por Oscar D'Ambrosio


 

 


 
Sandro Akel

              A arte de resgatar lembranças

              Depósitos de conchas acumuladas por grupos tribais que dependiam primordialmente da pesca e da coleta de moluscos como base da sua alimentação, os sambaquis são de fundamental importância para conhecer o passado dos primeiros habitantes do Brasil.

A mesma linha de pensamento está na exposição “Sambaquis”, na IQ Gallery, de São Paulo, SP, de 7 de fevereiro de 19 de março de 2006, que realiza um mergulho diferenciado na alma paulistana. O artista Sandro Akel se vale justamente de restos urbanos, como cartazes e propagandas, para, num exercício que mescla desenho, pintura e colagem, buscar o âmago da alma do cidadão urbano.

Assim como há sambaquis com menos de 2 metros de altura e outros com mais de 30 metros de altura e 500 metros de comprimento, os restos urbanos retrabalhados por Akel sobre madeira, com o uso de papel, encáustica e outros elementos, apresentam diversos formatos. O importante  está no resultado e no significado de cada imagem, com importantes possibilidades de leituras, muito mais artísticas e sociológicas do que antropológicas.

Se, a partir dos restos encontrados nos sambaquis, é possível vislumbrar como viviam e o que faziam esses povos, o mundo apresentado por Akel é revelador por aquilo que evoca. Há sensualidade, mistério e lirismo, principalmente, por exemplo, na imagem de um casal se abraçando com um cartaz “Admite-se moças” ao fundo ou ainda nas infinitas possibilidades de interpretação da imagem de uma poética menina junto a uma árvore.

Integrante do grupo de arte Bijuri que reúne dez artistas para discutir e executar arte urbana, Akel sabe que papéis e cartazes são restos de uma civilização que precisa ser revista em todos os seus aspectos, seja positivos ou negativos. Isso significa dar valor a tudo o que se produz e se descarta.

Nesse sentido, as pequenas vitrines que separam a IQ Gallery do resto do ambiente são exemplares. Preenchidas com numerosos tipos de material encontrados numa grande cidade, fascinam por demonstrarem que, apesar de infinitas dificuldades, a sociedade se mantém de pé, seja ela na capital paulistana, em Berlim ou em qualquer outra metrópole.

Os sambaquis pré-históricos encontram-se em áreas de manguezal, entrecortadas por canais e rios de água salobra ou próximos a rios e lagos no interior. Os modernos criados por Akel, por sua vez, se fazem presentes nos canais urbanos, principalmente becos e praças. Nesses locais, as mais variadas atividades, lícitas e ilícitas, permissíveis ou não, são desenvolvidas, muitas vezes de uma maneira quase escondida, longe da história oficial.

            Akel recupera ações e pessoas esquecidas. Os formadores de sambaquis, chamados de sambaquieiros, viviam sobre os morros onde hoje se encontram os seus restos. Ali, cozinhavam, faziam instrumentos e adornos, e enterravam os mortos. Nossa civilização também produz lixo de suas mais variadas atividades.

Se São Paulo acabar de um momento para outro, o trabalho de Sandro Akel fica como um recorte que registra uma metrópole que precisa ser escavada, em suas memórias visuais, como um sambaqui, para contar melhor a própria história. De valor artístico e social, o trabalho exposto causa impacto por mostrar as ruínas de uma realidade urbana que muitas vezes julgamos, ingenuamente, portadora de glamour.

  Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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   Exposição Sambaquis
desenho e colagem sobre madeira tinta encaústica 2005

Sandro Akel

 

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