por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Sérgio Lucena

 

            O mundo como teatro

 

            A escritora francesa Simone de Beauvoir dizia que “é na arte que o homem se ultrapassa definitivamente”. Uma possibilidade de melhor apreensão dessa frase ocorre nas pinturas de Sérgio Lucena. Suas figuras, muito próximas ao grotesco de Goya, lidam justamente com a ilimitada capacidade humana de transformar a realidade por intermédio da imagem.

O vigor demonstrado pelo artista pode gerar numerosas reações, de admiração ou de espanto, de questionamento ou de paixão, mas, acima de tudo, impede uma postura indiferente. Seja em suas cenas mais dramáticas e narrativas ou em alguns retratos ou paisagens, surge sempre um especial poder de cativar o receptor.

Nascido em 29 de outubro de 1963, em João Pessoa, Paraíba, Lucena, quando criança viajou pelo interior do Estado e, aos 11 anos, foi trabalhar como balconista na loja do pai. Desses dois fatos é possível detectar duas marcas em sua obra: a influência do teatro de bonecos nordestino e a tendência, no início da carreira, de mostrar as pessoas como elas surgiam atrás do balcão, ou seja, a partir do busto, em planos americanos.

Se hoje Lucena abandonou o plano americano, mantém ainda a forte expressividade que viu até a exaustão no teatro de bonecos. Muitos rostos são autênticas máscaras plenas de dramaticidade, imagens prontas a desenvolver toda uma história em que predominam as fortes emoções.

Como todo artista digno desse nome, Lucena tem o espírito inquieto. Aos 17 anos, inicia a sua trajetória universitária, que inclui dois cursos inacabados: Física e Psicologia na Universidade Federal da Paraíba. As indagações da primeira ciência e o estudo dos símbolos presente na segunda, no entanto, mantêm sólida presença em seu trabalho pictórico.

            A arte é uma necessidade vital desse paraibano. O circo, com seus personagens e lonas, o teatro mambembe, com suas figuras caricaturais, e a tradição figurativa da arte nordestina são referências obrigatórias, assim como a admiração pelas gravuras de Brughel (o Velho) e de Gustavo Doré, principalmente seu trabalho sobre o Dom Quixote, de Cervantes.

            De todas essas influências, surge uma obra que valoriza as tonalidades intensas e figuras humanas com máscaras ou recriadas com rostos contorcidos. Decorre daí um clima fantástico, próximo ao surrealismo. Se o figurativo predomina, ele vem aliado à presença de figuras demoníacas, lacônicas e, muitas vezes, cômicas, dentro de uma linha imagética em que um certo humor crítico se faz sempre presente.

            Em fins de 1986, o próprio Lucena artista verifica um progressivo afastamento de uma arte mais popular e autodidata, próxima ao naïf. A delimitação das formas pelo uso da luz substitui o contorno das formas com a linha, num procedimento mais elaborado de criação estética. Nesse mesmo caminho de busca de maior conhecimento técnico, começa a pesquisar o uso da luz e se aproxima do artista Flávio Tavares, com quem trabalhou no painel A pedra do reino, que homenageia o dramaturgo Ariano Suassuna.

            No ano seguinte, numa experiência artística e existencial, Lucena vai morar na Chapada dos Guimarães, com o objetivo de viver em pleno contato com a natureza, mas, já em 1988, volta a João Pessoa, onde, com Flávio Tavares, desenvolve a série A Divina Comédia, que rendeu quatro painéis durante quase um ano de trabalho.

O trabalho entre Tavares e Lucena gerou uma obra híbrida. De qualquer modo, após esse trabalho conjunto, o trabalho do segundo ganhou novas características, como o uso maior das sombras e das figuras grotescas, resultado provavelmente da mencionada preocupação de trabalhar cada vez melhor intensidades e nuances de luz.

            Durante esse período, Lucena utilizava a tinta acrílica, conseguindo com ela efeitos de velaturas e sombras próprios da tinta a óleo. As suas máscaras e sensualidade, mais ou menos explícitas de acordo com a tela, ganham assim ainda mais mistério, principalmente na criação de situações inusitadas, onde a luz rouba a cena.

            O resultado desse esforço foi a ida para Berlim, Alemanha, primeiro para expor e depois, em 1992, para estudar, com uma bolsa da Deutsch-Brasilianische Kulturelle Vereinigung in Berlin. Cresce assim a possibilidade de pesquisar novas técnicas e estudar os mestres. A paisagem começa então a se tornar dominante na sua pintura, entre outros fatores pela adequação da tinta a óleo para trabalhar grandes espaços.

            Um marco nessa trajetória ocorre em 1995, com o quadro A nave, em que um navio cor de chumbo cruza o mar numa noite clara. Para Lucena, essa obra marca a volta da figura humana ao seu trabalho. Elas retornam a bordo da embarcação e de maneira distinta. São agora menos grotescas, com maior dimensão psicológica e, às vezes, voltadas para temas religiosos, como figuras de santos.

            Capaz de criar sensuais Evas e mortais sereias, Sérgio Lucena desenvolve a sua carreira com exposições individuais em sua terra natal, em Berlim e em Washington, EUA, tendo sido premiado em Recife, Rio de Janeiro e João Pessoa. Atualmente residente em São Paulo, prossegue em sua pesquisa técnica para o domínio cada vez maior da pintura a óleo.

            Seja nas amplas paisagens, nas figuras grotescas ou na busca de arquétipos junguianos em figuras cristãs ou das figuras do tarô, o artista paraibano vive a busca constante de ultrapassar os próprios limites a que se refere Simone de Beauvoir. Nesse processo, desenvolve seu estilo peculiar e cativante, que não é consumido facilmente.

Há em Sérgio Lucena uma tendência natural ao questionamento e à busca de novos paradigmas que impede a acomodação. Assim, cada tela é um novo universo pictórico e, ao mesmo tempo, a mesma busca inicial do jovem que, atrás do balcão da loja do pai, via o mundo como se fosse um imenso e fascinante teatro de bonecos.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (Aica - Seção Brasil). É pós-graduando no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

  

 

 

 

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 "A nave"

 óleo sobre tela 1,50 x 1,30 m 1995

Sérgio Lucena

 

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