por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Sérgio Constâncio

Os mistérios da pedra-sabão 

 

As formas abstratas das esculturas de Sérgio Constâncio são pontos de interrogação que intrigam o observador. As figuras retorcidas em letras "s" que se intercruzam em jogos de serpentes entrelaçadas que oferecem, pelo menos, dois enigmas: 1 - Onde começam e terminam esses braços de pedras?; e 2 - Para onde apontam as curvas desse circuito infinito? 

Para responder essas indagações, é recomendável conhecer um pouco melhor a pedra-sabão, o material utilizado por Sérgio. Variedade de esteatita, tipo compacto de talco que se encontra em certas rochas, esse material, bastante conhecido em Minas Gerais, onde também recebe o nome de saponita é uma rocha que pode assumir diversas cores, como o verde, o marrom ou o cinza. Formada de talco e clorita, a pedra-sabão é muito macia e foi uma das principais matérias-primas da estatuária barroca, que tem em Aleijadinho seu mestre inigualável. Ainda hoje utilizada na fabricação de certos utensílios domésticos, como panelas e cinzeiros, a pedra, é trabalhada por Sérgio Constâncio de modo a formar um universo estético cativante e leve, desprovido do peso que a arte escultórica muitas vezes comporta. 

Nascido em São Paulo, em 1947, o artista se graduou em Publicidade e trabalhou durante mais de 20 anos como fotógrafo para grandes empresas e agências de propaganda. Foi em 1990 que descobriu a escultura e começa a trabalhar com a pedra-sabão, aliando a empatia com o material à busca incessante de novos referenciais e fontes de informação. 

O estudo de técnicas escultóricas com o artista plástico Pedro Pinkalski e, posteriormente, a especialização em mármore, com o escultor Franklin são outras etapas de uma carreira em que a pedra-sabão também é utilizada para realizar estudos e protótipos de esculturas em mármore e bronze. 

Com trabalhos em diversos acervos nacionais e do Exterior, como EUA, Japão, Alemanha, Holanda, França, Canadá e Espanha, Sérgio tem como maior mérito a forma criativa de lidar com o material. Suas imagens abstratas atraem pela habilidade no manejo do material e pelo respeito às suas características inerentes. O artista não exige da pedra-sabão mais do que ela pode dar. Respeita os limites da natureza e os utiliza a seu favor. Cada curva não é uma violação da matéria-prima, mas um desdobramento natural daquilo que a natureza oferece. Assim, artista e matéria dialogam na linguagem da arte. O criador /artista e a criatura/ escultura se unem para oferecer ao espectador um resultado repleto de naturalidade. Não se sente a mão pesada de Sérgio em cada peça que desenvolve. As indagações que ele propõe valorizam seu trabalho como o resultado de extrema beleza estética, delicadeza de composição e refinamento atingido pelo domínio técnico do material com o qual se está trabalhando. 

A pedra-sabão, que sob a forma de pós muito fino, é usada em indústrias de cosméticos, giz, cerâmica e isolantes, ganha, nas esculturas do artista plástico paulista, uma dimensão bem menos pragmática, voltada para os mistérios de criação que cerca as grandes manifestações artísticas. 

Com suas formas abstratas, Sérgio Constâncio gera estranhamento, indaga, perscruta o nosso universo mental e fascina pela capacidade do artista de manter intacta sua capacidade de surpreender, mesmo ao lidar com o mesmo material que as divinas mãos corroídas de Aleijadinho imortalizaram. 

Oscar D'Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 



 

 

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Pedra sabão
15x31x45 cm
sem data  

Sérgio Constâncio

 

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