por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Shoko Suzuki

 

            Cerâmica espiritual

 

            Uma das fascinações da cerâmica é que ela reúne os quatro elementos da natureza. Surge a partir da modelagem da argila, em cuja constituição estão a terra e a  água, e é queimada graças à combinação entre o fogo e o ar. Na exposição de Shoko Suzuki, de 17 de julho a 15 de setembro de 2006, no Espaço Cultural Citigroup, em São Paulo, SP, é possível conhecer uma trajetória de 80 trabalhos que mostra as combinações desses elementos.

Japonesa nascida em 1929 e radicada no Brasil desde 1962, Shoko fascina pela capacidade de criar peças que apresentam perfeição de composição na busca constante de uma melhoria técnica em cada peça, seja ela uma esfera, um cilindro ou um ovóide. A limpidez na forma salta aos olhos logo no primeiro contato visual.

O resultado é uma cerâmica conectada com a espiritualidade, regida por um pensamento minimalista em que a forma é colocada a serviço da essência que cada objeto desperta no ser humano. Nesse sentido, existe um permanente exercício de atingir a melhor solução possível em a cada caso, sempre sob a égide da disciplina e da paciência.

            A ceramista trabalha em seu forno noborigama, próprio para altas temperaturas e oriundo de uma tradição do século XVII, na Granja Viana, em Cotia, SP, a 25 km da capital paulista. Ali aplica e desenvolve, desde 1967, os ensinamentos absorvidos, ainda no Japão, com o mestre Karassugui.  

É pelo refinamento da técnica que Shoko se diferencia. Sua linguagem plástica condena qualquer excesso ou arrebatamento no ato da modelagem. Há, em contrapartida, um caminho em nome do equilíbrio. Para se chegar a esse ponto, no entanto existe todo um aprendizado, interminável e constante.

            Ao se olhar cada trabalho,  o conceito de simplicidade passa a falsa noção de que atingir esse estágio é um processo rápido. Nada mais enganoso. Cada nova peça é, além de uma obra de arte,  um objeto de reflexão sobre o significado da própria representação em cerâmica  das mais variadas formas.

O estilo que a artista japonesa desenvolveu aponta para a coerência de nunca interpretar a forma como uma prisão, mas sim como uma maneira de se libertar de quaisquer limitações. O gestual não se sobrepõe ao exercício cotidiano de encontrar no detalhe a resposta adequada de cada nova peça.

A presença de incisões delicadas e tecnicamente apuradas segue uma lógica interna não-utilitária, mas estética. A harmonia se dá pelo respeito às formas da natureza e à criação de uma atmosfera serena e delicada, propiciada pela elegância nas texturas e no estabelecimento de  um universo em que todo excesso é contido.

            Shoko Suzuki cativa pela forma como modela e queima suas peças. Em cada uma delas, há o conceito de que é em todo o processo o caminho mais simples é sempre o preferível. Tal decisão cria uma dificuldade, pois a jornada para atingir tal dimensão  é certamente uma prática complexa, resultado de anos de experiência, aprendizado e humildade para lidar com a força da terra, da água, do ar e do fogo.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

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conjunto de cerâmicas

Shoko Suzuki

 

 

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