por Oscar D'Ambrosio


 

 


  Sima Woiler

 

            Exercício cotidiano de criar

 

O desenvolvimento do próprio talento com muito estudo e pesquisa é a marca registrada da artista plástica Sima Woiler. Em sua trajetória, pelo uso das mais variadas técnicas, como pintura em porcelana, óleo e acrílica sobre tela e, depois, a sua grande paixão, a aquarela, vem conquistando espaço pela maneira como lida com formas e materiais.

Especificamente na aquarela, Sima se encanta com os reflexos que a técnica permite. Atingir as nuanças desejadas constitui um exercício contínuo e cotidiano. Cada novo trabalho representa mais um passo no árduo e prazeroso caminho de trabalhar a frieza da técnica com o calor da emoção.

            Oriunda de pais judeus europeus que passaram por momentos muito difíceis durante o Holocausto da Segunda Guerra Mundial, quando viram parte de suas famílias serem mortas pelos nazistas, o trabalho plástico de Sima Szapiro Woiler é o resultado de histórias de coragem e de perseverança que a levaram a enfrentar e vencer as mais diversas situações.

 

O PAI

            Nascido na Polônia, num dos primeiros minutos de 1º de janeiro de 1922, Alexander Szapiro, pai de Sima, conseguiu se salvar dos nazistas graças ao pai, o padeiro Haim, casado com uma moça chamada Sima, de quem a artista plástica herdou o nome. Quando o filho tinha por volta de 18 anos, Haim viu um caminhão do exército russo passar recrutando os jovens. Não hesitou e lançou o filho no veículo. O jovem perdeu todo o contato com a família, mas sobreviveu.

            Tornou-se sargento do exército russo e alfaiate. De 1939 a 1945, durante a Guerra, atuou em vários lugares, como Afeganistão, Bessarábia Ubesquistão e Sibéria, onde enfrentou falta de alimentos e temperaturas abaixo de 40 graus centígrados. Em 1944, foi transferido para Leningrado e, graças a um coronel, devido à qualidade de seu ofício, passou a trabalhar para a alfaiataria do exército, fazendo roupas para as altas patentes militares.

Após um bombardeio em Leningrado, Alexander foi para a Letônia, onde assistiu ao final da Segunda Guerra, em 8 de maio de 1945. Tendo como principal característica a bondade e o espírito de luta em nome da justiça, muito corajoso, ativista político, ele participou ainda de inúmeros conflitos por causas, por menores que fossem, estando ao lado dos trabalhadores e operários em muitas manifestações públicas e greves. Todo 1º de maio, Dia do Trabalhador, por exemplo, era obrigado pelo exército a estar nas ruas nas celebrações.

 

A MÃE

            Lea Szapiro, mãe de Sima, nasceu em Novaseletz, Rússia, em 20 de agosto de 1922. Seu pai, Kalman (Carlos, em português) Bukstein, curtia peles de boi para fazer selas e exercia, de maneira autodidata, a medicina. Todos na família estudaram, mas ela, por ser mulher, naquela época, não recebeu condições – e isso a magoava muito.

A vida a conduziu para outras atividades e trabalhou muito até a Segunda Guerra. Uma de suas melhores recordações ocorreu quando, aos 15 anos, por meio de uma amiga, conheceu o farmacêutico e perfumista que criou a essência de rosas Tea rose que usa até hoje.   

Durante o conflito Lea viu a sua família ser eliminada pelos nazistas. Salva da morte por freiras católicas, viveu, de 1942 a 1945, em Abodowka. Lembra com tristeza que, à noite, os moradores saiam do gueto russo, por baixo das cercas, para pegar a comida que algumas pessoas que os ajudavam deixavam enterradas em locais estratégicos.     

 

O CASAMENTO

Após o conflito, um amigo levou Alexander para passear na cidade russa de Stanislaw. Ali, ele conheceu a magérrima Lea, que se recuperava dos horrores do conflito. Apiedado daquela moça que havia sofrido, ele a levou para Kislowotska, uma cidade de clima saudável e agradável, onde havia diversas clínicas de recuperação.  

            O casamento de Alexander e Lea ocorreu em 1946. Tudo era tão difícil, que os amigos dele se cotizaram para lhes dar uma cama de ferro. Presentearam também a noiva com um vestido belíssimo feito com tecido de veludo francês. Era tão lindo, que Lea nem tinha para onde ir com ele e acabou por vendê-lo.

