Sidney Lacerda
A arte do desafio
“Sou a filha da Terra e da Água,/ E a criança mimada
do Céu:/ Passo pelos poros do oceano e das praias;/ Eu mudo,
mas não posso morrer”. Esses versos do poema A nuvem
do poeta inglês Shelley (1792-1822) estão na gênese do
processo criativo do artista plástico Sidney Lacerda.
Nascido em
Bandeiras, Minas Gerais, em 5 de abril de 1966, teve a sua
iluminação estética vendo as nuvens passar no céu,
construindo as mais variadas formas. Outra imagem que o
acompanha até hoje são as silhuetas das colinas que
caracterizam o seu Estado. Com essas imagens na cabeça, não
tardou a se manifestar nele a vocação artística vista, entre
outros pela crítica e professora Ernestina Karman.
De seus primeiros
desenhos ao patamar artístico que está hoje, Lacerda percorreu
um período de aprendizado e de experimentações, com diversos
materiais e técnicas. Algumas características permanecem como
a preferência por materiais orgânicos, como os minerais, e
pelo uso de cores terrosas.
Para a série Fendas,
por exemplo, realizou numerosos estudos em busca de soluções
poéticas e visuais em que trabalha justamente com a
possibilidade de múltiplas aberturas a partir de criações em
que utiliza principalmente a linha reta, num resultado de esmero
técnico, mas de certa rigidez plástica.
Progressivamente, a
dureza desse trabalho começa a dar espaço à pesquisa com o
uso de massas de cor, que cortam a tela com a rapidez de um
punhal. São obras de grandes proporções que impressionam pela
gestualidade e pela capacidade de transmitir movimento ao
espectador.
As pinturas de
Sidney Lacerda instauram então uma dança mental com aquele que
as observa. Trata-se de arte abstrata, mas carregada de
humanidade. Sua matriz está na harmonia entre as cores e na
busca de um traço absolutamente próprio, criado com a pureza
das nuvens do céu e as linhas do horizonte mineiro.
É desse encontro
entre céu e terra que Lacerda, radicado na capital paulista,
tira a sua energia. Mesmo quando trabalha com outras técnicas,
em preto e branco, vale-se de manchas de cor para estabelecer
uma harmonia visual que nos convida a sucessivas leituras
interpretativas. Na sua pesquisa com tubos de PVC coloridos ou
fragmentos de madeira cria templos sagrados que igualmente são
uma indução à reflexão sobre a existência humana e sobre a
passagem do tempo.
A grande arte
precisa, acima de tudo, de sinceridade em seu processo criativo.
Isso significa não fazer concessões em nome de galeristas ou
colecionadores, mantendo sempre alerta a sua capacidade de olhar
livremente o mundo circundante e as suas necessidades interiores
para oferecer, em seu trabalho, uma resposta autêntica, única
e resultado de um amadurecimento do processo de criação.
Sidney Lacerda tem a
sua obra marcada pela busca incessante por soluções. Por isso,
o seu trabalho tem um frescor difícil de se encontrar no atual
panorama da arte contemporânea nacional. Suas massas de cor
cruzam a tela e, como nuvens no céu, ganham continuamente novas
dimensões, superando o grande desafio da grande arte: ser vista
mais de uma vez e parecer sempre nova.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é
autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e
Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de
Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São
Paulo).