por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rubens Gerchman

 

            Mil e um beijos

 

            O escritor Ramón Gómez de La Serna (1888-1963) dizia que “às vezes o beijo não passa de um chiclete partilhado”. A frase ganha novas possibilidades de interpretação perante a exposição do artista plástico Rubens Gerchman intitulada  O beijo transverso, na Galeria IQ, em São Paulo, de 3 a 31 de abril de 2006, com curadoria de Antônio Peticov.

            Nascido no Rio de Janeiro, em 10 de janeiro de 1942, o pintor, desenhista, gravador e escultor oferece uma excelente oportunidade de reflexão sobre o significado de sua obra, principalmente quando se leva em conta sua ampla experiência internacional, com passagens por México, Guatemala, EUA e Berlim.

            Há em Gerchman um desafiante processo de rejeição da mesmice e a presente exposição confirma isso ao mostrar alguns dos temas preferidos do artista, como o beijo, dentro ou fora de carros, bicicletas e cenas de multidão. Estão expostos exemplos de pintura, gravura e trabalhos em diversos materiais como quartzo cinza e azul, além de cobre e caixas de madeira com diversos objetos dentro.

            Evidencia-se assim um artista com fobia a tudo o que é estático. Seu pensamento em ebulição constante propicia um sem-número de beijos, nas mais variadas posições e ambientes, numa procissão de encontro de almas, já que as bocas que se juntam em Gerchman são muito mais do que duas bocas se tocando.

            A riqueza das possibilidades que cria reside em mostrar ao observador como um mesmo tema pode não se esgotar se houver capacidade de recursos. Seja na gravura ou na pintura, cada beijo traz consigo um novo tom ou elemento diferenciador. O assunto funciona como o pretexto temático para uma experiência plástica – é isso não é pouco.

            Quando se pensa em escultura, a diversidade de materiais aponta para uma prática não muito comum de ser encontrada nos artistas plásticos contemporâneos, muitos deles aparentemente acomodados quando uma fórmula encontra aceitação de mercado ou de crítica.

            Gerchman permanece inquieto ao longo da carreira e isso se deve, em boa parte, ao fato de encarar cada composição plástica como um desafio. O conjunto desta exposição evidencia essa mente para a qual o único pecado é deixar de pensar, de refletir e de conceber a arte como uma forma criativa de enfrentar os problemas que o mundo apresenta e propõe na forma de infinitas interrogações existenciais.

            Os trabalhos mais significativos do conjunto apresentado na Galeria IQ é o dos beijos. Sejam apaixonados ou “chiclete partilhado”, como aponta Ramón Gómez de La Serna, são documentos de uma resistência à mesmice da vida. Constituem instantes de entrega a uma fascinação: a de criar, respirando arte com o desejo de se renovar sempre para abolir qualquer possibilidade de repetição.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Petivov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo). É responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio

 
 

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óleo sobre tela 50 cm x 70 cm sem data

Rubens Gerchman

 

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