            Em 22 de agosto de 1947, nasceu o primeiro filho do casal, Kalman, depois aportuguesado para Carlos. Sima, palavra hebraica que está associada à idéia de “festa”, nasceu logo depois, dia 20 de março de 1951, mas devido à falta de dinheiro, ela só foi registrada dez dias depois.

 

            IDA PARA A POLÔNIA

            Numa Europa atribulada por numerosos conflitos, após morar sete anos em Stanislaw, o casal, querendo sair de uma Rússia envolta em disputas políticas, mudou-se com os filhos para Wrotslav, na Polônia. O conselho foi de um capitão, que explicou a Alexander que não conseguiria sair do país de uma vez, mas sim, gradativamente, ficando algum tempo em algum país dominado pelo exército russo.

Na Polônia, Sima foi educada em polonês, na mesma cidade em que morava o padre Karol Wojtyla, que veio a ser o papa João Paulo II. Assim, desde criança, dominava o russo, o polonês e, depois, já no Brasil, aprendeu iídiche, que os pais utilizavam entre eles quando queria esconder algo dos filhos.

O mais curioso é que, de família judaica, Sima fez a primeira comunhão, pois, ao vê-la triste, os cristãos amigos do pai disseram que essa poderia ser uma forma de vê-la mais feliz. Mostrando um pensamento bem liberal, ele autorizou a cerimônia. Na época, a família morava numa casa que, seguindo uma política de incentivo público local, tinha um pomar, onde eram produzidos maçã, morango e cereja,  e uma dispensa, onde eram armazenados esses e outros alimentos, como batatas, para enfrentar o gélido inverno.

            Sima, ao ser alfabetizada, em vez de aprender a escrever como as outras crianças, começou a desenhar o próprio nome. Isso já apontava uma vocação para o desenho. Suas lembranças do local apontam ainda para uma bela igreja e um bosque. Recorda ainda das brincadeiras com trenó e da neve.

Esses temas reaparecem em algumas de suas pinturas posteriores e vem junto com a fascinação da artista pelo verde e pelas plantas, expresso até no ato de decorar a própria casa com numerosas folhagens, como se estivesse num bosque, em contato com a natureza.

 

VIAGEM PARA O BRASIL

Como a Europa, no pós-guerra, vivia um momento difícil, a família de Sima, após ficar quatro anos na Polônia, decidiu sair em busca de novas oportunidades. Para abandonar o país, era necessário, por determinação legal, ter um chamado, por carta, de algum parente. Já havia parentes de Sima, irmãs da sua avó espalhadas pelo mundo, como Amália, em São Paulo, além de Clara, em Bauru, e Mina, em Israel.

            Assim, Alexander, Lea e sua mãe, Haja – chamados, respectivamente, de Tata, Baba (“avó”) Nova e Baba Velha pela família –, Carlos e Sima emigraram para o Brasil. Foi uma longa viagem de navio de 9 meses. De terceira classe, pararam em numerosos portos e ficavam em cada um deles por muito tempo, numa cansativa jornada.

            Dessa viagem, Sima guarda algumas imagens, como a de Nápoles, Itália, onde as crianças foram visitar uma luxuosa fábrica de brinquedos e ela não queria sair de lá sem uma boneca gigante, levando o irmão Carlos ao desespero, deixando o local rapidamente sem ver mais nada.

            De Dakar, a lembrança é também triste. Sima lembra de como os passageiros de primeira classe jogavam moedas para os estivadores locais, que mergulhavam no mar para pegar aquele dinheiro, numa cena que não esquece até hoje.

           

            SALVADOR E RIO DE JANEIRO

            A primeira parada no Brasil foi o porto de Salvador. Foi um choque conviver com aquele calor. Também foi o contato inicial com pessoas negras e Lea quis tocar nelas para ver se não eram pintadas e desbotavam. Lidar com uma nova cultura era o desafio e isso incluía a comida.

            Eles desceram do navio e foram a um mercado. Ficaram surpresos com a quantidade de frutas diferentes e as suas cores. Queriam comprar tomates, um alimento muito comum na Europa. Adquiriram o que desejavam, mas, quando voltaram à cabine e experimentaram, sentiram um sabor doce. Conheceram assim o caqui.

            A embarcação parou ainda no Rio de Janeiro, mas o destino da família era Santos. Quando chegaram, foram recepcionados pelos familiares que moravam em São Paulo. Era um grupo com aproximadamente 15 pessoas adultas, que fez um comboio para a recepção e a subida da serra.

