por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Salão de Arte IA Às Quintas 2006

            Como término das atividades do primeiro semestre de 2006 das disciplinas Oficinas Bidimensional e Tridimensional I e Desenho Artístico I, ministradas no Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, foi proposto o desafio de apresentar, por escrito e oralmente, um projeto avaliado pelo artista plástico Marcos Garrot, pelo educador e responsável pela ONG Arpa e pelo espaço expositivo Casa Caiada 35, em São Paulo, Carlos Cury e pelo elaborador de projetos culturais e captador de recursos Ricardo Resende.  

            Durante o os encontros mensais foram  desenvolvidos alguns conceitos, como o de que um projeto, para funcionar, deve conter a verdade interior do artista, pois apenas sendo significativo para ele será para os outros. Também foi estimulada a idéia de que, embora a discussão interna e externa seja um passo essencial,  há limitações materiais e prazos a serem cumpridos.

            Definir claramente o objetivo do projeto, escolhido o material a ser utilizado e estabelecido o custo e o tempo de produção, o projeto envolve cuidados, como a forma de apresentação para se atingir o que se almeja. Após a entrega do material escrito e de algum resultado estético, ouvir a opinião de outras pessoas precisa ser visto como enriquecedor. Nesse sentido, os projetos geraram as seguintes reflexões.

            As faces de Diana, de Vanessa Stollar, classificado em primeiro lugar, mostrou um projeto em que busca conciliar fotos e gravuras para estabelecer relações da deusa com as mulheres contemporâneas. Surgem dois questionamentos para a proposta de montagem: talvez a substituição da gravura pelo desenho possa ser uma alternativa mais viável para o suporte papel e a colocação dos negativos suspensos no ar pode vir a prejudicar as possibilidades de visualização. Nesse aspecto, seria interessante repensar a diagramação da exposição. Vale ainda correr na definição melhor do projeto, pois uma data interessante para a montagem seria em março, com as celebrações do Dia Internacional da Mulher.

            Eliene de Oliveira Aleixo, com Plasticidade da Galinha d’Angola, segundo colocado, apresentou um conjunto bem resolvido de desenhos. Esta experiência pode se consolidar mais com o aprofundamento da pesquisa em que a linha se torna um elemento fundamental da linguagem plástica. Desse modo, a recuperação da simplicidade do traço na procura daquilo que é essencial parece ser o melhor percurso. Isso inclui, por exemplo, a definição melhor de um recorte e o pensamento de um local mais adequado para apresentar publicamente o trabalho, principalmente se associado a falas sobre a importância do animal na arte, na culinária e na simbologia dos mais diversos credos.

            Ave: Eva, de Patrícia Janaina Santos, na terceira posição, surge com um recorte bem realizado de um tema bem definido. O enigma está na realização, pois o desenho apresentado pode ser um passo para a gravura, mas constitui-se numa técnica diferente, com um resultado nem sempre fácil de administrar. Assim como o projeto da Vanessa, creio que seria interessante começar a pensar em um local adequado para março, quando a temática da mulher é requisitada em alguns espaços expositivos.

            Darcio Roberto Geraldin, Menção Honrosa, cria um rico universo de relações a partir da pesquisa com materiais, em sua maioria recolhidos como sucata ou aproveitados em novos contextos e composições. A obra apresentada pode ser o ponto de partida para o aproveitamento do espaço de uma maneira bastante peculiar. Seria interessante pensar um local que estivesse disposto a receber um conjunto de peças que trabalhassem a metáfora da crisálida transformada em borboleta e, principalmente, da reciclagem de material.

            O fio de Ariadne, de Valéria Rocha, Prêmio Estímulo, embora entregue fora do prazo previsto, traz um conceito importante para entender melhor o universo da educação, especificamente na sua vertente mais prática, ou seja, dentro do espaço da sala de aula, onde a filosofia se confronta com o fazer. Para o amadurecimento da idéia, sugiro que sejam colhidos depoimentos do grupo IA às Quintas, como ponto de reflexões para o fazer artístico proposto. Se houver um sinal positivo, podemos marcar um dia especificamente para isso, inclusive, pensando em que a atividade gere um subproduto, que é a visão de um recorte do IA da educação.

            Alice Coutinho, com Um instante, propõe uma reflexão plástica sobre o momento da depilação. A idéia, em sua originalidade, abrange bem mais do que parece num primeiro momento, pois também está ligada a uma série de tabus ligados à feminilidade. Seria interessante ter mais elementos sobre a depilação numa perspectiva histórica e verificar se, tais dados, podem contribuir para o crescimento do trabalho, forte em si mesmo pelas imagens geradas. A questão de onde expor também merece discussão mais apurada, pois ele não pode perder a força num ambiente inadequado nem estar em desarmonia com o local, o que comprometeria a possibilidade de repercussão da reflexão proposta.

