Siegfried Kreutzberg:
Um alemão de alma brasileira
O espanhol Pablo Picasso já disse que
"o segredo da arte é baseado na forma que não se procura,
mas se encontra". E afirmou isso com conhecimento de causa,
pois sua obra é talvez a mais completa da História da Arte. Se
criou o revolucionário cubismo, mostrou também talento para
agradar aos acadêmicos, dominando as mais variadas técnicas e
estilos. Acima de tudo, encontrou sua própria forma de
expressão, como fez, por outros caminhos, o pintor naïf alemão
Siegfried Kreutzberg, radicado no Brasil há 25 anos.
Sigi, como é chamado pelos amigos,
nasceu na Alemanha, na região da Baixa Saxônia, em 19 de outubro
de 1937. Formado em Engenharia Mecânica, com especialização em
Engenharia Energética, fez o serviço militar, em 1960, na base
da Nato, em Erding, Munique, Bavária, criando-se em Colônia,
onde viveu até 1976.
O período vivido na Alemanha foi de
muitas aventuras e experiências fascinantes que encontrarão
expressão na obra do artista. Em 1966, por exemplo, viajou para
as Ilhas Canárias, Tenerife, Espanha, onde viveu por um ano na
comunidade hippie Flowers Children ("Crianças das
Flores"). Dois anos depois, viajou para a Índia e Ilhas
Maldivas, onde praticou mergulho, dando continuidade a uma vida
que valorizava as maravilhas da natureza.
Em 1976, Sigi decidiu vir para o Rio
de Janeiro. Morou na Baixada Fluminense e trabalhou numa
multinacional até 1992. Nesse período, não perdeu a vontade de
conhecer novos lugares e realidades. Movido por esse desejo, em
1979, fez uma viagem ao Peru, conhecendo a mística Machu-Picchu.
Reuniu assim amplo material existencial para a sua futura
conversão em pintor.
Três anos depois, o objetivo era se
embrenhar na selva amazônica. Sigi embarcou num vôo noturno para
Manaus e, dali, viajou numa embarcação popular até Belém.
"Foi a jornada mais divertida e aventureira de minha vida.
Foram seis dias junto a pessoas que transportavam animais vivos.
Também foi a primeira vez que dormi numa rede", lembra.
Mas a jornada não parou por aí. Sigi
ficou fascinado pela região e morou numa tribo indígena da
Amazônia, conhecendo e pesquisando a importância da vida e dos
costumes desses povos para a história brasileira. Todo esse
estudo surge nas numerosa obras posteriores em que trata de lendas
amazônicas, como Lenha do Nhaumundá – Rio Amazonas, pintado,
segundo o artista, "com lembranças das lendas que me foram
contadas na Região Norte do país".
Nova mudança ocorreu em 1993.
Contratado por uma consultoria de engenharia para trabalhar em
São Bernardo do Campo, SP, mudou-se para Peruíbe, SP, onde ficou
até 1997. Foi nessa cidade que começou a sua carreira de pintor.
Aconselhado por um amigo, adquiriu pincéis e tintas e, sem estudo
técnico algum, enfrentou o desafio.
Autodidata, Sigi é mais um naïf que
se descobre para a arte em idade avançada. Mas isso não
significa uma limitação. "Demorei um tempo para
aperfeiçoar a técnica de pintar com tinta acrílica, mas não
desisti", afirma. De fato, em sua estréia, em 1997, no II
Salão de Artes Plásticas da Oficina Cultural Tom Jobim –
Peruíbe, SP, recebeu diploma e medalha de ouro, pelo quadro
Aurora Indígena.
Esse quadro é o mais premiado da
carreira do pintor, tendo recebido, ainda em 1997, menção
honrosa no I Salão da Prefeitura Municipal de Peruíbe, SP, além
de diplomas, em 1999, no XVI Salão Mostra do Inverno Maringá –
Visconde de Mauá, RJ, e no Salão Espaço Cultural Genésio Lopes
de Fontoura, em Maricá, RJ.
A tela mostra índios em volta de uma
fogueira com chamas que parecem um cocar, vegetação amazônica
com árvores e pássaros coloridos, animais rasteiros, como cobras
e lagartos e um lindo céu, com características expressionistas,
emoldurando a cena, além de, na parte inferior, animais
aquáticos. Tudo em tonalidades bem fortes, com predominância do
vermelho e do violeta.
O marchand Nilson Schivianato, de
Campinas, SP, foi o responsável pelo impulso na carreira de Sigi.
Não só o estimulou, como organizou a participação dele na
exposição coletiva Mapa Cultural Paulista 1997, onde teve seus
três trabalhos classificados para representar Peruíbe na fase
regional, em Bertioga, SP.
No fim de 1997, nova mudança. O local
escolhido foi Arembepe, BA, onde morou na casa de um amigo,
próxima à do célebre pescador local Piboca, na mesma região em
que morou a escritora sueca Mariane Greenwood, autora de Meu
verão indígena, amiga do artista plástico Pablo Picasso e de
uma de suas companheiras, a francesa Françoise Gilot.
Nessa período que passou na Bahia,
reencontrou amigos de sua passagem pelas Ilhas canárias e
começou a conhecer os segredos do candomblé, temática, que,
assim como a Amazônia, surge em numerosas de suas obras,
principalmente na figura de Iemanjá e de pescadores com
oferendas. Uma dessas telas, Candomblé na praia, recebeu, em
2000, medalha de ouro no II Salão da Prefeitura Municipal de
Peruíbe, SP.
