por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Sergio Fingermann

 

            O elogio do silêncio

 

            O poeta gaúcho Mário Quintana, ao dizer “O silêncio é um espião”, permite uma leitura aprofundada de Elogio ao silêncio e alguns escritos sobre pintura (Bei Comunicação, 2007), de Sergio Fingermann. Conjugado com exposição realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, o livro coloca o trabalho do artista num patamar em que a prática pictórica e a reflexão sobre o significado da arte caminham cada vez mais próximas.

            Um dos óleos sobre tela, o de número 6, resume, com rara felicidade, apenas presente em algumas obras-primas, o fazer e o pensar sobre pintura. Estão ali, em termos de assunto, o círculo, análogo à simbologia do ovo; o branco primordial, soma de todas as cores; o tronco como representação do esteio da própria vida; a vegetação, que aparece em boa parte dos trabalhos; e um vazio no centro, que se torna uma grande metáfora da própria pintura.

            Como Fingermann diz, “O tema é um artifício” (p. 58). Portanto, esse vazio é justamente o silêncio primordial que caracteriza os trabalhos mais recentes do artista. Sua pintura é justamente o resultado da discussão de um problema: qual é o lugar do silêncio na pintura?

            A melhor resposta talvez esteja na figura do círculo. Como autêntico uróboro, mítica imagem da cobra que morde a própria cauda, ele é o início e o fim de um pensamento infinito. Articulado com cones e quadrados, propõe uma divisão do espaço regida pela busca do melhor diálogo entre as formas plásticas, pois, como ensinava Morandi, pode-se pintar um mesmo assunto toda a vida.

            O importante não está naquilo que se pinta, mas no como isso é feito. Nesse sentido, as imagens de escorridos de tinta em fontes e em paredes constituem a principal metáfora de uma arte que se vale da capacidade de saber observar aquilo que para a maioria pode passar despercebido.

            O olhar treinado vê numa parede antiga, num conjunto de azulejos ou numa fonte em uma praça ou jardim todo um universo visual que é ignorado por quem não amadureceu a arte de ver. Nessa perspectiva, não existe acaso, pois saber incorporar acidentes ou imagens prontas na natureza exige a capacidade de estar apto a observar cada acontecimento ao redor.

            Fingermann incorpora ao trabalho construções arquitetônicas, como arcos – e eles também aparecem, em outras angulações, no formato de uma corda pulada por sombras de crianças. Reforça-se assim a idéia de que o arco em si mesmo é o importante enquanto figura plástica, esteja ele numa arquitetura, entre crianças ou personagens da commedia dell’arte.

            A grande questão que se coloca não é apenas a do silêncio, mas a do exercício do ver. Por isso, a presença constante de músicos, em Elogio ao silêncio, comprova que o assunto não é o importante. Sua pintura fala do ato de pintar em si mesmo, no seu sentido mais profundo e, nesse aspecto, a imagem, seja mais abstrata ou mais figurativa, não é o essencial.

            Retoma, assim, o discurso do arquiteto e historiador francês André Félibien (1619-1695), que, em O sonho de Philomathe, conta como a arte do desenho foi ensinada pelo Amor a uma jovem. Em busca da “nobreza e excelência”, ela é estimulada, por exemplo, a observar as sombras e as luzes.

            Em síntese, passa a dominar questões que Fingermann traz à tona em suas pinturas e em seu livro, principalmente o poder da boa pintura – e da arte digna desse nome de modo geral – de “enganar os olhos”, “produzir falsas aparências” e “jogar com ilusões e enganar os sentidos”.

            A parcimônia no uso da cor em Elogio ao silêncio é coerente, pois a educação das mãos e dos olhos que o artista precisa tem suas raízes no desenho e este, nas nuances dos brancos e negros, oferta seus primeiros grande desafios pela compreensão de que pintar não é reproduzir, mas reinventar.

            O jogo de imagens e palavras proposto por Fingermann não pode tirar a atenção do espectador das suas pinturas. Ali estão os traços, texturas e cores comedidas à espera do olhar do observador. Acima de tudo, o trabalho dele nos obriga a refletir sobre o que nós somos capazes de ver e sentir em nós mesmos de igual e diferente perante a sua obra.

            As fontes de água de três níveis que aparecem em diversas telas podem ganhar conotações simbólicas, pois, quando se mostra ou se fala desses elementos ornamentais, comuns em jardins italianos e franceses, não à toa, essenciais na história da pintura, também está implícito o conceito de criação – e mesmo o sentido místico, pois a tríade está associada à criação, conservação e destruição dos três níveis de vida (divino, telúrico e subterrâneo).

            O silêncio torna-se, assim, uma metáfora da própria pintura de qualidade. O poeta Arnaldo Antunes, ao escrever “O silêncio que ninguém ouviu, foi a primeira coisa que se viu”, já alertava que é nos grandes vazios que a pintura se realiza como força expressiva.

            Em Elogio ao silêncio e alguns escritos sobre pintura, Sergio Fingermann concretiza o ideal de todo artista consciente de saber fazer e também de pensar sobre aquilo que produz. Essa idéia, cristalizada em algumas telas, principalmente na de número 6, mostra como o saber lidar com o branco e com o vazio é a matriz da arte de pintar.

            O arquiteto e artista plástico paulistano oferece, tanto em sua obra plástica como em seus textos, a oportunidade de se pensar melhor sobre o sentido de pintar. Isso exige um gradual processo de esvaziamento da mente e de mergulho em si mesmo, reduzindo o ego que consome muitos artistas em nome da ampliação da humildade e do senso de pequenez no mundo.

O silêncio se torna sadiamente ensurdecedor e a arte de Fingermann ocupa plenamente nossos olhos e mentes. Faz, assim, refletir sobre por que se sente prazer estético ao produzir e ao contemplar uma pintura. Talvez a melhor resposta seja a que ele atinge em telas mais recentes, marcadas pela certeza de que saber se calar e ouvir pode significar pensar mais e dizer muito. Assim, o vazio preenche nosso espaço interno e externo – e o silêncio propicia uma intensa comunicabilidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor de Contando a arte de Adélio Sarro (Editora Noovha América).

 

 

 

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Elogio ao silêncio nº 6
óleo sobre tela 180 x 180 cm 2006/2007

Sergio Fingermann

 

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