            Cabeças de papel, de Daniela Gomes Klepacz, oferece uma possibilidade narrativa ímpar à espera de melhor desenvolvimento técnico. A concepção de cabeças com diferentes aspectos que se alteram, seja no processo de trabalho com cerâmica, seja nas suas bases, permitem criar relações de espaços variadas. Em termos de local para mostrar o trabalho, é possível até uma associação com os pequenos corpos da ceramista Rakel. Os elos entre os corpos diminutos e as grandes cabeças de Daniela podem gerar elos insuspeitados num espaço expositivo adequado se for de interesse de ambas.

            Pecados?, de Geraldo Monteiro Neto, lida com a visão pecaminosa do sexo dentro da tradição judaico-cristã. Ao trabalhar com o mito de Eva e o arquétipo da serpente traz numerosas evocações que podem se cristalizar num conjunto plasticamente significativo. Para isso, a escolha de um local apropriado para mostrar os trabalhos parece ser fundamental, pois indica o grau de liberdade a ser perpetrado, sempre dentro do princípio que a discussão de uma exposição precisa levar em conta o universo mental em que está inserido e o lugar que receberá as obras.

Léia Uzumi, com Alinha tempo, otempolinha, propicia uma dimensão conceitual das mais interessantes, principalmente no que diz respeito à passagem do tempo, expressa no branqueamento do cabelo ou na sua queda. As sombras que a linha gera também são de extrema relevância nesse processo. Falta, porém uma definição melhor, ainda, na maneira como isso virá à luz em termos de resultado final. As possibilidades estáticas e dinâmicas do pensamento proposto são tamanhas, que traz o risco de um desperdício de energia, não de uma concentração em busca de um grande objetivo.

            Rosas, de Luciana Cardoso de Oliveira Santos, gera um movimento mental de pensamento sobre a violência com várias possibilidades de realização. Uma delas é a multiplicação ad infinitum do número de rosas, via objeto ou por meio de espelhos, em composições que atinjam o efeito almejado de como a delicadeza e os conflitos podem ou não caminhar lado a lado. A realização de uma performance com algum efeito do fogo com as velas e a parafina não deve ser descartado, creio, mas incorporado com a visualidade antes e depois do local escolhido para a exposição, que pode comportar, por que não?, um debate sobre o tema.

            Nádia Magalhães Pupo Santos trouxe a problemática das escolhas profissionais e vivenciais. A proposta de uma escultura em argila e de um painel de fotos com imagens pessoais e de revistas e livros pode ser a matriz do desenvolvimento de  um projeto em que exista, como cerne, o sentido do significado das escolhas. Talvez um caminho seja a seleção das fotos, num primeiro momento, e o desenvolvimento de um raciocínio sobre elas em termos de imagens que podem – ou não – sofrer algum tipo de interferência.

            Tríptico, de Regina Helena Ciampi, colabora com uma reflexão sobre o ser humano de inegável profundidade, no que diz respeito ao universo, em sua jornada de expansão e retração. Plasticamente, a proposta de colocar a tela ao avesso conduz a um amplo universo de significações. A dúvida parece ser a melhor maneira de apresentação do material, e o principal ponto positivo está nas ações educativas que podem vir a ocorrer a partir do conjunto de obras produzido.

            Flora Sipahi Pires Martins Figueiredo, que infelizmente não pôde realizar a sua exposição oral, traz um projeto fotográfico marcado pela apropriação de um local e uma situação cotidiana: o banho e os fios de cabelo, que podem formar os mais variados desenhos. Surge assim a possibilidade até de trabalhos paralelos, como, por exemplo, de desenhos propriamente ditos e seus desdobramentos. Quanto ao espaço expositivo previsto, um banheiro, seria interessante começar a definir onde e em que condições as pessoas teriam acesso a ele.

            André Luiz de Oliveira, com Escrita da luz, apresentou o projeto fora das normas, mas revelou domínio da temática. Falta ainda definir melhor o método de expor o material, assim como os critérios de seleção das 11 fotomontagens propostas. Trata-se de um assunto que o autor do projeto conhece bem. O desafio está em concentrar o foco numa certa seqüência de pensamento, evitando a dispersão da série de conhecimentos já existentes.

            “Comer formigas faz bem para vista”, de Ayumi Numata, entregou o projeto fora dos padrões e não explicou exatamente o que fará com os materiais indicados. De qualquer modo, a mescla entre garrafas de vidro, corantes, desenhos em folhas de acetato, texto em Braille e textos em alfabeto ocidental pode ser um interessante ponto de partida. Aguardamos o desenvolvimento da idéia nos próximos meses.

            O Salão mostrou, em síntese, uma rica diversidade de projetos com variadas técnicas e possibilidades de desenlace. Os próximos meses serão determinantes para verificar quais caminhos cada idéia apresentada percorrerá. Os minúsculos apontamentos aqui feitos ficam como sugestões para uma posterior discussão mais aprofundada.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Claudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

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