por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

Silvio Dworecki

 

            O eixo

 

            A arte comporta a capacidade de criar situações em que a realidade passa a ser vista com outros olhos. É justamente isso o que ocorre com o trabalho de Silvio Dworecki. Ao longo de sua trajetória, existem algumas permanências que vão conformando uma interpretação visual.

            Uma dessas marcas está na presença de linhas verticais que auxiliam na composição das imagens e estabelecem um mundo caracterizado pela construção de obras que se distinguem por uma pesquisa de materiais que o acompanha desde o início da carreira, enriquecida pelo diálogo com mestres com Mario Schenberg e Flavio Motta.

            Na série denominada Eixo aparecem questões fundamentais de sua poética, que inclui, por exemplo, o uso de pigmentos e cinzas diretamente depositadas sobre a tela sem o uso do pincel. Existe nesse processo a convicção de ver a arte como um campo em que  busca é um absoluto constante.

            A fascinação pelas cinzas provém de um histórico familiar, que remete à experiência dos pais, judeus poloneses que vivenciaram a Segunda Guerra na Europa, marcada pela destruição dos bombardeios, escapando da perseguição nazista. Essas imagens das ruínas e do poder do fogo o encantaram.

            O resultado plástico não se dá apenas sobre a tela, mas envolve também a criação de livros de artista com papel queimado. Cada um deles é absolutamente único, pois a maneira do fogo interagir com o material ganha as mais diversas expressões, numa espécie de caleidoscópio de formas e nuances cromáticas delicadas.

            Essa mesma solenidade, numa atmosfera densa, se faz presente em cadernos sobre o 11 de setembro de 2001. Páginas de notícias de jornal a respeito do atentado são colocadas em envelopes plásticos com carborundum. Resulta daí um efeito sonoro ao virar as páginas e a incômoda presença das cinzas que remetem ao fato histórico.

            O trabalho com cimento, que endurece e cristaliza o efêmero torna-se ainda um exercício de congelar o tempo. O instante surge onipresente com os mencionados eixos e incisões, literais, no sentido do que se realiza numa placa de gravura, ou gráficas, como na pintura e na monotipia.

            A discussão que Dworecki instaura é a do encantamento do fazer. As cinzas são ruínas da civilização, mas, ao mesmo tempo, numa das versões do mito grego da criação do ser humano, é delas – onde estavam o lado divino de Zagreu, filho de Zeus, e dos titãs que haviam devorado esse primeiro Dionísio – que Prometeu molda o homem.

O ser humano pode então ser considerado uma mescla da divindade primordial com o aspecto irascível dos titãs. Nesse sentido, a obra plástica do artista paulistano traz um poder demiúrgico, mesmo em trabalhos mais recentes, quando o eixo é deslocado e curvado, ele se faz presente como uma referência, mesmo que exista para ser destruída.

Cinzas, pigmentos e verticalidade compõem um universo arrojado. O percurso é complementado pelas experimentações editadas em cadernos e pelas monotipias realizadas sobre papéis vegetais coloridos. O conjunto formado traz à tona um artista digno desse nome, revelador de um pensar sobre a vida e sobre o próprio fazer da arte.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

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 Camadas de tempo 46.0.0 
cinzas e pigmento sobre tela 126x104 cm 1995

 Silvio Dworecki

 

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