Selma
Machado Simão
O humanismo de
Prometeu
A modernidade traz
muitas conquistas e conflitos ao mundo da arte. Se, por um lado,
a técnica gera a possibilidade de resultados estéticos
absolutamente inimagináveis há poucos anos; por outro, gera o
risco de manifestações estéticas muitas vezes privadas do
sopro vital da humanidade, o fogo divino da consciência que o
titã Prometeu, no mito grego, roubou dos deuses para conceder a
arte e a ciência aos homens.
As
imagens criadas pela artista plástica Selma Machado Simão
ilustram justamente o poder dessa chama divina. Num primeiro
momento, elas podem ser analisadas como o resultado de um
cruzamento entre duas técnicas: a fotografia e a pintura.
Estabelece-se
assim uma forma híbrida, que seduz justamente por ter elementos
de ambas, sem se completar totalmente com nenhuma. O trabalho é
resultado da dissertação de mestrado Arte
híbrida – entre o pictórico e o fotográfico,
apresentada em junho de 2005 no Instituto de Artes da UNESP, campus
de São Paulo, sob orientação do docente Milton Sogabe.
O
trabalho fascina não simplesmente pela fusão de técnicas, mas
pela forma como a artista estruturou a sua obra. Intitulada São
Paulo, do passado da câmera ao presente do pincel, a série
tomou como base fotos antigas da cidade, havendo uma recriação
com diversas técnicas, como desenho, pintura, colagem,
serigrafia e transfers.
As
imagens resultantes do processo são muito mais do que uma
passagem do passado para o presente. Trata-se de um diálogo que
a artista fez com si mesma, durante o processo de criação,
para, a partir do conhecimento da própria expressão artística,
compreender melhor as facetas fotográficas ou pictóricas de
sua arte e daquela produzida por outros criadores.
As
fotos antigas são o ponto de partida para uma visão moderna da
cidade. Ela ganha, nos trabalhos de Selma, em dinamismo. O
impacto visual se dá, em parte, pelo apuro técnico, mas
principalmente pela ligação que a artista consegue estabelecer
com a cidade sob um ponto de vista afetivo.
Se há
inegavelmente técnica no trabalho de Selma, é, porém, a
humanidade vislumbrada na cidade que dá ao conjunto o seu valor
estético. As sugestões de luzes e reflexos, por exemplo, dão
muitas vezes uma dimensão dramática e plena de mistério aos
edifícios e avenidas paulistas.
O
trabalho de Selma revela uma nova cidade, que surge com todo o
seu potencial de encantamento, principalmente quando se pensa no
uso da caligrafia como recurso que aproxima ainda mais o
observador, justamente porque na ação da escrita está
presente a atividade concreta humana, dando o seu depoimento
vivencial e histórico.
Se Prometeu foi
condenado pelos deuses, devido ao seu ato de ousadia, a ter o fígado
eternamente devorado por uma ave de rapina, as telas de Selma
Machado Simão geram no observador a agradável sensação de
obrigar a uma reflexão constante sobre aquilo que é visto.
Fruto
de uma pesquisa teórica acadêmica, no âmbito da universidade,
e de uma prática,
oriunda da ação no ateliê, cada imagem mexe com as entranhas
do observador. Somos devorados por elas justamente porque elas
partem do passado e o recolocam às nossas vistas por uma nova
ótica: aquela em que o criador reflete sobre o objeto gerado e,
ao reconhecê-lo, encontra sempre uma nova faceta.
Nesse
aspecto, Selma Machado Simão mostra o seu talento como artista
plástica. Toma uma referência e, a partir dela, estabelece seu
próprio mundo. O observador, por seu turno, na imagem que
contempla, relê um passado sobre o qual tem referências,
reflete sobre o presente circundante e se vê obrigado a ter
indagações sobre o futuro.
Tudo
isso ocorre com o fogo da razão que Prometeu concedeu aos
homens. Portanto, o resultado estético híbrido de Selma, em
seu trabalho com técnicas de pintura sobre fotografia, é
sobrepujado pela sua capacidade e sensibilidade der ver, nas
imagens que se apropriou e naquelas que concebeu, o sutil e
grandioso poder humano de transformar o mundo.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de
Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e
obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).