas possibilidades dessa palavra e a figura humana foi explorado com aparente simplicidade, mas densidade conceitual, no jogo entre o caixilho que segura o tecido a ser bordado, a coxia do teatro e o interior da alma humana.

Assim, o ser humano construído por linhas com o coração à mostra é o mesmo que encontrávamos em Matisse em meio à favela. O que predomina é uma visão delicada e sensível da realidade, na qual o ser humano parece preso em seu destino, na roda vida, num jogo que não consegue dominar ou entender, mas do qual participa pela doação de emoções constantes.

Patrícia Janaína Santos iniciou a aventura no sindicato com uma reflexão sobre a arte acadêmica e as maneiras encontradas pelo impressionismo para romper as barreiras da arte considerada “bela” pelos parâmetros oficiais. Pintores como Manet, Monet, Renoir e Degas, entre outros, quebraram, cada qual a seu modo, aquilo que as academias de arte postulavam.

Sua breve reflexão sobre Amélia Toledo mostrou um pensamento apurado, embora ainda sucinto, da capacidade da artista de trabalhar elementos como a cor e a linha em benefício do questionamento do significado da arte. O pensamento de Pátricia sobre a arte considerada mais conceitual revela a necessidade de um conhecimento cada vez maior do passado para uma compreensão cada vez mais denso de como a arte contemporânea revisita e redimensiona numerosos conceitos.

O trabalho final tomou como ponto de partida uma referência específica do texto: a menção ao fascínio de um calígrafo pelo pingo no “i”, para criar uma série de figuras humanas de cunho expressionista que exigem leitura atenta e não podem ser subestimadas. Embora, à primeira vista, possa parecer que não há originalidade, encontra-se ali uma visão bem pessoal do significado da arte e da vida. Os personagens surgem presos entre limas de ferro, prontos a explodir e a buscar a sua liberdade.

Roberta Fialho de Abreu teve como primeiro desafio a obra de Delacroix. De uma pintura desse pintor romântico, plena de movimento e fantasia, escolheu a figura de um leão como exercício criativo. Apesar dessa pesquisa não ter prosseguido, percebia-se o desejo de transformar um elemento de uma obra maior no foco da atenção.

Esse mesmo exercício tornou-se mais evidente quando se buscou analisar a pintura de Chagall. A leitura feita da obra do mestre do surrealismo deixou clara a preocupação de verificar o vocabulário pictórico de cada artista e a sua poética, mesmo pressuposto, ainda não plenamente realizado, quando ela se propôs a mergulhar na obra do holandês Vermeer, com suas sutis tonalidades de cor e trabalho intenso com a luminosidade.

A pintura apresentada sobre o texto de Scliar trabalha a cor de uma maneira muito peculiar e expressiva, mas, pelos desenhos apresentados durante o curso, creio que ainda é possível dar a esse trabalho mais alma. A questão do caminho abordada demonstra uma pesquisa técnica em andamento, mas falta ainda uma maior liberdade para soltar a pincelada e utilizar toda a capacidade do desenho com intensidade.

Quando o apego à técnica e à pesquisa com a arte japonesa der cada vez mais espaço ao prazer manifestado no desenho, o resultado sairá naturalmente, como o cair de folhas de uma árvore. Ele simplesmente acontece, sem a necessidade de explicação. Do mesmo modo, as grandes obras virão quase sem que a própria Roberta perceba.

            Fátima Lima segue uma trajetória bem pessoal. Após um diálogo entre Magritte e Sartre, em que a presença do primeiro ofuscou o segundo, teve um grande momento no desenho realizado a partir do poema “O corvo”, de Edgar Allan Poe. Mostrou aí capacidade de lidar com a técnica e com as formas, partindo de um texto escrito e transformando-o em uma obra de grande identidade visual, estilo e personalidade.

            A partir do Sindicato dos Calígrafos, surgiu uma árvore com raízes encantadoras e arbustos que pareciam traços de caligrafia, além da presença de uma musicista no tronco. Talvez essa figura, pela sua literalidade, tenha quebrado um pouco o encantamento do trabalho, mas ele se caracteriza acima de tudo pela habilidade técnica e pela ousadia de tratar o tema proposto de uma maneira diferenciada.

            A habilidade no desenho se associada a um jogo de brancos e pretos intensos pode indicar um caminho de questionamento permanente das formas e da sua capacidade de retratar o mundo. Cada nova obra, nesse sentido, pode ser vista como um passo acabado e integra um processo criativo contínuo em busca de respostas para o próprio significado da arte como forma de representação da realidade.

            Elizabeth Firmino Pereira, em cada encontro, reafirmou o seu amor pelo teatro e pela pesquisa com as mais variadas formas de simbologia de diversas culturas. Seus trabalhos enfocaram Monet, Kiefer e Salvador Dali. A partir dos dois primeiros, surgiram desenhos que integraram imagens a letras e textos de uma maneira bastante coerente, na qual palavras e imagens dialogavam entre si.

            O mesmo recurso foi utilizado no último trabalho, que teve como ponto de partida a citação de um camelo no conto de Scliar. Os três trabalhos visuais apresentados mostram um progressivo exercício de desprendimento e de busca de uma linguagem própria para expressar o próprio universo a partir das propostas apresentadas.