Em 1998, Sigi mudou para Cabo Frio,
RJ, mas, entre dezembro de 1999 e fevereiro de 2000, teve outra
experiência inesquecível. Morou em Mundaú, uma pequena aldeia
de pescadores, a 150 km de Fortaleza, CE. "Participei da vida
da comunidade e fui pescar com uma tripulação de cinco homens em
uma pequena lancha, em alto mar, durante 15 dias", conta.
"Lutamos contra a força das ondas e contra um tubarão.
Aprendi muito com aqueles homens simples, de poucas palavras. Me
entreguei ao conhecimento deles que navegam sem instrumentos
tecnológicos ou uma simples bússola".
De toda essa vivência, surge a arte
de Sigi, que ele mesmo classifica como Naïf Contemporânea,
senso, em boa parte, baseado em mitologia indígena a africana.
"Pela pintura, me sinto como criança, que, ao perceber uma
maravilha, sente vontade de reproduzi-la", afirma.
"Gosto e amo este país, retrato as paisagens, as pessoas e
seus costumes com motivos folclóricos."
O maior reconhecimento artístico para
Sigi ocorreu em 1999, quando foi classificado no terceiro lugar,
na categoria pintura no Prêmio Banco Real Talentos da maturidade,
recebendo um diploma e o Troféu Personagio Che Comanda, do
escultor Elvio Becheroni, pelo quadro Pescadores em Arraial do
Cabo, realizada em 1998., que mostra uma cena no porto com dezenas
de pescadores, algumas embarcações e gaivotas voando, com
predomínio das cores rosa e azul.
Boa parte do trabalho do artista
alemão é inspirado em sua vivência na selva Amazônia. Para
enriquecer e comentar suas telas, ele escreve textos que chama
narrações, em que comenta quadros, como o citado Lenda do
Nhanmundá, além de Monumento da História: Brasil 500 anos,
Orixá da caça, Nyi (Mãe Terra), Tapi e Tapi caçando a
Sucurijú.
Os dois últimos tratam de um jovem
índio que, segundo Sigi, está sendo preparado para assumir a
liderança de sua tribo no Alto Xingu. "Ele não deve
gargalhar, precisa conhecer os mistérios das matas e rios,
aprender a ouvir os conselhos dos mais velhos e manter as
tradições dos povo. Para isso, respeita o pai e o avô, mas
também aprende a língua dos brancos", conta o artista,
autor de outros quadros sobre a região, como A amazona Romi Kumú
(A Super fêmea da Selva Amazônica), Aurora da primavera na Selva
Amazônica, Festa indígena e Árvore da vida indígena, entre
outros.
Mas não só de lendas e mitos da
Amazônia vive o trabalho de Sigi. Na Série dos galos, surge um
artista de ampla expressão satírica à política nacional. Os
seis quadros, intitulados Vereador, Deputado, Senador, Presidente,
Sobrevivência do Povo e Quem está com ele está com tudo
ironizam os escalões do poder. O penúltimo da série mostra uma
briga de galo, "luta proibida mas muito comum no País",
e o último é uma sátira a Roberto Marinho, proprietário do
império Globo, a mais poderosa organização brasileira de meios
de comunicação, com ramificações em jornais, revistas, rádios
e televisões. "Ele interfere na vida de cada um dos
cidadãos da nação e na vida política, na cultura e na
educação", critica o artista.
Em 2000, Sigi realizou a série Folhas
coloridas, 42 desenhos realizados com bico de pena em tinta
nanquim sobre papel cansom colorido. Diversas dessas imagens
evocam as pinturas primitivas de Altamira, Espanha, ou Lescaux, na
França, enquanto outras se inspiram no mundo indígena brasileiro
Outros temas retratados por Sigi são
imagens das imensas salinas de Cabo Frio, a beleza da Represa
Billings, o contraste de um carro de boi na linha do horizonte
avermelhado, a vida dura dos bóias-frias, o colorido da festa do
bumba-meu- boi; e mulatas, quintais, imagens de auroras cariocas e
do reveillon em Copacabana. "Quando pinto, retrato na tela os
meus sentimentos. Minhas mãos executam e falam o que sente minha
alma tão pequena neste universo tão grande", afirma. .
Na maioria dessas obras, observa-se a
preferência pelas paisagens e por um trabalho constante sobre a
forma humana, em busca de soluções próprias. "Não gosto
muito de pintar o rosto das pessoas porque um rosto não diz
muito; é anônimo. Mas quando pinto um, o ponto mais forte são
os olhos, pois eles nos permitem ver a beleza neste mundo",
declara.
Apaixonado pelo Brasil, leitor de
Hemingway, de quem certamente admira o espírito aventureiro; de
Jorge Amado, com quem compartilha o amor à Bahia; e de Darcy
Ribeiro, que muito o ajudou a entender os índios, Sigi é um
autodidata inquieto, estudioso da arte primitiva ancestral e dos
naïfs brasileiros, como Antônio Poteiro, Djanira e Heitor dos
Prazeres,entre muitos outros. "Em meu trabalho,de
alemacarioca, retrato a cultura brasileira com os olhos de
estrangeiro", afirma.
É da sua riqueza existencial que Sigi
retirou a matéria-prima de sua obra. Do período morando no Rio
de Janeiro, surgiram as mulatas estilizadas, lânguidas e sexuais;
das viagens pela selva amazônica, o conhecimento da mitologia
indígena; da experiência na Bahia, as imagens do candomblé; e
dos anos em Cabo Frio, as salinas e vistas do porto local. Em
todos essas imagens, recriadas com diversos tons de vermelho, que
dialogam com pretos, verdes, azuis e amarelos intensos, ele sabe,
como poucos, desnudar a alma brasileira.