por Oscar D'Ambrosio


 

 


Silviane Cristina de Oliveira

 

            O desafio da metamorfose

 

            Conceber os animais como seres irracionais, em relação aos humanos, e a metamorfose como uma atividade constante do próprio movimento do universo são os pontos de partida da instalação Animais em metamorfose, de Silviane Cristina de Oliveira, apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso no Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo.

            Sob orientação do docente Norberto Stori, ela desenvolveu uma pesquisa em que esses dois elementos (o simbolismo dos animais e a capacidade de mudança inerente ao ser humano) são desenvolvidos com ampla pesquisa bibliográfica e estabelecimento de diversos paralelos e relações.

            É, porém, a instalação enquanto objeto artístico que merece nossa especial atenção. Animais desenhados em pastel seco sobre papel, com interferência de nanquim e lápis de cor,  foram dispostos numa estrutura circular em cujo centro estava uma estrutura espelhada tridimensional, de alumínio e insulfilm.

            A sala, em preto, criava o ambiente intimista propício para que a pessoa entrasse nesse círculo e vise os desenhos expostos em forma circular. Além disso, a mencionada estrutura no centro contribui para dar o efeito de mutação desejado, ou seja, há um espelhamento que contribui para gerar uma atmosfera de mudança constante naquilo que se vê.

            O objetivo, nesse sentido, foi atingido. No entanto, algumas perguntas surgem ao entrar em contato com a instalação – e todas elas têm como ponto de partida a qualidade intrínseca do desenho de Silviane. Nesse sentido, talvez a decisão de obrigar o observador a ficar muito próximo dos trabalhos traga uma perda no sentido de captar o efeito que a sua feitura promove a distância.

            Sendo a qualidade do desenho uma característica cada vez mais rara e menos valorizada em diversas situações, é uma pena que a instalação não valorize o próprio ato da construção das imagens como elemento essencial do metiê do artista plástico em seu caminho de aprimoramento contínuo.

            Se, por um lado, a instalação funciona para o objetivo para o qual foi concebida, por outro, a sua montagem talvez não permita ao observador perceber a densidade do desenho de Silviane. Talvez a montagem de um grande painel alongado e retangular, seguindo as paredes da galeria, com os trabalhos sobre papel (por que não em escala maior?) pudesse ser uma alternativa para que as metamorfoses pudessem ocorrer ao longo do próprio suporte, sem a necessidade de um recurso externo.

       Talvez com a iluminação focando as próprias obras, entendendo-as como resultado final, não como integrantes de um todo maior, o conjunto espelhasse ainda mais o conceito de metamorfose, no sentido de o desenho, por possíveis mutações internas, ser motivador de mudanças conceituais e até de consciência ecológica de quem o vê. Assim, o ato de lidar com a metamorfose e os animais transforma-se no desafio de saber fazer e de aprimorar a capacidade de ver o desenho sincero e de qualidade que Silviane Cristina de Oliveira oferece.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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