            Inicialmente, a família morou num apartamento da Rua Pamplona e vivia graças às mercadorias que trouxera da Europa, como jóias, antiguidades, tecidos, tapetes e até uma motocicleta alemã de dois lugares que os alemães utilizavam na Segunda Guerra. Mas a venda desses produtos como fonte de renda começou a acabar e foi necessário mudar para uma residência mais humilde, no Bom Retiro.

            Alexander começou a puxar carroças com mercadorias, principalmente tecidos, mas logo montou uma pequena fábrica com máquinas de costura que faziam overlock, que não desfiava as roupas. Haja, sua filha Lea e Carlos ajudavam muito e o negócio foi progressivamente crescendo, permitindo que eles mudassem para o Brás.

           

            ANOS DE APRENDIZAGEM

Enquanto isso, Sima que sempre gostara de estudar, estava no Colégio Renascença. Ela havia sido alfabetizada na Polônia e continuava a ter no desenho uma de suas atividades preferidas. Isso chamou a atenção de Maura Guedes, uma das professoras da instituição.

Maura começou a estimular aquela menina a produzir cada vez mais, dando numerosos conselhos e, acima de tudo, ajudando a formar, na cabeça de Sima, um conceito: o de que é preciso estudar muito e sempre para melhorar a própria técnica. A aptidão e o amor pelo desenho só se desenvolveriam com muito estudo. Ainda hoje, mesmo quando está numa sala de espera ou falando ao telefone, a artista desenha, praticando o traço sem perceber e concebendo idéias.

            Sima reencontrou Maura, especialista em metodologia de ensino, que lhe deu aulas no primário e no curso normal do Colégio Renascença, numa exposição, em 2004. Foi a oportunidade de reforçar a idéia de que, independendo do caminho a ser tomado dentro da arte, é necessário ter uma base técnica para se aperfeiçoar sempre. Para Sima, o desenho foi esse caminho.

            Para ampliar seus conhecimentos, ela estudou muito. Fez a Escola Panamericana de Arte e o IAD - Instituto de Arte e Decoração, além de cursos na Associação Paulista de Belas Artes e no Liceu de Artes e Ofícios. Para desenvolver sua arte, posteriormente, alugou ateliês e dividiu espaços com outros artistas, sempre no esforço prazeroso de encontrar alternativas para suas texturas.

            A artista, entre outras atividades, trabalhou no Instituto Pestalozzi, cuja missão é prestar serviços educativos para pessoas portadoras dos mais variados tipos de deficiência. Esse espírito de amor ao próximo permanece até hoje, com a cessão de trabalhos, como aquarelas e pinturas, para leilões beneficentes, ou a cessão de direitos de imagem de seus cartões pa instituições assistenciais.

 

            PINTURA EM PORCELANA

            Aos 19 anos, Sima se casou e foi morar com o marido no Rio de Janeiro. Teve um filho, o hoje médico Cláudio Cukier, e uma filha, Renata. Lembra que, após o nascimento dele, queria continuar desenhando. Para conseguir fazer isso, entrava no quadrado onde devia ficar a criança e, enquanto Cláudio descobria o mundo ao seu redor, Sima ia dando os primeiros passos, de forma autodidata, com a tinta a óleo.

            Ela morava em Barra do Piraí e logo soube que, nas imediações, em Valença, numa fazenda de construção inglesa, residia Gilda Pecolt, artista formada na Inglaterra que era especialista em pintura em porcelana. Utilizava tintas importadas e tinha um forno de boa qualidade, realizando um trabalho de extraordinária beleza.

            O local era de difícil acesso e era necessário subir num caminhão quando chovia, mas o esforço valia a pena. Durante mais de dez anos, teve aulas, muitas vezes sob um frio que obrigava as alunas a embrulhar as pernas em folhas de jornal para suportar o intenso frio da região.

            A convivência com a mestre levou Sima a desenvolver uma intimidade artística e a professora passou a ensinar, só para ela, alguns macetes, estimulando-a a continuar com a atividade. Gilda mostrava revistas norte-americanas especializadas em pintura em porcelana e apontava onde o trabalho de Sima podia chegar. Também a incentivou a dar aula, mas ela não achou que estivesse preparada.

            Os desafios propostos pela professora era os mais variados. Incluíam, por exemplo, escolher de improviso uma planta e passá-la para a porcelana ou fazer “mil flores” num vaso, insetos ou ainda trabalhar com a “pena mínima”, ou seja, desenhar com fios de ouro, atividade que exige destreza técnica e delicadeza.

