por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rubens Matuck

 

O olhar atento

 

Um dos pré-requisitos do artista plástico é ter um olhar atento, capaz de captar desde as nuanças de um pôr-do-sol até a beleza presente nas penas de um pássaro, na pele de um animal ou nas linhas de uma construção arquitetônica. Esse olhar deve funcionar como o de uma criança, no sentido de não perder a capacidade de sempre se deslumbrar como se o objeto em foco fosse captado pela primeira vez.

Nas artes plásticas, a passagem desse olho crítico para a criação propriamente dita pode ocorrer de várias maneiras. Há os que se especializam numa técnica e se tornam mestres, enquanto outros preferem transitar por diversas formas de expressão, obtendo resultados progressivamente surpreendentes. O talento ganha assim diferentes apresentações, cada uma com características próprias.

Em poucos artistas isso é tão evidente como em Rubens Matuck. A sua capacidade de trabalhar com a mesma competência com distintas técnicas tornam-no uma referência como gravador, pintor, escultor, desenhista e ilustrador, tanto em suas vertentes mais próximas à arte figurativa em imagens do universo urbano de São Paulo, como em experimentações próximas ao abstracionismo, como ocorre em trabalhos com suporte de ouro folheado.

Nascido na cidade de São Paulo, em 1952, Matuck graduou-se em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e realizou pós-graduações nas áreas de museologia e barroco e romantismo na pintura. Adquiriu assim conhecimentos essenciais para o seu trabalho, principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento de uma de suas maiores vocações: a pesquisa.

A formação artística de Matuck esteve sempre ligada a grandes mestres, como Aldemir Martins e Flexor, na pintura; Evandro Carlos Martins e Renina Katz, na gravura; e Van Acker, na escultura. De cada um deles, retira elementos fundamentais, que reutiliza por intermédio de sua criatividade e desejo de sempre apresentar novidades que não sejam gratuitas, mas sim o resultado de um amplo processo aprimorado pelo mergulho em diversas técnicas e materiais.

Além de trabalhar com desenho, gravura em metal e buril, o artista também ilustra livros infanto-juvenis, como O viajantes de Gleb, com Walmir Cardoso; e Aldemir Martins – no lápis da vida não tem borracha, com Nilson Moulin, além de outras obras, preferencialmente sobre temas ecológicos. Essa atividade lhe rendeu, em 1993, o Prêmio Jabuti pela ilustração do livro infantil O sapato furado.

Matuck também realizou trabalhos para diversas publicações, como Jornal da Tarde e revistas Playboy e IstoÉ. Nesse tipo de obra, desenvolveu a habilidade de captar um tema e buscar soluções plásticas para apresentá-las ao leitor, habilidade que aprimorou na elaboração de projetos para a Editora João Pereira, que fundou com Luise Weiss, Feres Khoury e Rosely Nakagawa, casa editorial voltada para a publicação de livros diferenciados nas áreas de artes plásticas e fotografia.

A partir de 1977, o artista paulistano começa a ministrar cursos e palestras de História da Arte e arte ambiental para escolas de nível superior, ensino médio e fundamental. Paralelamente, desenvolve, em 1987, com habilidade, um calendário de exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no Exterior.

Somam-se a essas atividades numerosas viagens pelo Brasil, China, EUA e Itália, ocasiões em que o artista expande seus conhecimentos e inicia a feitura de uma de suas mais fascinantes jornadas: os cadernos de viagens, nos quais retrata aquilo que encontra em suas buscas perenes de novas fontes de iluminação artística.

Nos seus mais de 40 cadernos, com viagens a locais como o Pantanal e a Amazônia, há imagens de peixes, pássaros, animais e pessoas. Também é possível encontrar imagens e observações coletadas na China, além de cadernos sobre as constelações do espaço. Em todos esses casos, a curiosidade onipresente alia-se à habilidade do cronista de viagens.

Fascinado por arqueologia, Matuck também se debruça sobre o estudo de culturas do passado em um trabalho de pesquisa lento e árduo, que exige a disposição de buscar novos paradigmas e manter a mente aberta para novas informações e descobertas que obrigam a rever conceitos antes solidamente definidos e imutáveis. Nesse sentido, o artista se mantém alerta e toma todo cuidado para não considerar a civilização ocidental como o centro do universo. Seus estudos levam sempre em conta os avanços e invenções realizadas no Oriente, principalmente na China, no Japão e na Índia.

Matuck também possui um grande interesse pela caligrafia, ou seja, pelo modo como a escrita foi se transformando e adotando novas características ao longo dos séculos. Mergulha assim nas histórias dos mais diversos alfabetos, desde os primórdios, e realiza diversos trabalhos, com a seriedade e a competência que a área exige, sem nunca perder o senso estético. Oferece assim um resultado plasticamente admirável.

Com uma arte que oscila do figurativismo requintado, como na representação de animais e plantas, a um expressionismo contagiante, como nas mencionadas representações da cidade de São Paulo, Matuck cultiva inclusive o auto-retrato, mas encontra no paisagismo um de seus pontos mais altos, principalmente pela admiração da tradição da arte italiana nesse tópico.

As mencionadas jornadas de Matuck pelo Oriente deram ao artista a possibilidade de conhecer melhor e dominar o trabalho com papéis japoneses, seja como suporte para a pintura ou para operações técnicas ainda mais delicadas, envolvendo os recortes e o tingimento do material.

O mesmo cuidado necessário com os delicados papéis vale para o trabalho escultórico de Matuck, que toma como ponto de partida sementes e folhas, que o artista não se cansa de observar, colecionar e desenhar. A reprodução dessas esculturas em grandes dimensões é um desafio técnico e estético considerável que deleita Matuck.

Ao se observar a diversidade de ações de Matuck, compreende-se seu grande interesse por Leonardo da Vinci, um homem do Renascimento não só pela obra pictórica, mas principalmente pela postura artística e existencial de um ser voltado para diversas áreas do conhecimento, que envolviam das artes bélicas à pintura.

Em parceria com Walmir Cardoso, Matuck desenvolve ainda um projeto muito próximo ao universo de Fernando Pessoa. Na exposição intitulada Viagem ao Urupin: cinco visões de um planeta, cinco artistas totalmente fictícios – cada um com seu modus operandi – mostram seus trabalhos, resultado de uma viagem a um locus imaginário.

Nesse exercício, o artista exercita algumas de suas principais qualidades: a versatilidade, ao criar cinco estilos diferenciados; o trabalho em parceria, unindo o seu talento ao de Cardoso; o anonimato, pois, ao se esconder nos heterônimos artísticos pode, de certo modo, anular o seu eu; e, acima de tudo, a criatividade.

Seja na aquarela, na tinta acrílica ou com outro suporte ou técnica, Rubens Matuck lança seu olhar tanto sobre a realidade circundante como sobre a imaginada. Não há nele barreiras que limitem o seu potencial de observar o que existe e de imaginar novas fronteiras com um saudável deslumbramento infantil perante a vida e a arte associado a uma consciência e responsabilidade artística ímpares.

Por isso, Matuck está sempre em busca de novos e desafiadores projetos, seja em viagens pelos recantos do Brasil, e do mundo ou pelos próprios meandros de um privilegiado cérebro que vive a vida como arte e a pratica sem cessar sete dias por semana, 24 horas do dia, seja no contemplar das delicadas tonalidades que compõem um horizonte ou na criação de fantásticos personagens que visitam um planeta imaginário.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor, entre outros, de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

"Sem título"

A.S.T -  1 x 1,5 m   

Rubens Matuck

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio