por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

 

 

Mariluci Jung

 Santeria: a arte vence as trevas

  Literalmente, Santeria significa “caminhos dos santos”. O nome também é aplicado para uma manifestação própria do Caribe que mescla, no diálogo entre as tradições dos escravos afros e a imposição do catolicismo na América Latina, construções imagéticas riquíssimas, com amplo uso de cores e jogos visuais – às vezes aparentemente improváveis – entre diversos elementos como, por exemplo, flores reais e de plástico. Isso sem contar a interação visual e simbólica entre os santos e virgens católicas e divindades autóctones da cultura indígena, como Pacha Mama.

É nesse universo, que mescla tradições locais, a chegada da cultura negra e o violento ingresso no continente da fé cristã, a artista plástica Mariluci Jung elabora, pela aplicação de imagens sobre o ferro oxidado, suas interpretações, marcadas pela religiosidade e, ao mesmo tempo, corroídas por ela.

Se a ferrugem funciona como metáfora da passagem do tempo, as obras desta série evocam ainda os sentidos dos ícones utilizados pela artista, que se vale de  diferentes santinhos distribuídos nas igrejas, desde a Virgem Maria, em suas mais variadas representações, como a de Nossa Senhora Aparecida, a outros santos.

É preciso lembrar que o termo ícone, oriundo do grego, antigo Eikhon, quer dizer “imagem”, sendo uma imagem simbólica da dimensão do sagrado. O termo tomou maior importância na religião cristã, em particular da região da Europa oriental e, mais especificamente, do império Bizantino (a partir do século III) e da igreja ortodoxa.

Mariluci comenta e trabalha a questão espiritual. O uso intenso de vermelho, azul ou verde oferece dramaticidade às obras e aponta para o poder do retrato de um santo como forma de eternização. Suas figuras, simulacros mesclados com a ferrugem, mergulham na esfera do imaginário.

            Nos ícones utilizados pela artista surgem aspectos fundamentais do cristianismo,  como a benção com dois dedos esticados (duas naturezas de Cristo: a humana e a divina) e três unidos (a Santíssima Trindade), além de numerosas Virgens Maria, como a da Ternura (Eleóusa), em que os rostos de Mãe e Filho estão colados.

            As simbologias desses ícones são várias: as mãos abertas oferecem e, quando erguidas, intercedem a Deus. Também podem segurar o rolo com o pergaminho da Palavra ou proteger maternalmente o Filho. Cristo, por sua vez, embora no colo, não tem rosto de criança, já que é o portador da Palavra.

Os cabelos presos, o semblante sereno as três estrelas que acompanham Maria indicam que ela foi virgem antes, durante e após o parto, no sentido físico, psicológico e espiritual. A oxidação de suas imagens indica, em termos estéticos, tanto o questionamento de sua imagem sagrada como a sua resistência ao tempo.

A Santeria proposta pela artista estabelece não só uma conversa entre tradições distintas, mas também uma crítica à maneira como o catolicismo galgou espaço na América Latina. A questão plástica se apresenta como essencial enquanto o jogo de cores que a ferrugem possibilita, sendo a oxidação e seus efeitos visuais um ponto de partida para a reflexão sobre o poder da arte de propor novas visões de mundo.

Trata-se de uma rica ambivalência. Do mesmo modo que a força desses ícones vem da fé, simbolizada, por exemplo, por uma lança, imagem da força divina, a arte de Mariluci Jung vence as trevas do dogmatismo pelo seu poder de gerar discussões e questionamentos, cumprindo a sua função criadora.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

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