            Esses trabalhos, alguns com hortências, eram realizados geralmente a partir dos elementos plásticos que estavam na própria fazenda, como árvores, flores ou pequenos animais. Os resultados ficavam com ela ou eram presenteados à mãe, mas consistiam num grande desafio de domínio de uma habilidade artística.

 

            RETORNO A SÃO PAULO

            Após se separar do marido, Sima, com seus dois filhos, Cláudio e Renata,  retornou para São Paulo, onde, para sobreviver, montou uma confecção, voltada para senhoras que vestem tamanhos grandes. Teve êxito no empreendimento, mas a atividade frenética, com várias lojas em shopping centers, a afastava cada vez mais da vocação artística.

Desde 5 de novembro de 1994, Sima tem como incentivador o matemático Samsão Woiler. Graduado em Matemática e Engenharia Mecânica pela USP, mestre e doutor pela Universidade de Stanford, foi professor titular do Departamento de Produção da Escola Politécnica da USP e professor-associado da Faculdade Economia de Administração da USP.

            O encontro entre os dois é curioso. Um amigo comum, Wilson, achava que eles tinham nascido um para o outro e tentou apresentá-los. Foi marcado um encontro na Praça Carmel. Brincando, disseram que ele Samsão, viúvo há algum tempo, foi, mas Sima não.

Ao ser perguntada por Wilson sobre o que tinha acontecido, ela, mentindo, disse que  tinha se perdido no bairro de Pinheiros. Achou que a desculpa era ótima. Afinal, ela tinha morado muitos anos no Rio de Janeiro durante o primeiro casamento. Ele logo percebeu, porém, que ela nem tinha se preocupado em ir o encontro, pois o praça onde seria o encontro não ficava no bairro de Pinheiros, mas dentro do Clube A Hebraica, onde ele era diretor e, depois, foi presidente.

Tempos depois, Sima estava sentada em um banco em frente ao Cassino Guarujá, naquela cidade litorânea, com uma amiga, que teve que sair porque um dos apartamentos do prédio em que era síndica estava pegando fogo. Samsão, sem saber que aquela era a moça que havia faltado ao encontro anterior arranjado,  se sentou ao lado dela e começou a tentar puxar conversa.

Ela, porém, não demonstrou o menor interesse. Sansão tanto insistiu, que conseguiu marcar com ela para conversar, ajudado pela mão do destino, pois o amigo Wilson passou pelo local, viu os dois juntos e lembrou da fracassada tentativa anterior de apresentá-los.

Sima então subiu ao seu apartamento, tomou banho, se arrumou e desceu para conversar com ele. Nesse meio tempo, ele havia preparado uma surpresa. Convidou-a para jantar num estabelecimento no Morro do Maluf. Quando ela chegou lá, descobriu que Samsão havia fechado o local só para os dois e que havia alguns testes pelos quais ela precisava passar, como dançar e conversar.

            Pelo jeito, ela passou nas provas, pois eles de casaram em 8 de dezembro de 1998, formando uma família que inclui os dois filhos de Sima (Renata e Cláudio), os três dele (Beatriz, John e André) e os sete netos, que contabilizam em comum e tratam com o mesmo carinho.  

 

            VOLTA À PINTURA

            Desejava retomar a pintura, com seus temas preferidos, como flores, plantas e o mar. Quando percebeu que a tinta a óleo a fazia passar mal, inclusive a levava a vomitar, começou a trabalhar com tinta acrílica. Freqüentava então ateliês onde buscava aprimorar a técnica.

            Numa dessas andanças pelo bairro paulistano da Vila Madalena, em 1997, entrou num ateliê que a fascinou. Ela, que sempre havia trabalhado com pincéis e telas sobre um cavalete, conheceu um espaço em que eram realizados painéis de grandes proporções com os mais diversos tipos de materiais.

            Ficou encantada, começou a ter algumas aulas ali e, principalmente, percebeu que o que mais a fascinava nesse processo era a liberdade de criação que a pesquisa com os mais diversos materiais lhe propiciava. Iniciava assim uma jornada sem volta pela busca dos mais diversos efeitos plásticos.

              Passou a lidar então com materiais orgânicos, arames, tecidos, areias, colas, pedras, cordas e gesso para criar as próprias texturas. Esses materiais com acabamento realizado com tinta acrílica propiciam múltiplos recursos e inclusive levaram  Sima a obter a  primeira Medalha de Ouro no IV Salão Oficial Contemporâneo, em Santos, SP, em 2000. 

