por Oscar D'Ambrosio


 

 


Sarli

 

            A construção de um caminho

 

            Cada vez que se contempla uma nova obra de arte surge a indagação de qual deve ser o caminho para interpretar aquilo que ali existe. Há pelo menos três caminhos: um que privilegia a obra, isolando-a do contexto em que foi produzida, outro que se volta muito mais para o artista, enquanto ser humano com um determinado perfil psicológico, e um terceiro, dialético, que permite um diálogo entre aquilo que se vê e aquele que o criou.

A pintura de Luiz Antonio Sarli, que assina seus trabalhos como Sarli, propicia justamente uma reflexão sobre o que significa ser artista no mundo contemporâneo e quais os caminhos que podem ser percorridos no momento em que se decide abraçar cada quadro como uma profissão.

Sarli, após militar por muitos anos na área de publicidade, retomou a prática e a paixão pela pintura. Nesse retorno, vem buscando uma expressão própria, que lhe permita apresentar um conjunto de trabalhos dentro de uma linguagem plástica singular. Isso não significa inventar algo novo – tarefa cada vê mais difícil no chamado pós-modernismo –, mas sim ter um dizer artístico contundente.

            Do conjunto de obras que Sarli apresenta em seu ateliê no começo de 2006, podem surgir alguns caminhos plásticos. O principal deles está na exploração de microformas, semelhantes aquelas que podemos encontrar num microscópio. O referencial concreto é progressivamente diluído em nome de um trabalho que tende ao abstracionismo, onde o uso da cor tem uma importância fundamental.

            Outra vertente, porém, não pode ser ignorada. É a pesquisa com manchas de cor em que as formas, reconhecíveis ou não, servem como pré-texto para a articulação de todo tipo de imagem. Instaura-se aqui um jogo entre o que se vê e o que se imagina ou se deseja encontrar em cada tela. O recurso parece funcionar melhor com cores terrosas, enquanto a vertente anterior aparentemente oferece maiores possibilidades com tonalidades mais quentes de azul, vermelho e verde.

            O maior desafio está em conquistar, nesse processo criativo, uma configuração imagética ou técnica que indique um caminho diferenciado e consistente. Para isso, a experimentação necessita ser constante, mas, ao se descobrir uma vereda, ela deve ser percorrida até a exaustão.

            A esse exercício podemos chamar de estilo. Não significa estagnar, mas sim encontrar novas possibilidades de desenvolvimento dentro de uma forma de pintar que seja reconhecível por algum traço especial e específico, que não está presente em outros artistas – ou que aparece neles de outra maneira

            Seja no tema ou nas formas, linhas, cores ou outros recursos plásticos, um artista, a cada tela, caminha para gerar um novo conhecimento, isto é, refletir sobre o que já foi feito e sobre o que ele já fez para dar a sua contribuição estética, sempre mantendo a fidelidade a si mesmo.

            Assim, Sarli pode encontrar o seu caminho e dar a sua contribuição à arte, o que não significa necessariamente um reconhecimento social em termos de venda de quadros ou de êxito financeiro, mas o encontro de uma linguagem própria e estimulante para si e para aqueles que o circundam.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

           

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 
   Formação azul 
óleo sobre tela 1,20 m x 1,20 m 2006

Sarli 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio