Rubens
Espírito
Santo
O
santo
espírito do
criar
A
arte
contemporânea se tornou uma
progressiva
combinação
entre o
saber
fazer e o
saber
pensar.
Cada
vez
mais essas duas
instâncias caminham
juntas, de
modo
que a
habilidade
técnica se alie ao
construir e
expressar
um
conhecimento
que, no
fundo, é
um
exercício
visual
sobre a
realidade
visível e
aparente.
No
livro Rubens
Espírito
Santo (Laserprint, 112
páginas), o
artista apresenta
parte de
sua consistente
trajetória –
principalmente no
período de 1985 a 2008 –, entendendo-a
como uma
jornada de uma
vida, uma
constante
oferta de
soluções
para
problemas
técnicos e existenciais. No
Ateliê do
Centro,
local
em
São Paulo
que divide
entre a
produção e as
aulas dos
mais variados
assuntos e
onde existe
prensa
para
gravura,
espaço
para
marcenaria e
biblioteca, coloca
seu
fazer
intelectual
em
ação.
Isso significa a
prática de
um
pensamento
que o acompanha
desde a
juventude. Nascido
em
São José dos
Campos,
interior de
São Paulo,
em 1966, completou o
ensino
fundamental e,
depois, buscou e foi encontrando
seus
próprios
professores,
tanto na
área de
filosofia
como de
semiótica,
poesia,
estética,
gravura e
pintura.
Construiu
assim
um
repertório
que inclui o
desejo de
produzir,
mas
sem
perder de
vista
aquilo
que se está fazendo e
como
isso se insere no
panorama da
arte
feita no Brasil e no
exterior.
Isso
quer
dizer
estar
sempre
atento a
novos referenciais,
principalmente os de
ponta.
A
idéia
não é
trabalhar
com a
página
virada da
história,
mas
estar virando a
página.
Talvez o
segredo,
além da
habilidade do
fazer, exercitada
desde a
infância, esteja,
em
parte, nas
influências
familiares:
um
pai
determinado,
obsessivo,
talvez,
em
alcançar
seus
objetivos, e uma
mãe,
feirante,
obrigada a
saber
divulgar
seu
produto.
O
resultado
plástico
mais
célebre de Rubens
são as
Cabanas, apresentadas
em diversas
instituições
como Tomie Ohtake,
Centro
Universitário Maria Antônia,
Galeria Baró
Cruz e
Pinacoteca do
Estado de
São Paulo,
entre
outros
locais. Está
aí uma
sinopse do
que é o
mundo de
um
artista
merecedor desse
nome:
objetos
pessoais,
cadernos de
estudos,
diários,
lousa,
frases,
histórias coletadas ao
longo da
vida.
É
evidente
que
ali se mesclam
pintura,
escultura,
cinema,
fotografia e
arquitetura,
com
espaço
para
reflexão
sobre
psicanálise,
filosofia,
pedagogia e
vídeo, possibilitando
parcerias
com as
mais diversas
áreas do
conhecimento e
criadores.
Isso
não é de
causar
nenhum
espanto,
pois a
prática e a
experiência
pedagógica de Rubens é interdisciplinar
por
essência. Inclui,
por
exemplo, as
referências a
cinema e a
visão
mais
ampla
possível do
que
já é
conhecido e do
que existe
para
descobrir.
Cada
Cabana é uma
extensão de
seu
ateliê
tanto
mental
quanto
físico e de
seu
modo de
ver e
sentir a
arte e o
mundo.
Livros,
caixas de
transporte de
obras de
arte
ou
lousa
são
ícones de
um
grande
jogo
visual
para
refletir
sobre os
três
eixos da
arte, o
artista propriamente
dito,
aquele
que
pensa a
arte e
quem leciona o
tema. Na
arte
contemporânea, essas
facetas se mesclam a
ponto dos
limites serem questionados, subvertidos e
mesmo perdidos.
Decorre daí uma
ampla
discussão
que
não pode
perder de
vista, no
entanto,
que a
produção de
um
criador está
ligada à
sua
formação. É nesse
ponto
que Rubens do
Espírito
Santo apresenta uma
agradável
surpresa
para os
que conhecem
apenas
suas
Cabanas:
ele revela
fatura no
processo
artístico.
Há
em
sua
gravura,
pintura e
desenho
características
que o tornam
um
artista
muito
além da
categoria “conceitual”,
como
muitos insistem
em denominá-lo. As
pesquisas
em
gravura, o
vigor do
desenho numa
sessão de
modelo
vivo e a
proposta de entender a
pintura
como uma
visão
plástica caracterizada
pelo
jogo de
cores e
formas e
pelo acabamento esmerado, o
que independe do
material.
Rubens
Espírito
Santo é “santo”
não no
sentido de “soberanamente
perfeito”,
mas de “útil”
e “benéfico”; e “espírito”
não
enquanto “entidade
sobrenatural”,
mas
enquanto “parte
imaterial do
ser
humano”.
Seu
pensamento e
prática
plásticas
são,
portanto, benéficas
para o
desenvolvimento dessa “parte
imaterial”
que,
paradoxalmente é
talvez o
que
cada
um de
nós tenha de
melhor e
mais
humano.
Oscar
D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).