            Trabalhar com arte contemporânea, entendida como uma forma de experimentação constante, ganha então uma dimensão quase alquímica. A procura de soluções plásticas é constante e é feita de uma forma a gerar tanto prazer quanto à preparação de uma refeição, dentro de um espírito lúdico em que a pesquisa de material inclui até mesmo a sujeira do ateliê, com experiências com água e mesmo processos de oxidação.   

 

            EXPLORAÇÃO DO ESPAÇO

            Um dos grandes dilemas da arte contemporânea é que os textos elaborados para comentá-la muitas vezes superam a obra propriamente dita, ou seja, o texto de parede na galeria ou espaço expositivo se torna mais importante que aquilo que o observador desejar ver: a plasticidade de um processo construtivo.

A pintora Sima Woiler não oferece esse risco. O que ela realiza é justamente o estudo e pesquisa, mais ou menos intensiva de acordo com a tela, de uma região ou território. Seu universo é o da tela. E ali encontra a matriz para produzir. Resultam desse jogo trabalhos em branco e preto ou coloridos marcados pelo equilíbrio e senso de apropriação do universo pictórico.

Cada obra é resultado de análise, exame e pesquisa, seja da superfície, dos materiais ou dos pincéis utilizados. Perante infinitas possibilidades, a seleção de um caminho significa sucessivas escolhas. Cada uma delas se relaciona a anterior e a seguinte numa seqüência que denuncia uma forma de conceber o espaço no mundo.

Pintar é justamente a habilidade de gerir um empreendimento. Há os alicerces, como o conhecimento técnico progressivamente sedimentado, e os ornamentos, presentes na maneira adequada de entender cada trabalho como um ato de felicidade, uma paixão, não um momento de dor e sofrimento.

Cabe ao observador, nesse contexto, buscar sinais que o façam participar dessa exploração. Cada pincelada é uma pista, assim como cada combinação de cores. O branco, o preto, o ocre ou o vermelho, em local inadequado, podem estragar um trabalho. A sabedoria e o lirismo estão em saber como e onde usar os recursos pictóricos.

As quatro linhas que delimitam uma tela criam um espaço e saber a maneira de explorá-lo exige um requisito básico que Sima Woiler mostra ter: plasticidade, elemento que consiste numa postura perante os suportes e materiais de respeito e, acima de tudo, de atenção e cuidado.

Trabalhos bem acabados são aqueles que comportam duas leituras no mínimo: a puramente estética, no sentido de buscar entender elementos próprios do artista plástico, como a forma de ocupação do espaço, com princípios de cor, forma e equilíbrio; e a existencial, que nos leva a observar nas obras pontes conceituais capazes de gerar indagações de diversas ordens.

O espaço surge, assim, como o de um campo a ser ocupado, uma área a ser devastada. As telas propiciam questionar nosso próprio conceito de apropriação de setores do olhar. Pode ser um ponto que chama a nossa atenção ou talvez a imagem toda.

O importante é que cada obra guarde o frescor de ser única em sua potencialidade de ver o espaço como o mundo em que a criação se dá por inteira. Cada área da tela renasce no olhar de quem vê porque nasceu de um ato criativo consciente e amadurecido.

Explorar o espaço é um exercício plástico que requer conhecer o peso da própria mão para deixar cada tela respirar pelo seu valor intrínseco, tornando o discurso do texto de parede, um adendo, uma informação a mais, um exercício livre do pensar a partir da consciente prática do fazer que um artista, no presente caso Sima Woiler, apresenta. 

 

CAIXAS ARTÍSTICAS

Uma variante do trabalho mais experimental e contemporâneo de Sima foi o desenvolvimento de caixas artísticas e artesanais que eram distribuídas para os clientes ou para os funcionários no final de ano ou em alguma data festiva. A atividade revelou-se muito trabalhosa, mas constitui um relaxamento intelectual pela possibilidade, justamente de lidar com diversos recursos até chegar aos materiais e resultados finais desejados.    

A idéia surgiu após ver umas caixas nas quais eram colados guardanapos artesanais. O resultado era bonito, mas Sima desejava algo artisticamente mais elaborado. Começou então a  buscar caminhos. Começou com caixas de papelão, desenvolvendo formas de impermeabilização e isolamento para realizar suas texturas.

