por Oscar D'Ambrosio


 

 



Silvana Langlois
A arte como purificação


Assim como o cavalo e a diligência no século XIX, o trem assumiu, no século XX, o símbolo de ligação entre lugares, pessoas e mundos. Especificamente na pintura da artista plástica argentina Silvana Langlois, indicia a conexão entre o mundo da fantasia e o da realidade. É por intermédio de simbólicos trens e caminhos que conteúdos psíquicos individuais atingem a esfera universal.
Nascida em 17 de dezembro de 1958, em San Nicolás, Buenos Aires, Argentina, Silvana, em telas como Trem do sul consegue transmitir justamente essa passagem fantástica entre a nossa realidade concreta e o mundo paradisíaco. Um trem, com dois vagões visíveis, as casinhas de tijolo, as ovelhas pastando, a igreja ao fundo e um ambiente de paz e harmonia dão ao quadro a tranqüilidade que a vida cotidiana da maioria de nós não atinge.
Formada em Química, Silvana começou na pintura como autodidata, buscando expressar com autenticidade seus sentimentos. Nesse sentido, cumpre um dos pré-requisitos do mundo naïf, ou seja, segue seus princípios interiores, não as normas estabelecidas pelas academias. "Não seguia nenhuma escola, técnica ou regra pré-determinada. Eu apenas tentava expressar, de maneira simples, alegre e muito colorida", diz a artista.
Em seguida, participou, em 1995 e 1996, de jornadas de arte, realizadas pelo artista plástico Alejandro Costas e, a partir de 1999, começou a freqüentar o ateliê da artista naïf Marilyn Itrat. "Ao estar perante à tela em branco, rodeada de pincéis e pinturas, muitas sensações me inundam. Sinto que é 'meu momento', aquele em que posso transmitir tudo aquilo que vejo, penso e intuo", afirma.
Silvana realizou sua primeira mostra coletiva, em 1995, no Salão de Outono, em Morón, Buenos Aires. "O naïf surgiu espontaneamente desde minhas primeiras pinceladas. Me identifico com esse estilo, que me transmite muito paz, confiança e segurança, espelhando o que sinto", comenta. De fato, seus quadros revelam uma constante busca de calma e harmonia, sendo um refúgio seguro para o homem moderno mergulhado num caos de busca desenfreada por poder e dinheiro.
Observando as telas de Silvana não existe tensão de formas, de contornos ou de cores. Pelo contrário, predomina o domínio de uma paz de espírito onipresente que não parece ameaçada, mas pronta a permanecer para sempre. "Com os meus quadros, queria mostrar um mundo melhor, sereno, em que o simples e o cotidiano representam as pequenas coisas da vida", avalia a própria artista.
O efeito no espectador é imediato. Cada tela é justamente um rito de passagem entre aquilo que cada pessoa vive e o que desejaria experimentar "Gostaria que aqueles que contemplam minhas obras sintam, mesmo que seja por um instante, o que há nelas de sincero e verdadeiro", declara Silvana. E ela deve ficar satisfeita, pois suas telas traduzem justamente uma tranqüilidade espontânea e um equilíbrio formal e estético.
Após alguns anos de inatividade devido a compromissos pessoais e profissionais, Silvana está recuperando essa dívida com ela mesma. Não só se dedica a pintar com o prazer, satisfazendo sua própria necessidade criativa, como desenvolve, junto a colegas de trabalho, no Grupo Warmi, uma pesquisa sobre técnicas de tingir, de maneira artesanal, fibras têxteis com tintas naturais, extraídas de plantas autóctones da Argentina, num trabalho que abarca aspectos botânicos, químicos, culturais, etnológicos e antropológicos.
No entanto, é na pintura que Silvana apresenta criatividade e soluções muitas vezes originais para variados temas. Clave de sol e lua, por exemplo, revela uma constituição original. Com o satélite ao fundo, uma grande clave musical é disposta no meio da tela, sendo toda aproveitada para uma narrativa.
Na parte superior, uma bela árvore constitui a parte superior da clave, sendo que a parte de cima de seu tronco se verga para iniciar um caminho, que liga as duas casas junto à árvore com a parte inferior do signo musical, em que está retratada uma imagem que combina, em romântica atmosfera, residências junto a uma montanha com delicadas figuras humanas.
Mesmo ao realizar cartões de Natal, Silvana busca não repetir padrões consagrados. Em Flores para Jesus, por exemplo, há um anjo sobre uma nuvem despejando flores sobre o filho de Deus. Peças de uso caseiro, como jarros de diversos tamanhos, são inseridos na composição, criando uma curiosa relação em que o profano da vida de Jesus e de sua mãe dialoga com o divino que surge do céu.
O encontro retoma essa temática religiosa. Sob a soleira de uma porta, a estrela de Belém ilumina Jesus, no colo de Maria, que vê a chegada dos três reis magos. A harmonia da composição entre o passo dos camelos, o caminho e o facho de luz da estrela tornam a tela especialmente interessante, dando-lhe um diferencial em relação a um tema dos mais conhecidos na iconografia católica.
Ainda nessa linha de tratar por uma nova óptica imagens cristalizadas, a artista argentina consegue um ótimo resultado em Mensagem. A tela, que evoca as criações oníricas do pintor belga Magritte, também realiza o elo entre a estrela de Belém, avistada através de uma janela no céu, e dois observadores, juntos a uma poética árvore. Para completar o cenário, uma bela lua cheia, que introduz mistério e torna o quadro mágico em seu poder de criar uma realidade além da cotidiana.
O quadro A mimada do rebanho acentua ainda mais a preocupação da pintora pela criação de ambientes idílicos. Neste caso, a pintora não só ocupa a tela, mas também pinta sobre a moldura. À direita, há uma pequena ovelha sendo acariciada docemente e, à esquerda, um potrinho se aconchega junto ao animal mais velho e protetor. O paralelismo entre os dois blocos dá ao quadro vida e delicadeza, reforçando a idéia de que é possível a existência de um mundo melhor.
Esse mundo melhor pode ser atingido graças à arte. Por isso, a tela Bagunça no ateliê ganha relevância. A contrário da maioria de seus quadros, instaura desequilíbrio. Talvez a grande mensagem esteja justamente no fato de que a desordem na arte é a alternativa para ordenar um mundo caos. O artista, em sua mente livre, desobediente a regras, ainda mais quando se trata de arte naïf, reúne os atributos necessários para criar um novo mundo, que siga a sua ordem.
A bagunça do ateliê expressa a busca artística por um novo universo. Nesse constante mergulho nas qualidades artísticas inatas e no estudo e pesquisa de novas formas de expressão para as idéias que cada um guarda na alma, Silvana produz telas como Tulipas, que mostra uma janela lindamente decorada com essas flores típicas dos Países Baixos, que, pelo seu colorido, despertam no espectador justamente o senso de que a natureza oferece o equilíbrio que a nossa sociedade gostaria de ter.
Trens e estradas são metáforas comuns no trabalho de Silvana Langlois. Sua obra permite a passagem entre o mundo em que vivemos e o que desejaríamos estar. Seja via uma locomotiva ou um caminho que vincula mundos no espaço, as pinceladas da artista possibilitam conhecer um novo universo, em que a arte se apresenta como instância purificadora, uma alternativa para criar um mundo de intensa luz e humanidade em meio às metrópoles violentas e irracionais que crescem em todo o mundo, especialmente na América Latina.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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