por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

Sergio Romagnolo

 

            Caminhos da civilização

 

            O escultor, pintor e desenhista Sergio Romagnolo apresenta uma grande ironia ao mundo dominado pelos meios de comunicação, pelos produtos de consumo e por uma certa futilidade nas relações humanas, cristalizada muitas vezes nos seriados de televisão, uma de suas matrizes criadoras.

            Nos trabalhos dos anos 1980, os super-heróis são colocados nas telas, com o uso da tinta acrílica, em situações cotidianas. Paralelamente, figuras do imaginário de toda uma geração, como o batmóvel, ganham uma versão pictórica marcada por um clima impressionista, no sentido de perda dos referentes concretos e entrada em novas dimensões.
            As obras feitas em plástico modelado que deram maior notoriedade ao artista plástico na década de 1980 também estão presentes. São feitas com um maçarico de gás propano, que amolece as placas de plástico ao encostar sobre modelos de argila úmida de réplicas de santos, dos profetas de Aleijadinho em Congonhas do Campo, MG, de fuscas ou de instrumentos musicais. Tijolos e tênis de marcas passam por processo semelhante, na criação de um universo em que o plástico impera.

A discussão que se instaura é a aparente imperfeição do resultado final. Ele parece mal acabado e contraria a lógica dos modelos originais. Coloca-se em questão a própria noção de belo e, acima de tudo, enxerga-se, por meio do plástico, uma civilização que lida no cotidiano com um tom derrisório, de ausência de referenciais.

As esculturas, ocas, discutem ainda a sensação da falta de recheio. Elas são apenas um simulacro, uma representação. A sua essência foi perdida em nome de uma progressiva diluição, de uma carência de sentido e de uma plastificação que, por um lado, torna falso, mas por outro, maravilha pelo desequilíbrio e fascinação que instaura.

Os trabalhos mais recentes em pintura são sobre o seriado A Feiticeira. Samantha e seu marido James aparecem nas mais variadas situações, mas sempre desfocados, como se a televisão tivesse algum problema. As imagens são sobrepostas, talvez numa alusão justamente ao poder da televisão de criar mitos que vencem o tempo pela sua onipresença.
            Existe uma coerência que decorre de uma trajetória caracterizada por uma visão do mundo que tem como elemento fundamental considerar o cotidiano a matéria-prima para ser desmontada, deformada e reapresentada de uma nova maneira. Colocar um fusca na sua posição habitual. Com as quatro rodas no chão, ou de ponta-cabeça, ilustra essa mesma idéia de quebrar convenções.

Os santos desmaterializados, aparentemente derretidos, as telas que aludem a embalagens e imagens de menininhas deixadas menos concretas e mais líquidas são formas de estabelecer um mundo visual que se distingue pelo anti-conformismo e pela falta de certezas em nome de um indagar constante sobre os caminhos da civilização.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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 Fusca grande 
plástico modelado 160x160x400 cm 2003

Sergio Romagnolo 

 

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