por Oscar D'Ambrosio


 

 
 


    Os simbólicos véus da aquarela 

           

            Segundo Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de símbolos, as significações da água podem ser reduzidas em três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração. Por se adaptar a qualquer forma, a água representa infinidade de possíveis.

Para o aquarelista, a água é como um poço no deserto da existência, um universo de alegria e de encantamento, relacionado à purificação. Feminina, sensual e maternal, cria véus, esconde e revela possibilidades, trazendo em si mesma tanto a semente da paz e da ordem dos estáticos lagos plácidos, como também da fecundação repleta de espuma das masculinas ondas do mar agitado. 

            É nessa perspectiva que surgem mestres da aquarela pelo mundo, relacionados com uma das mais tradicionais representações da cultura ocidental, a mitologia clássica, com seus 12 deuses primordiais, que serão associados a igual número de temas e de aquarelistas de reconhecido talento, sendo seis com atuação internacional e seis com residência no Brasil.

            A gravadora, pintora, aquarelista e educadora de arte de origem polonesa, Fayga Ostrower (1920-2001) é um marco. Viveu na Alemanha de 1921 a 1933, quando veio para o Brasil e praticou xilogravura, gravura em metal, litografia, serigrafia, e aquarelas, além de capas e ilustrações de livros e discos. Tratou de temas sociais, sob influência do expressionismo, e passou depois ao abstracionismo informal, como na aquarela Ondas (1990), alegoria do poder de tudo criar, transformar ou destruir presente em Zeus (Júpiter).

Por sua vez, o pintor e aquarelista inglês, Joseph Mallord William Turner (1775-1851), desde jovem, voltou-se para a paisagem e para a aquarela, tendo praticado na escola de J. R. Cozens. Fez numerosos estudos do campo inglês e dedicou-se também à pintura a óleo, tomando como modelo os paisagistas clássicos. Na Itália, porém, acentuou os trabalhos com efeitos de luz, chegando a uma dissolução progressiva de temas, a uma quase total abolição das formas e à adoção de uma paleta intensamente luminosa, que seria evocada pelos impressionistas, como ocorre em Amanhecer após o naufrágio (1840), imagem que evoca todo o poder da morte de Hades (Plutão).

O pintor e gravador inglês, John Sell Cotman (1782-1842), um dos melhores representantes da Escola de Norwich deixou paisagens em aquarela e também a óleo, caracterizadas pela pureza do desenho e pela estrutura rigorosa das formas. É o caso de Aqueduto Chirk (1807/08), diálogo imagético complexo entre a natureza e as construções arquitetônicas que o ser humano impõe ao meio. É esse poder de transformação da natureza que aproxima o artista de Posídon (Netuno), que, muito mais do que uma divindade das águas, tem o poder de transformar o mundo com a força de seu tridente.

Entres os aquarelistas aqui escolhidos, o primeiro, em ordem diacrônica, é o pintor, gravurista e aquarelista alemão, Albrecht Dürer (1471-1528), entre 1490 e 1508, realizou várias viagens e, na Itália, descobriu o Renascimento. Alternou a pintura com a aquarela, como em sua célebre Lebre (1502), a gravura em metal e em madeira, dedicando-se a temas religiosos e mitológicos. O trabalho expressa o desejo do deus Apolo (Febo, para os romanos) por conhecimento da realidade circundante.

O norte-americano Winslow Homer (1836-1910) também é um dos maiores. Sua arte ganhou novas colorações após ter ido para o Caribe. Apresenta uma peculiar forma de trabalhar o brilho, a luminosidade da água e a riqueza de cores, como ocorre em Armadilha para tartaruga (1898). Há neles a expressão do conflito entre viver/morrer tão próximo ao mundo do deus da guerra, Ares (Marte).

Gravadora, desenhista e pintora, a carioca Renina Katz (1925) apresenta dois momentos. Inicialmente, enfoca temas sociais tratados em figuras realistas fortemente influenciadas pelo expressionismo alemão. Posteriormente, passa para uma arte mais próxima ao abstracionismo, mas acentuadamente lírica, como ocorre em obra Sem título, de 1995, que se coloca no limite entre a figuração e a abstração, numa louvável jornada de pesquisa formal, com excelentes resultados estéticos. Há justamente em seus trabalhos a reflexão sobre o fazer artístico, próprio de Hefesto (Vulcano), o deus das forjas, único ser divino que trabalha em busca da perfeição formal de suas ferramentas.

            Celebrizado por imagens hiper-realistas e pela grande luminosidade, que, em geral, reflete sentimentos de solidão e alienação, o pintor e aquarelista norte-americano, Edward Hopper (1882-1967) consagrou-se com seus quadros da vida cotidiana de seu país. Um exemplo é Via principal (1931), aquarela em que focaliza uma estrada ladeada por casas banhadas pelo sol do entardecer. Há nele todo o equilíbrio da deusa da justiça, Atenas (Minerva).

