por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sergio Telles

 

            A pintura da coerência

 

            “A tentação mais grosseira do artista é a de ser um gênio”. A frase de Jorge Luis Borges explica muito bem por que há tantos pretensos escritores, pintores e escultores que, com o passar dos anos se tornam insuportáveis, seja como pessoas ou como criadores. Incensados pelo público ou pela crítica, começam a acreditar que estão acima do bem e do mal e a sua obra começa a refletir esse sentimento.

            A exposição de Sergio Telles, na Arte 57, em São Paulo, de 29 de novembro a 16 de dezembro de 2005, é um antídoto a pretensões doentias. Com um currículo de exposições em vários países e obras disseminadas por museus de boa parte do mundo, como o Museu de Artes de São Paulo, além de instituições na América do Sul, Europa e Ásia, ele apresenta o seu trabalho com uma coerência interna admirável: pinceladas geralmente largas, pessoas sem rosto e criação de climas urbanos de intensa luminosidade ganham destaque.

            Um trabalho de pequena dimensões, como Estudantina, de 1993, em óleo sobre madeira, oferece uma visão precisa da linguagem e da poética do artista. O movimento da multidão de personagens surge com força pela maneira de delinear os corpos e de combinar as cores das roupas dos jovens.

            Nascido no Rio de Janeiro em 1936, diplomata, Telles pinta, com um estilo bem definido e seguro, os mais variados lugares, seja São Paulo, sua cidade natal, Líbano, Portugal ou Paris. Os lugares não são o mais importante. O principal é observar como, sem o estardalhaço da mídia ou dos críticos, cada quadro encontra o seu lugar.

            As imagens do Líbano tenderiam a ser aquelas que mais chamam a atenção pelo exotismo, mas isso não ocorre. O que conquista o olho do observador é o trabalho pictórico de Telles. Ele está mostrando cenas de cidades, mas está falando de arte em cada pincelada e justaposição de cor.

            Uma comprovação dessa idéia está nos quadros que Telles faz de ateliês, seja do seu ou de outros artistas. Parece estar nessas criações a busca pelo segredo da criação. O ambiente do criador diria muito do artista? Sem dúvida, lá estão boas parte das matrizes que levam cada um a pintar.

            Nesse aspecto, o ateliê de Siron Franco é exemplar. A luz, os azuis e amarelos se integram na criação de uma atmosfera muito especial, quase onírica, em que o ato de pintar é reverenciado em si mesmo como uma mescla nunca a ser totalmente explicada entre intuição e técnica.

            As cenas urbanas de Telles não são nas cores que as vemos. Há no universo de sua pintura uma marca pessoal, que se faz presente do primeiro ao último instante. Atingir essa verdade interior e consistência artística é privilégio de poucos e geralmente ocorre quando o artista não está preocupado com os holofotes, mas sim com a qualidade de seu trabalho.

            Sergio Telles oferece a oportunidade de conhecer diversas cidades do mundo e ateliês de artistas célebres. Isso, porém, fica em segundo plano perante o seu grande tema: a pintura em si mesma como maneira de interpretar a realidade circundante. Assim, o artista carioca trata, de fato, de um único tema: a capacidade de pintar – e faz isso com talento e coerência, sem a pretensão da genialidade enganosa de que fala Borges, mas com o mérito da sinceridade virtuosa de que o mundo tanto necessita.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

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Estudantina
óleo sobre madeira 24 x 40 cm 1993

Sergio Telles

 

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