por Oscar D'Ambrosio


 

 



 

            Silvia Maria Voss Rodrigues

 

            Uma brincadeira que ficou séria

 

            A toy art é uma brincadeira que ficou séria. Nascida como uma maneira de inserir a arte no cotidiano das pessoas, foi, gradativamente se tornando um grande  comércio, envolvendo artistas, empresários e todo um mercado consumidor com diferentes perfis.

            Em seu Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo, Silvia Maria Voss Rodrigues discute justamente o contexto em que nasceu e se desenvolveu a toy art, além de ter produzido um conjunto de bonecos e um site.

            Intitulado Quando eu tiver um amigo vou brincar até morrer: um objeto de toy art e realizado sob orientação do docente Omar Khouri, o projeto mostra como a toy art é uma forma da arte penetrar no universo privado. Seriam formas de culturas pessoais de criadores entrarem em residências alheias, levando uma mensagem.

            Ter um toy art é, portanto, possuir uma peça de um artista, a preço acessível, em sua própria residência. Trata-se de uma linguagem que mescla, inclusive, arte, design, ilustração, intervenção urbana, histórias em quadrinhos, animação, instalação, entre outras formas do artista se inserir como produtor cultural.

            Silvia faz ainda um percurso por artistas que transitam nesse universo amplo e de fronteiras pouco delimitadas, como o coletivo argentino Doma (“Nós somos viciados na reação que as pessoas têm quando vêem nosso trabalho”), Camille Rose Garcia (narrativas baseadas em contos de fadas), Gary Baseman (criou boneco de neve que se apaixona por uma sereia) e Mori Chack (admite que suas figuras nascem de experiências de infância).

            Como a adolescência hoje teve sua duração estendida, tanto o universo visual infantil como o de suas narrativas se faz cada vez mais presente, inclusive pela forte presença do videogame. Estamos então falando de artistas que não só se inspiram na sua infância, mas que a prolongam inclusive em seu trabalho plástico.

Em relação a toy art, as matérias-primas podem ser tanto o plástico vinil, como é o caso do Bicudo de Rui Amaral, como a madeira, utilizada pelos índios Karajá, como o tecido, utilizado por Silvia, entre outros fatores, pelo menos custo e grande possibilidade de manipulação.

A pesquisa vê a relação idealizador, produtor, distribuidor e consumidor como sendo de mão única, embora talvez seja interessante considerar que, quando se pensa em alguns produtos em larga escala, existe a possibilidade de reversão desse processo, com ocasiões que evitam a unilateralidade desse caminho.

É claro que a opção pelos materiais mais artesanais e pelo caráter alternativo da produção caseira constitui uma rota de fuga. No entanto, à medida que uma iniciativa desse porte obtém sucesso, no sentido de haver uma solicitação maior de produção, parece quase impossível fugir de um mecanismo produtivo que comprometa o artesanal em nome da produção massiva. Isso pode não significar perda de qualidade, mas, pelo menos,  alteração na trajetória da feitura e no raciocínio da divulgação.

Especificamente quanto à produção de Silvia, como ela mesma admite, tem seu ponto de partida em rascunhos e anotações desde 2001. Afirma que a intenção não era de divulgação, o que pode vir a se alterar no futuro.  A questão é que a origem do processo está no desenho, o que, particularmente, em tese, me parece muito saudável.

Entre seus trabalhos, destaca Os cabeças de vento (idiotas, carecas e verdes, felizes em três, ameaçadores em dupla), O homem que tinha minhoca na cabeça (protagonista que queria descansar, mas, como a cabeça não parava de pensar, fez um pacto com  demônio para que voltasse a viver com a condição de que as minhocas dominassem o seu cérebro) e O homem passarinho (um homem acredita que é um passarinho e tem como amigo um rato, que o acompanha em sua tentativa de pular do alto de um prédio e tentar voar). A discussão da relação entre o dono e o animal de estimação se faz presente, por exemplo, em “A menina com seu inseparável cachorro”, feita para Cabeças de vento.

A toy art, para Silvia, teve, como primeiro projeto, os bonecos de uma menina e de um cachorro ligados por uma coleira e, como realização, um protótipo dos Cabeças de vento em formação dupla que funcionavam como cachecol em volta da cabeça, aludindo ao enforcamento que buscavam nessa composição.

  A busca com moldes, volumes, tecidos, combinação de cores e proporção levou a novas pesquisas. Uma delas, de especial interesse, Menino com um rato na cabeça, enfoca um menino que, após matar seu animal de estimação, apropria-se de seu corpo para continuar ligado a ele.

Essa trajetória leva a dois produtos: a criação de bonecos de pano e a produção de um site. O desafio foi adaptar uma idéia ou desenho para ser transformado em objeto que possa integrar o dia-a-dia de alguém. Merece destaque a peça que mostra um rato unido por seu rabo a um passarinho.