            O olhar atento caracteriza o trabalho do paulista Rubens Matuck (1952). Aquarelista, gravador, pintor, escultor, desenhista e ilustrador, tanto em suas vertentes mais próximas à arte figurativa em imagens do universo urbano de São Paulo, como em experimentações próximas ao abstracionismo, como ocorre em trabalhos com suporte de ouro folheado é capaz de captar desde o universo físico e mental feminino (Mulher, sem data), às nuanças de um pôr-do-sol até a beleza presente nas penas de um pássaro, na pele de um animal ou nas linhas de uma construção arquitetônica. Como a deusa Ártemis (Diana), ele se rege pelo amor à natureza e à vida em si mesma.

            Já o paulistano Tomaz Ianelli (1932-2001) começou a dedicar-se à pintura, em 1957, participando, a partir de então, de vários salões de arte moderna. Considerado um dos maiores coloristas brasileiros, sua temática aborda líricas recordações da infância, em uma pintura de geometria suave, como em Casa do pescador (1980). Destaca-se, de sua produção, a exposição de aquarelas Capitanias de mar e serra, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1976. Seu trabalho foca, entre outros aspectos, o lar, as casas simples e poéticas e singelas moradias, mundo dominado pela luz divina de Héstia (Vesta).

Pintor, aquarelista e gravador alemão, Emil Hansen, dito Emil Nolde, cidade em que nasceu, em 1867, e faleceu, em 1956, é um mestre. Seu trabalho com a cor e a sua vontade de expressão e de emoção aproximam-no do grupo die Brücke, do qual participou, em Desden, em 1906/07. Nas cores saturadas de suas aquarelas, apresenta uma peculiar visão lírica, como em O artista e sua esposa (c. 1932), uma apropriação da arte egípcia. Trata-se de um dos mais intensos trabalhos já feitos sobre relações humanas e, mais especificamente, sobre o casamento, universo de Hera (Juno).

             O paulista Norberto Stori (1946) cria, em suas aquarelas, algumas de grandes proporções, céus muito pessoais. Nos anos 1990, por exemplo, inicia um período de experimentação com o papel colorido como suporte. É a Série Sírius, que alude justamente a maior e mais brilhante estrela da constelação da Ursa Maior. Surge assim, como em Sírius II/96, uma estética que, apesar de marcada por tons escuros, utiliza muito os efeitos da luz e do reflexo, em jogos de claro e escuro dominados na mitologia pelo par de deusas Deméter/Perséfone (Ceres/Prosérpina), lembrando que a primeira, a mãe, vive na superfície do planeta e a segunda, a filha, com seu marido Hades, nas profundezas da terra.   

            Iole Di Natale (1941) impressiona pela intensidade das imagens, deixando marcas existenciais no observador. Nascida na Itália, veio com a família para o Brasil, em 1949. Artista generosa, que ensina o que sabe e pesquisa o que desconhece, pinta o amor não porque tenha lido sobre isso na sua inigualável biblioteca de arte nem porque domine várias técnicas. Seu segredo, como em No dia do meu 53º aniversário, criar aquarelas e gravuras quentes de humanidade e plenas do amor universal que nasce da valorização de cada instante do cotidiano. Esse amor ao próprio ato de amar aproxima a artista de Afrodite (Vênus), deusa do amor e da capacidade de criar e seduzir.

            Juan-Eduardo Cirlot, em Dicionário dos Símbolos, lembra que o signo da superfície, em forma de linha ondulada de pequenas cristas agudas, é, na linguagem hieroglífica egípcia, a representação da água, sendo que a repetição desse signo três vezes indica as águas em volume, ou seja, o oceano primordial da mente humana.

É dele que nascem os doze deuses clássicos, com seus respectivos universos de dominância e seus respectivos artistas aqui tratados, todos associados ao meio aquoso e imersos num oceano existencial repleto de água, fonte de vida e mãe repleta de véus a proteger todos os seres humanos, principalmente os aquarelistas.

 

            Bibliografia

Acuarela Brasil. Ciudad de México: Museo Nacional de la Acuarela, 1996.

BECKETT, S. W. Sister Wendy’s 1000 Masterpieces. London: Dorling Kindersley

Limited, 1999.

CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro:

José Olympio Editora, 1988.

            CIRLOT, J-E. Dicionário de símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.

            Os grandes artistas. São Paulo: Nova Cultural, 1986.

            STORI, N. Da terra aos céus... um vôo solitário. Tese de livre docência defendida

no Instituto de Artes (IA) da Unesp. São Paulo: Unesp, 2001.

 

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica-Brasil). Pós-graduando em Artes Plásticas pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp, é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo) e editor do Jornal UNESP.

 

 

 

 

 

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