por Oscar D'Ambrosio


 

 


Silhuetas urbanas, de Alexandre Bernardes

 

            Escritor belga de origem francesa, Georges Rodenbach (1855-1898) afirmou que “toda cidade é um estado de alma e basta demorar-se nela um pouco para que esse estado de alma se comunique, se nos propague num fluido que se inocula e se incorpora com a nuança do ar”.

O artista plástico Alexandre Bernardes, nesta exposição, mostra o resultado do exercício criativo de caminhar com os olhos e os sentidos bem abertos por uma metrópole como São Paulo. Trata-se de uma jornada que permite vislumbrar milhares de silhuetas de pessoas que habitam as regiões ou que apenas estão passando por ali. Um fator, pelo menos, as une: o anonimato. Não são seres humanos por inteiro, mas figuras sem nomes a buscar seu espaço.

            Com percepções de mundo diferenciadas, cada um desses personagens urbanos tem uma história, uma visão de realidade. E essas múltiplas visões daquilo que chamamos de real vem à tona nesta série de pinturas de um artista paulistano que tem no ambiente urbano um de seus principais pontos de partida.

            Estamos perante uma dúzia de trabalhos que tratam de figuras urbanas de diversas formas, num percurso por qualquer grande cidade do planeta. O foco está nas pessoas, que surgem de maneiras diversas, com a aplicação de várias técnicas, mantendo a coerência do uso da matéria como recurso para atingir os mais variados efeitos.

Nesse sentido, é paradigmático o trabalho em que, numa tela quase em branco, temos apenas o esboço das silhuetas. Ela indica o início de uma jornada que inclui a intensa pesquisa com tintas de diversas origens. Surgem, assim, rostos cobertos de branco que nos convidam a uma observação mais distante e trabalhos com bastante matéria que exigem uma contemplação mais próxima para ver as texturas que foram alcançadas.

Sem detalhes nos rostos, as figuras de Alexandre Bernardes são o retrato do caminhar pela cidade. Pouco importa se são mendigos, pedintes ou grupos andando à deriva ou com a objetividade de um relógio em direção a um emprego ou à sua residência.

São, acima de tudo, silhuetas urbanas. Quando se pensa em metrópoles, poucos são os que escapam da esteriotipada imagem do skyline. Bernardes criou o seu próprio paradigma urbano: grupos, pares ou figuras solitárias em meio a uma cidade invisível, apenas sugerida por fundos construídos com vários materiais, geralmente com grande liberdade no movimento dos pincéis e no uso de instrumentos de pintura.

            Os títulos de cada tela não são necessários. Seriam limitadores perante a amplidão mental que cada criação propicia. A cidade que ele estabelece é um universo de silhuetas, de figuras, ora mais sensíveis, ora mais fantasmagóricas, ora mais divinas, que fascinam pela diversidade.

            A cidade de Bernardes não é a dos prédios, dos ônibus, das ruas repletas de automóveis. É a das pessoas sem rosto, sem olhar; é a de seres repletos de materialidade e sentimento em seus corpos. Com conhecimento técnico, uso e abuso de técnicas mistas e muito sentimento, as silhuetas urbanas que ele cria conquistam, porque indagam; fascinam e encantam, porque nos fazem pensar sobre o que é uma cidade, como as pessoas vivem nela e como isso pode ser levado para a pintura.

                       

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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