por Oscar D'Ambrosio


 

 


Selma Daffré

 

            Cartografia pessoal

 

            A artista plástica Selma Daffré realiza a sua exploração plástica do espaço em duas dimensões primordiais. A primeira é a do suporte, seja ele o papel, a tela ou a uma placa de metal a ser gravada. A segunda, mais importante, diz respeito ao mergulho em si mesma, desvendando os planos de sua relação com a realidade.

            A questão que se coloca é a de como articular essas duas instâncias por intermédio da técnica. Se, por um lado, ela proporciona elementos para expressar sentimentos e emoções; por outro, pode ser um empecilho para uma manifestação plena de energia vital.

            Selma consegue transformar os elos mundo exterior/interior e técnica/emoção numa trajetória poética. Nascida em 1951, em São Paulo, inicialmente se debruçou com tinta acrílica sobre os percursos mais comezinhos, como idas e vidas ao supermercado. Construiu suas cartografias internas, em que meridianos e paralelos e indicações de bússolas estabelecem estados de alma.

            Posteriormente, ao se voltar para a gravura, linhas e sulcos feitos por instrumentos como ponteira, brunidor e rolete constituíram um sistema mental marcado pela experimentação e pela pesquisa que se cristalizou no desenvolvimento de caixas de madeira especialmente desenvolvidas para o projeto que reuniam uma matriz e nove impressões distintas.

            Pelo processo de cologravura, que permite a mescla do processo reprodutivo da gravura com a expressão única de uma aquarela, Selma atinge os mais variados resultados, com variações cromáticas e de textura que provém de um amadurecimento progressivo do saber fazer e um, bem mais profundo das relações complexas entre o sentir e o fazer.

            Esse processo levou a uma progressiva mescla de técnicas. As aquarelas de Selma têm algo de gravura pela força do traço e, não gratuitamente, os trabalhos em que ocorre algum tipo de impressão de uma placa se valem do gestual da pintura. Há ainda, na maioria dessas marcas, o pensamento das transparências e veladuras.

            A arte de Selma vale por aquilo que diz e, principalmente, pelo que sugere. Seus mapas interiores mesclaram-se com realidades exteriores em manchas que cativam o olhar e estruturas de composição onde a simetria se estabelece pelo processo de soma e de subtração de elementos visuais.

            Com exposições nacionais e no exterior, em países com Alemanha, Canadá e Suécia, Selma concebe o espaço do papel ou da tela como o da desestruturação de verdades aparentemente consagradas da vida e da arte. Não existe o território proibido, mas o da possibilidade constante.

            Amante da boa literatura, como a de Guimarães Rosa e de Max Martins, a artista, mesmo nos trabalhos que tem uma referência textual, permanece ciosa do seu ofício. Se a figuração se faz presente, ela surge quase como uma visão, uma sugestão, um ponto de apoio.

O verdadeiro fascínio reside na densidade de cada gesto do pincel, na construção da placa ou nas decisões que permeiam a impressão. Em cada detalhe, o diálogo com os materiais se adensa, o gesto se aprofunda e a escolha de um mote para desenvolver uma série se cristaliza em conjuntos que traçam uma cartografia pessoal que cruza o mapa do existir com a estética do fazer num resultado diferenciado. 

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pela Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).    

           

 

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Encontro
calcogravura 50 x 70 cm 1993

Selma Daffré

 

 

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