Estão aí o universo daquele que domina a terra, tem dentes, praticamente rasteja e é repudiado por transmitir doenças (o rato) e o que trafega no ar, tem bico, voa e é símbolo da liberdade (o passarinho). Dessa ambivalência, surge um objeto híbrido, no sentido de uma mistura que se realiza em si mesma e propicia lembranças de outros seres.

A proposta é que o toy art não seja vendido, mas trocado por algo que a outra pessoa tenha produzido “por ele próprio, não comercialmente e independente de sua área de atuação”. Isso permitiria que o intercâmbio de objetos não seja apenas entre artistas, mas entre qualquer pessoa. Nesse aspecto, o site proposto funcionaria como uma espécie de portifólio, que reuniria trabalhos realizados pela Silvia ou recebidos por ela. 

Em síntese, se considerarmos a toy art como uma adaptação de trabalhos pessoais ao formato de brinquedos, Silvia atinge plenamente seu objetivo. Cada boneco carrega um pouco do seu universo pessoal e ter um deles significa carregar parte do universo pessoal dela, colocando-o em um novo ambiente, de alguém que se identifique com esse trabalho.

Quanto à eliminação de instâncias intermediárias, soa um pouco utópica, no sentido que está se falando de objetos concretos, de tecido, e as pessoas precisarão se encontrar para fazer essa troca. Isso pode vir a ser feito pelo correio talvez, mas se a imagem não corresponder ao real? E se o encontro pessoal for tão ruim que leve a troca a ser desfeita? E se a foto a ser colocada na Internet desvirtuar o objeto dado?

Assim, os desenhos feitos para não serem mostrados, despretensiosamente, talvez como brincadeira, tornaram-se sérias manifestações de uma relação muito forte entre vida e morte. O ratinho tritura com seus dentes e  pássaro bica. A excitação dos dois para fugir dos seres humanos os machuca, pois, ao buscar a vida, caminham para a morte.    

Quando se pensa no trabalho de Silvia como híbrido, é necessário tomar cuidado, pois o termo, definido no reino animal ou vegetal para o ser procriado por duas espécies distintas, produz seres como mula (jumento com égua), bardoto (cavalo com jumenta), ligre (leão com tigre) e zebróide (zebra com eqüino), caraval (serval fêmea e um caracal macho) e serviçal (caracal fêmea e um serval macho), geralmente estéreis.

Não me parece ser esse o destino da toy art de Silvia Maria Voss Rodrigues. Longe da produção em massa do grafiteiro Rui Amaral, feita na fábrica de plásticos do artista plástico Juan Muzzi, e das bonecas de Vitória Basaia, artista carioca radicada no Mato Grosso que faz bonecas mórbidas e altamente sexualizadas que coloca, sozinhas ou em grupos, em embalagens de vidro usadas para guardar produtos como azeitonas ou semelhantes, ela parece trabalhar na fronteira entre o que é agradável de ver e de tocar e o que aterroriza e pode matar.

Daí a felicidade do título de seu trabalho. Brincadeira e morte estão associadas, algo muito presente também nos poemas que Silvia coloca em anexo. O engraçado e o trágico se mesclam, assim como no trabalho da baiana Virginia de Medeiros, 33, que em seu estúdio Butterfly, originalmente montado em Salvador, recebia travestis que davam depoimentos em uma poltrona que a artista intitulou “Poltrona dos Afetos”. Em troca de álbuns de retratos, oferecia um book, necessário para que esses depoentes ganhassem a vida.

São trabalhos de natureza diferente, é claro, mas onde a troca se faz presente, algo aliás explorado em diversas instalações promovidas pelo Itaú Cultural, seja com objetos, seja com imagens, numa tentativa de promover o diálogo entre o artista que expõe e o público que freqüenta o espaço.

Silvia oferece em seu trabalho uma mescla das mais interessantes entre amor/ violência e atração/repulsão. Há delicadeza e crueza que se coadunam num diálogo inconformado, mas sincero, em que perpassa uma extrema sensibilidade reflexiva sobre o ato de estar no mundo.

O sentir e o fazer colocam-se lado a lado como expressões de um mesmo ser inconformado com certas coisas sim, mas nunca acomodado perante o que significa ser humano e ser artista. Se o lado mais cruel e agudo, for cedendo espaço a uma visão igualmente lírica, mas mais esperançosa, talvez, cada toy art que hoje vemos de sua autoria será a manifestação daquela que pode ser uma ilustradora (palavras que muitos, por preconceito, vêem como crítica e não como manifestação suprema de arte) de livros infantis e infanto-juvenis de raro talento, pois, para isso, ela tem dois requisitos básicos: a magia do desenho e a mente aberta que lhe permite a capacidade do livre imaginar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

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  Rato com passarinho
Série Quando eu tiver um amigo vou brincar até morrer Toy art Boneco feito de tecido 2007

Silvia Maria Voss Rodrigues

 

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