            Nesse sentido, o trabalho que mesclou Kiefer com Clarice Lispector talvez tenha sido o melhor finalizado pela forma de mostrar a aridez da cidade, enquanto o que surgiu a partir de Monet teve o grande mérito de trabalhar a circularidade e o espiral como uma resposta estética.

A continuidade desse trabalho conjugando desenhos e cores com letras e pensamentos pode resultar numa série interessante, desde que haja o desejo de pesquisar técnicas propícias para esse tipo de linguagem, assim como a ousadia de trabalhar em maiores dimensões ou se valer de recursos como a colagem.

Maira Cristina Cussolim preferiu sempre a expressão textual. Nesse sentido, passou pelo diálogo entre Manet e Oscar Wilde; Turner e Piza; e Tiepolo. São artistas bem diferentes, dos quais sempre procurou extrair o máximo em suas análises em termos técnicos.

Aliás, justamente na análise dos aspectos formais dos quadros trabalhados, ela atingiu um resultado digno de menção positiva. Penso apenas que ela pode retirar dessas mesmas imagens mais significados com um exercício maior de entrega pessoal em cada observação, permitindo uma interação mais plena com aquilo que é estudado.

Se a observação formal e técnica e imprescindível, também não se pode deixar de lado que cada artista é um ser humano e, em suas telas, há resquícios de sua humanidade e, de uma maneira ou de outra, a emoção se faz presente. Nesse aspecto, o trabalho final, poderia ter mergulhado mais fundo nas motivações dos calígrafos e dos artistas em geral ao fazer a sua arte e escolher uma determinada forma de relação com o mundo, que vem da pré-história e se faz presente até hoje de diversas maneiras.

Adriana Emiliano também escolheu o texto como manifestação. Seu conhecimento de Nelson Rodrigues foi diversas vezes manifestado tanto sobre aspectos da vida como da obra dramatúrgica do artista pernambucano, assim como de seu irmão Roberto, um artista plástico que ainda precisa ser redescoberto.

Ao se debruçar sobre a obra de Coubert, também demonstrou desenvoltura ao discorrer sobre as quebras de paradigma desse artista francês realista, seja ao mostrar corpos nus femininos numa relação supostamente lésbica ou ao estudar a maneira como ele inovou ao mostrar pessoas pobres e enterros em sua obra pictórica.

O único senão é que, assim como a Maira, talvez tenha faltado, no momento de tratar o texto de Moacyr Scliar, mergulhar um pouco mais nele para, aí sim, esboçar as próprias inquietações e considerações sobre a arte. O próprio texto fornece, creio, numerosas pistas que poderiam ser melhor aproveitadas.

Ana Luiza Guarnieri Christ, embora não tenho seguido o percurso proposto por questões extra-curso, teve um momento significativo no trabalho realizado a partir da obra de Matisse. A maneira como pintou a sua tela e a explicação dada oferece um ponto de reflexão importante e gera a certeza de que seu trabalho pode evoluir muito se houver uma concentração na visão de cor como uma forma de relação com o mundo.

Após um breve diálogo entre Degas e Hipócrates e com o universo colorístico de Matisse, diluído com a utilização do pigmento branco, é possível vislumbrar um potencial de intenso crescimento se houver a seleção de um tema qualquer e se buscar o esgotamento de possibilidades cromáticas, principalmente com cores quentes e suas mais e menos prováveis variações.

Também participaram do sindicato, embora brevemente, Ester de Morais Cervera e Glaucia Gomes. A primeira, com rápidas aparições, possibilitou contribuições importantes, principalmente em questões referentes à história da arte numa linha diacrônica, tendo bastante claro como os movimentos se desenrolaram e suas inter-relações ao longo dos séculos.

Glaucia Gomes mostrou seus trabalhos durante os encontros e apresentou uma obra vasta que caminha para numerosas direções simultaneamente. Talvez suas árvores e caminhos sejam as jornadas imagéticas mais interessantes, apesar de haver numerosas brincadeiras visuais com caligrafia que se inserem bem na proposta do texto de Scliar.

A solução de apresentar numerosos pequenos trabalhos com letras de idiomas inventados parece ser uma saída plástica digna para o conto do escritor gaúcho. O jogo de imagens e de cores faz vislumbrar numerosas possibilidades visuais, sendo interessante imaginar um conjunto desses trabalhos em óleo com o título “Caligrafia do imaginário”, ou algo semelhante.

Nessa diversidade está a riqueza dos Sindicato dos Calígrafos. Buscar homogeneidade de expressão não parece ser a melhor opção. A ampla variação de soluções que veio à tona aponta para caminhos diversos que podem se manifestar a partir de um elo comum: o amor e a dedicação à arte como forma de ação profissional.

Assim, o Sindicato dos Calígrafos cumpre o seu destino. Enquanto o texto de Scliar propõe perguntas. Para os que escolheram a via plástica, a resposta veio por meio de imagens de várias naturezas, enquanto os que optaram pelo texto poderiam ter talvez aprofundado uma das múltiplas vertentes.

Acima de tudo,  os trabalhos apresentados geram novas indagações sobre o que significa a arte no mundo contemporâneo. E responder esse dilema não é pouco. Trata-se de um desafio para a vida inteira que o Sindicato dos Calígrafos enfrenta com as mais diversas artes, desde a da letra a do desenho e a da escrita. São diferentes caminhos e rios que se unem numa estrada chamada vida e num mar de esperança.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

 

 

 

 

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