San
Bertini
A
construção do naïf
A
chamada arte naïf comporta numerosas definições. A maioria delas
preocupa-se muito mais com conceitos externos ao quadro, como a origem
social e econômica do artista e a sua formação acadêmica – ou
falta dela –, do que
com a discussão daquilo que se vê no quadro propriamente dito.
Um
caminho alternativo – e bastante saudável – reside em olhar
primeiro o quadro antes de jogar sobre ele numerosas nomenclaturas. As
obras da artista plástica paulista San Bertini percorrem o universo
do naïf, no seu sentido literal, “ingênuo”, pela capacidade de
serem compostas com a mesma pureza e cuidado que uma casinha de
bonecas.
Cada
novo elemento, seja uma cerca, uma pessoa ou algumas flores, é
progressivamente colocado de modo a compor uma realidade fantástica
que se instaura imagem a imagem. Da somatória desses elementos,
surgem quadros em que a separação de
cada elemento, embora possível, compromete a graciosa e
delicada montagem do todo.
San
Bertini leciona desenho e pintura e ganhou diversos prêmios como
artista acadêmica, mas no universo do naïf encontra talvez a mais
legítima expressão de seu ser. Não se trata de uma frase de efeito,
mas de um poderoso sentimento de que as cenas de festas populares e do
interior paulista brotam com pujança e cores de impacto.
Mesmo
quando a imagem possui uma atmosfera noturna, as cores intensas se
fazem presentes expressando uma visão de mundo marcada pela liberdade
de trabalhar com composições e formas. O naïf, para San Bertini, é
exatamente a manifestação visual de um intenso desejo de que a arte
possa fluir acima dos cânones.
O
que torna a arte intensa como manifestação artística é justamente
a possibilidade de renovação em cada tela. San Bertini consegue esse
objetivo no momento em que constrói cada trabalho com primor.
Palpites dos observadores são incorporados como contribuições nesse
processo alegre de dar vida ao quadro.
Uma
simples mesa de refeições, por exemplo, que ocupa espaço diminuto,
de poucos centímetros, torna-se um universo de alusões culturais,
com a descrição de cada alimento ali exposto e as relações entre
os comensais, que podem ir do sacerdote às crianças, com a mesma
liberdade de criação, bom humor e, acima de tudo, prazer de
estabelecer infinitos elos entre esses personagens e objetos.
O
lúdico predomina no sentido de manter o aprimoramento técnico, mas
com a certeza permanente de que a verossimilhança
com o real está em segundo plano perante o mergulho em cada
imagem de maneira autônoma, quase um mundo paralelo, no qual as
proporções internas são postas a serviço de composições harmônicas
que fascinam pelos detalhes precisos e acabamento esmerado.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e
Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).