Selma
Daffré
Cartografia
pessoal
A artista plástica
Selma Daffré realiza a sua exploração plástica do espaço em duas
dimensões primordiais. A primeira é a do suporte, seja ele o papel, a
tela ou a uma placa de metal a ser gravada. A segunda, mais importante,
diz respeito ao mergulho em si mesma, desvendando os planos de sua relação
com a realidade.
A questão
que se coloca é a de como articular essas duas instâncias por intermédio
da técnica. Se, por um lado, ela proporciona elementos para expressar
sentimentos e emoções; por outro, pode ser um empecilho para uma
manifestação plena de energia vital.
Selma
consegue transformar os elos mundo exterior/interior e técnica/emoção
numa trajetória poética. Nascida em 1951, em São Paulo, inicialmente
se debruçou com tinta acrílica sobre os percursos mais comezinhos,
como idas e vidas ao supermercado. Construiu suas cartografias internas,
em que meridianos e paralelos e indicações de bússolas estabelecem
estados de alma.
Posteriormente,
ao se voltar para a gravura, linhas e sulcos feitos por instrumentos
como ponteira, brunidor e rolete constituíram um sistema mental marcado
pela experimentação e pela pesquisa que se cristalizou no
desenvolvimento de caixas de madeira especialmente desenvolvidas para o
projeto que reuniam uma matriz e nove impressões distintas.
Pelo
processo de cologravura, que permite a mescla do processo reprodutivo da
gravura com a expressão única de uma aquarela, Selma atinge os mais
variados resultados, com variações cromáticas e de textura que provém
de um amadurecimento progressivo do saber fazer e um, bem mais profundo
das relações complexas entre o sentir e o fazer.
Esse
processo levou a uma progressiva mescla de técnicas. As aquarelas de
Selma têm algo de gravura pela força do traço e, não gratuitamente,
os trabalhos em que ocorre algum tipo de impressão de uma placa se
valem do gestual da pintura. Há ainda, na maioria dessas marcas, o
pensamento das transparências e veladuras.
A arte de
Selma vale por aquilo que diz e, principalmente, pelo que sugere. Seus
mapas interiores mesclaram-se com realidades exteriores em manchas que
cativam o olhar e estruturas de composição onde a simetria se
estabelece pelo processo de soma e de subtração de elementos visuais.
Com exposições
nacionais e no exterior, em países com Alemanha, Canadá e Suécia,
Selma concebe o espaço do papel ou da tela como o da desestruturação
de verdades aparentemente consagradas da vida e da arte. Não existe o
território proibido, mas o da possibilidade constante.
Amante da
boa literatura, como a de Guimarães Rosa e de Max Martins, a artista,
mesmo nos trabalhos que tem uma referência textual, permanece ciosa do
seu ofício. Se a figuração se faz presente, ela surge quase como uma
visão, uma sugestão, um ponto de apoio.
O
verdadeiro fascínio reside na densidade de cada gesto do pincel, na
construção da placa ou nas decisões que permeiam a impressão. Em
cada detalhe, o diálogo com os materiais se adensa, o gesto se
aprofunda e a escolha de um mote para desenvolver uma série se
cristaliza em conjuntos que traçam uma cartografia pessoal que cruza o
mapa do existir com a estética do fazer num resultado diferenciado.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela Unesp, integra a
Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção
Brasil).