por Oscar D'Ambrosio


 

 


Selma Machado Simão

 

            O humanismo de Prometeu

 

            A modernidade traz muitas conquistas e conflitos ao mundo da arte. Se, por um lado, a técnica gera a possibilidade de resultados estéticos absolutamente inimagináveis há poucos anos; por outro, gera o risco de manifestações estéticas muitas vezes privadas do sopro vital da humanidade, o fogo divino da consciência que o titã Prometeu, no mito grego, roubou dos deuses para conceder a arte e a ciência aos homens.

As imagens criadas pela artista plástica Selma Machado Simão ilustram justamente o poder dessa chama divina. Num primeiro momento, elas podem ser analisadas como o resultado de um cruzamento entre duas técnicas: a fotografia e a pintura.

Estabelece-se assim uma forma híbrida, que seduz justamente por ter elementos de ambas, sem se completar totalmente com nenhuma. O trabalho é resultado da dissertação de mestrado Arte híbrida – entre o pictórico e o fotográfico, apresentada em junho de 2005 no Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, sob orientação do docente Milton Sogabe.

O trabalho fascina não simplesmente pela fusão de técnicas, mas pela forma como a artista estruturou a sua obra. Intitulada São Paulo, do passado da câmera ao presente do pincel, a série tomou como base fotos antigas da cidade, havendo uma recriação com diversas técnicas, como desenho, pintura, colagem, serigrafia e transfers.

            As imagens resultantes do processo são muito mais do que uma passagem do passado para o presente. Trata-se de um diálogo que a artista fez com si mesma, durante o processo de criação, para, a partir do conhecimento da própria expressão artística, compreender melhor as facetas fotográficas ou pictóricas de sua arte e daquela produzida por outros criadores.

            As fotos antigas são o ponto de partida para uma visão moderna da cidade. Ela ganha, nos trabalhos de Selma, em dinamismo. O impacto visual se dá, em parte, pelo apuro técnico, mas principalmente pela ligação que a artista consegue estabelecer com a cidade sob um ponto de vista afetivo.

            Se há inegavelmente técnica no trabalho de Selma, é, porém, a humanidade vislumbrada na cidade que dá ao conjunto o seu valor estético. As sugestões de luzes e reflexos, por exemplo, dão muitas vezes uma dimensão dramática e plena de mistério aos edifícios e avenidas paulistas.

O trabalho de Selma revela uma nova cidade, que surge com todo o seu potencial de encantamento, principalmente quando se pensa no uso da caligrafia como recurso que aproxima ainda mais o observador, justamente porque na ação da escrita está presente a atividade concreta humana, dando o seu depoimento vivencial e histórico.    

            Se Prometeu foi condenado pelos deuses, devido ao seu ato de ousadia, a ter o fígado eternamente devorado por uma ave de rapina, as telas de Selma Machado Simão geram no observador a agradável sensação de obrigar a uma reflexão constante sobre aquilo que é visto.

            Fruto de uma pesquisa teórica acadêmica, no âmbito da universidade,  e de uma prática, oriunda da ação no ateliê, cada imagem mexe com as entranhas do observador. Somos devorados por elas justamente porque elas partem do passado e o recolocam às nossas vistas por uma nova ótica: aquela em que o criador reflete sobre o objeto gerado e, ao reconhecê-lo, encontra sempre uma nova faceta.

            Nesse aspecto, Selma Machado Simão mostra o seu talento como artista plástica. Toma uma referência e, a partir dela, estabelece seu próprio mundo. O observador, por seu turno, na imagem que contempla, relê um passado sobre o qual tem referências, reflete sobre o presente circundante e se vê obrigado a ter indagações sobre o futuro.

            Tudo isso ocorre com o fogo da razão que Prometeu concedeu aos homens. Portanto, o resultado estético híbrido de Selma, em seu trabalho com técnicas de pintura sobre fotografia, é sobrepujado pela sua capacidade e sensibilidade der ver, nas imagens que se apropriou e naquelas que concebeu, o sutil e grandioso poder humano de transformar o mundo.   

              

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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 Anhangabaú

mista sobre tela 2004

Selma Simão Machado

 

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