por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

O que é ser crítico?

 

            A pergunta que intitula este texto perpassa a prática do crítico de arte não só por ser uma reflexão sobre o seu cotidiano profissional, mas por obrigar a repensar os limites entre as atividades do artista e do pesquisador de arte, sem excluir, é claro, aqueles que somam as duas atividades.

            Se, por um lado, a produção artística em si mesma não é uma ciência, a análise da obra artística pode ser considerada como tal, pois tem um certo método. Ao se falar em ciência, porém, não se pode pensar em algo único. Há, no mínimo, três vertentes: a empírico-analítica, a histórico-hermenêutica e a dialética. Vejamos o que elas significam e como se relacionam com o trabalho do crítico de arte.

O sociólogo Auguste Comte, por exemplo, numa ótica evolucionista, vê a ciência como um estágio avançado do ser humano, após este ter passado pelos estágios mitológico e teológico. O seu conceito positivista, de que a ciência trabalha com verdades absolutas, no entanto, teve um sério abalo no século XX, com a teoria da relatividade e a física quântica, que mostraram como as chamadas ciências exatas não são tão exatas assim. Pode-se exemplificar com o princípio da incerteza Heisemberg, que mostrou a impossibilidade de determinar a localização exata de uma partícula subatômica.

            Se na análise empírico-analítica positivista, o foco da análise da ciência é o objeto analisado, com uma busca absoluta da objetividade, como ocorre nas ciências naturais, como nas pesquisas em laboratório; na análise histórico-hermenêutica, o sujeito, ou seja, o cientista ganha o primeiro plano, sendo aquele que busca compreender, a sua maneira, o objeto analisado.

            Os dois caminhos levam a exageros. No primeiro caso, alguns tendem a achar que o objeto analisado, em si mesmo, explica tudo; no segundo, ocorre o oposto, ou seja, relativiza-se qualquer tentativa ou concretização de estudo ou de compreensão de significados.

Desses dois enfoques, surge um terceiro, de grande valia, o dialético, que acredita na interação entre sujeito e objeto como caminho para a análise de alguma realidade, seja ela social, econômica ou artística. Da influência mútua entre o objeto analisado e quem o analisa surge a possibilidade de uma profícua crítica de arte. 

            Ao se analisar o papel do crítico de arte, portanto, são possíveis essas três dimensões. Há aquele que analisa fria e tecnicamente a obra de arte, utilizando critérios técnicos como se estivesse diante de uma planta ou animal a ser dissecado. Há ainda aquele que adora critérios meramente subjetivos, deixando de lado qualquer abordagem lógico-científica; e, finalmente, existe a possibilidade de aliar a observação empírico-analítica ao conhecimento histórico-hermenêutico, encontrando as contradições essenciais e secundárias presentes na obra de arte.

            Essas contradições geralmente estão ligadas ao conflito maior de um artista: a distância entre o que ele vê no mundo e o que ele gostaria de ver. Dessa diferença, surge a arte. Cabe ao crítico identificar o conflito em suas mais variadas formas e verificar como ele se expressa plasticamente, seja por meio de formas, linhas, cores ou outros recursos plásticos.

            Acima de tudo, o crítico, ao se debruçar sobre um objeto artístico, nessa proposta dialética, deve estar apto a gerar um novo conhecimento, ou seja, criticar o que foi feito e o que já se falou sobre o objeto estético em questão, dando a sua contribuição para a reflexão. Quando isso ocorre, o crítico cumpre de fato o seu papel e dá a sua contribuição à sociedade.

 

            Oscar D’Ambrosio, pós-graduando no Instituto de Artes da UNESP, integra a AICA (Seção Brasil) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).


 

 

 

 

 

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