Depois, optou por caixas de madeira compensada e, dentro delas, inseria desde cadernos de papéis reciclados com capas cuidadosamente trabalhadas a conjuntos de aquarelas ou de cartões. Estes últimos, sempre presentes nas exposições de Sima, são uma forma de um admirador do trabalho dela levar uma obra para casa quando, por exemplo, não pode levar um trabalho de maiores proporções. 

 

CARTÕES

São cartões que se tornaram uma marca registrada também dos trabalhos de caridade dos quais Sima participa para várias instituições. Ela Cede os direitos autorais da imagem para diversos cartões de natal e outras datas festivas. Muitos, de tão admirados, as pessoas transformavam até em quadrinhos, colocando pequenas molduras.

  Parte desses cartões vendidos é uma forma de arrecadar fundos para as obras assistenciais lideradas pelo médico pediatra Luis Picovski, formado pela Escola Paulista Medicina da USP. Ele atua em três frentes: servir mensalmente refeições preparadas pelos cozinheiros dos melhores restaurantes de São Paulo a pessoas carentes; prestar serviço assistencial às tribos indígenas da Serra da Cantareira; e atender, gratuitamente, crianças e pessoas carentes com necessidades de cuidados médicos.

 

AQUARELA

            Em suas jornadas pelos ateliês, Sima, certa vez, viu, pela primeira vez de perto, algumas aquarelas. Até hoje, lembra que foi um momento inesquecível. Queria fazer aquilo e perguntou à professora: “Vou conseguir?”. A resposta foi terrível: “Nem tente”. Nada poderia ser mais desmotivador para quem desejava atingir aqueles céus, sombras e luzes...  

            Os trabalhos eram do aquarelista Luis Zeminian, da Escola Paulista de Belas Artes. Para Sima, aquele resultado parecia inacessível. Já dominava, com tinta acrílica, a construção de imagens de casarios, praias e marinhas e costumava pintar cadernos dos lugares aonde ia, aprimorando a sua criação e conseguindo vender os seus trabalhos, mas tinha em mente agora dominar uma nova forma de expressão.

Buscou uma professora, que lhe mostrou como a aquarela era diferente do óleo e da acrílica. Verificou como a água tem o poder de desmanchar imagens, oferecendo ao criador um dinamismo durante todo o processo de construção de uma composição e de uma imagem. 

            Seus primeiros trabalhos com a nova técnica foram flores, como copos de leite e orquídeas, e paisagens. Percebeu que começava a ter resultados, mas não controlava aquilo que fazia. Lembrou das aulas com a professora Maura, que lhe ensinara que era necessário ter uma base para entender aquilo que estava realizando.  

            Não bastava ter talento. Era essencial se aprofundar na técnica para se tornar uma grande aquarelista. A nova professora lhe havia dito que ela tinha condições e Sima continuou com ela, até montar uma exposição, em 1999, no Clube A Hebraica, em São Paulo, mostra que considera um marco em sua trajetória pela confiança que ganhou no próprio trabalho.

Embora fosse bem mais rígido do que o de hoje – que apresenta uma liberdade plástica bem maior –, estando, em geral, mas próximo da pintura a óleo do que da aquarela propriamente dita,  indicava um desenvolvimento plástico que se confirmaria nos anos seguintes e, principalmente nos mais recentes.

 

APRIMORAMENTO

Enquanto preparava os trabalhos para essa exposição, que desenvolveu sozinha, conheceu a artista plástica Galina Sheetikoff, também russa, professora de aquarela, por quem se encantou ao observar, ao lado da então curadora da galeria do clube, Meire Levin, convites de outras artistas que ali haviam exposto.

Como sempre faz antes de escolher uma aluna, Galina pediu para Sima realizar alguns trabalhos e, ao ver que tinha talento, a aceitou, motivando-a a realizar inúmeros exercícios, como aguadas e mais aguadas de preparação do papel. Depois, se exercitou na arte de fazer infinitos céus. Foi então percebendo que, ao contrário do que muitos acham, a aquarela não é “suave”.

A técnica passa a imagem ao espectador de tranqüilidade e leveza, características próprias da água, mas, na verdade, carrega em si a tensão do artista no ato de executar o seu trabalho. Há, no processo criativo, numerosas variáveis, como o tempo de espera da secagem e o próprio desafio de controlar a água para atingir aquilo que se deseja.

Esse esforço por dominar a técnica gera um envolvimento total, que leva a artista a não se alimentar ou a dormir direito quando está no meio de uma série. Chega até a não ouvir o telefone celular tocar em função da elevada concentração para realizar o melhor possível em cada trabalho. Quando está pintando, costuma colocar uma música e admite que ela influencia no resultado final do seu trabalho plástico.

            Embora a aquarela a apaixone, Sima admite que ainda sente um certo medo saudável – talvez respeito – pela folha de papel em branco. Trata-se de um respeito pelo material que a desafia. Pois lhe cabe se esforçar ao máximo para dominar aquele espaço da forma que melhor conseguir, utilizando o seu domínio da técnica e a sua sensibilidade.

 

            TÉCNICA

            Nas oportunidades que teve de dar cursos ou wokshops, a artista insiste que um princípio muito importante na arte é o de se afastar da cópia para seguir o seu caminho. Para isso, é importante confiar no próprio desejo, emoção e intuição, estabelecendo uma poética que expresse  uma relação diferenciada com o mundo.

            O desafio do artista plástico está em não apenas ver o mundo, mas passar a enxergá-lo. Isso significa não só exercitar constantemente essa habilidade, mas se aperfeiçoar para passar uma emoção ao observador. Assim, perante a aquarela ou a pintura, o público terá desejo de mergulhar naquela obra, desvendando seus segredos.

            Sima tem o hábito de realizar estudos. Embora não seja obrigatório, é uma forma de estruturar o próprio raciocínio e as referências visuais. O mesmo vale com o desenho, que ela considera uma base primordial para realizar um bom trabalho plástico e atingir resultados cada vez melhores.  

            Entre suas referências técnicas, está o fato de prender bem o papel, algo ainda mais importante quando observamos que Sima pinta com o suporte em pé, em vertical, não na horizontal como muitos aquarelistas. Isso exige maior domínio do material e está relacionado ao próprio fato de ela ter começado a carreira de pintora, no cavalete, com tinta a óleo e acrílica.    

            A artista, para evitar a monotonia na composição das imagens, coloca a linha do horizonte das paisagens um pouco acima ou um pouco abaixo da metade do papel e, depois, dividindo o papel em nove áreas simétricas, escolhe o local, no encontro entre as linhas horizontais e verticais, para onde deseja direcionar o olhar do observador. Cria assim as suas composições, que podem ter seu ponto focal central numa pedra, numa flor ou num caminho, tudo depende da forma como decide tratar  o espaço num determinado trabalho.

            A experiência ao longo dos anos, o exercício constante e o controle da água, para diluir mais ou menos os pigmentos, são os passos decisivos para a maturidade de Sima como aquarelista. Com o domínio cada vez maior da técnica, parou de ter aulas com Galina e decidiu se soltar cada vez mais enquanto artista, com novas experimentações, dando vazão à criatividade.

 

            DESCOBERTAS

            Meio de expressão caracterizado pelo uso de transparências e velaturas, a aquarela exige um trabalho geralmente rápido e sem retoques, no qual não há espaço para o erro. O aquarelista é justamente um mestre do acerto ou da arte de transformar o aparente erro em reveladora descoberta estética.

Nesse sentido, Sima trabalha tanto com marinhas, paisagens e imagens urbanas da cidade de São Paulo como mergulhos poéticos em que a abstração começa a ganhar espaço. A sua técnica, cada vez mais refinada, pode ser encontrada na forma como manobra com a tinta da aquarela, o aglutinante e a água, matérias-primas a serviço de um fazer no qual o maior talento está em ter uma idéia na cabeça e um perfil realizador para concretizá-la imageticamente.

            Há, em suas obras, seja as aquarelas ou os trabalhos contemporâneos, exatidão, no sentido de se ter uma boa definição de um projeto de obra, formando idéias visuais nítidas numa linguagem precisa, que respeitam o referente concreto. A chamada realidade é facilmente identificável. Isso, porém, não elimina a presença do imaginário, mas indicia um respeito pelo referente, embora sempre com uma poética própria, na qual detalhes podem interferir e enriquecer a realidade observável.          

            A rapidez se faz presente no ritmo utilizado pela artista para questionar a exatidão da representação figurativa, principalmente nos trabalhos mais soltos, onde surgem correlações invisíveis, apenas sugeridas, e gestos com maior liberdade. O campo da sugestão ganha espaço imagético e o tempo ganha novas conotações, ora sendo mais linear, ora mais descontínuo. A velocidade mental é associada à das imagens, num universo em que o referente começa a diluir-se em função da emoção e da intuição.

            Algumas figuras ganham leveza por um sucessivo processo de desaparecimento de formas facilmente identificáveis. O mundo concreto passa ser substituído por digressões poéticas. Os assuntos podem ser vistos com novos olhos, marcados pelo lirismo, pela desconstrução de formas e pela busca da originalidade, um dos maiores desafios de qualquer artista. 

 

            CONSTRUÇÕES ESTÉTICAS

Os processos imaginativos geram numerosas leituras ilusórias e simbólicas rumo ao abstracionismo e à interiorização. As imagens concretas se perdem perante construções estéticas em que os jogos de cores e formas ganham relevância. O processo de abstração revela a capacidade de buscar as essências, numa incessante procura por aquilo que há de especial em cada detalhe e em cada sentimento. O resultado é encantatório, gera interrogações e provoca o observador a desenvolver a sua capacidade de percepção.     

O poder de surpreender constantemente é um dos fatores que dá aos artistas um status diferenciado.  É na mistura de linguagens e na busca de novos pensamentos que a arte se renova. Sima sabe bem disso e pesquisa materiais e técnicas para oferecer constantemente soluções inventivas – e até ousadas – que propiciam maneiras diferentes de ver o mundo. Ao concretizarem esse desafio, as obras da artista entrelaçam, em seus melhores momentos, fatos estéticos e linguagens, com elementos pictóricos e originalidade.  

            Acima de tudo, Sima Woiler desenvolve um paulatino processo de construção de um trabalho pleno em coerência, firmeza e solidez em termos artísticos e existenciais. Verdadeira consigo mesma e honesta em relação à arte que pratica, ela transforma a melhor teoria da aquarela em prática de qualidade.      

 

            A ÁGUA

Matriz do universo do aquarelista, a água, simbolicamente, é fonte de vida, meio de purificação e centro de regeneração. Conhecer melhor as suas representações simbólicas portanto, pode ser o ponto de partida para uma prática artística e acadêmica mais intensa, proporcionando um diálogo mais rico entre alunos e professores dos mais variados níveis.

            Ao trabalhar com a aquarela, o artista realiza uma viagem simbólica pelos caminhos da água. Conhecer cada criador e cada senda possível permite vislumbrar como a técnica pode partir de um mesmo elemento aquoso para atingir distintos resultados estéticos. Essa jornada é prazerosa e educativa, pois mostra que cada criador tem a sua técnica, a sua proposta e a sua forma de ver o mundo.

            Quem faz aquarela lida com o mundo da cor, da transparência, da passagem do tempo e da velocidade, temas próprios da maioria das disciplinas de todos os níveis educacionais. Seja numa escola de ensino básico, médio ou universitário, a fascinação do trabalhar com a água e a tinta é exatamente a mesma.

Conhecer a técnica da aquarela e o simbolismo da água torna-se, assim, um desafio fascinante, que encanta crianças e adultos. Ter contato com as formas de criar com pincéis, água, tinta e aglutinante, como apregoam, aliás, algumas pedagogias, como a Waldorf, constitui uma forma de desenvolver seres humanos mais sensíveis e abertos às mais variadas manifestações de arte – o que não é pouco, numa sociedade cada vez mais tecnológica.

 

EXERCÍCIO DA LIBERDADE

O trabalho com diversas técnicas – o que pode ser visto como uma convivência difícil – torna-se, para Sima, um exercício constante de liberdade. Claro que há diferenças entre os materiais. A tinta a óleo, por exemplo, permite sucessivas correções e sobreposições de tintas. Já na acrílica e na aquarela, isso não existe. É preciso acertar de primeira, devido à própria natureza do material. 

Especificamente na aquarela, Sima se encanta com os reflexos que a técnica permite. Atingir as nuanças desejadas constitui um exercício contínuo e cotidiano. Cada novo trabalho representa mais um passo no árduo e prazeroso caminho de trabalhar a frieza da técnica com o calor da emoção.

            Para Sima, pintar significa passar uma mensagem por meio das tintas. Isso não significa didatismo, mas sim a veiculação de uma visão de mundo. O tema não é o importante. Pode ser uma paisagem, uma forma abstrata ou uma flor. O essencial estaria na paixão colocada em cada ato criativo.

            O falar do artista está expresso justamente nos sentimentos que consegue transmitir. Por isso, o silêncio ou uma música suave são essenciais na criação das obras mais importantes. O espaço do ateliê torna-se sagrado, no sentido de propiciar a relação da artista com o mundo. Assim, Sima Woiler sente que fala por meio das tintas e transforma as suas emoções em imagens.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 
 

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 Tranquilidade II
aquarela s/ papel 38x56 cm 2004

Sima Woiler

 

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