por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Rubens Espírito Santo

 

            O santo espírito do criar

 

            A arte contemporânea se tornou uma progressiva combinação entre o saber fazer e o saber pensar. Cada vez mais essas duas instâncias caminham juntas, de modo que a habilidade técnica se alie ao construir e expressar um conhecimento que, no fundo,  é um exercício visual sobre a realidade visível e aparente.

            No livro Rubens Espírito Santo (Laserprint, 112 páginas), o artista apresenta parte  de sua consistente trajetóriaprincipalmente no período de 1985 a 2008 –,  entendendo-a como uma jornada de uma vida, uma constante oferta de soluções para problemas técnicos e existenciais. No Ateliê do Centro, local em São Paulo que divide entre a produção e as aulas dos mais variados assuntos e onde existe prensa para gravura, espaço para marcenaria e biblioteca, coloca seu fazer intelectual em ação.

            Isso significa a prática de um pensamento que o acompanha desde a juventude. Nascido em São José dos Campos, interior de São Paulo, em 1966, completou o ensino fundamental e, depois, buscou e foi encontrando seus próprios professores, tanto na área de filosofia como de semiótica, poesia, estética, gravura e pintura.

            Construiu assim um repertório que inclui o desejo de produzir, mas sem perder de vista aquilo que se está fazendo e como isso se insere no panorama da arte feita no Brasil e no exterior. Isso quer dizer estar sempre atento a novos referenciais, principalmente os de ponta.

            A idéia não é trabalhar com a página virada da história, mas estar virando a página. Talvez o segredo, além da habilidade do fazer, exercitada desde a infância, esteja, em parte, nas influências familiares: um pai determinado, obsessivo, talvez, em alcançar seus objetivos, e uma mãe, feirante, obrigada a saber divulgar seu produto.

            O resultado plástico mais célebre de Rubens são as Cabanas, apresentadas em diversas instituições como Tomie Ohtake, Centro Universitário Maria Antônia, Galeria Baró Cruz e Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre outros locais. Está uma sinopse do que é o mundo de um artista merecedor desse nome: objetos pessoais, cadernos de estudos, diários, lousa, frases, histórias coletadas ao longo da vida.

            É evidente que ali se mesclam pintura, escultura, cinema, fotografia e arquitetura, com espaço para reflexão sobre psicanálise, filosofia, pedagogia e vídeo, possibilitando parcerias com as mais diversas áreas do conhecimento e criadores. Isso não é de causar nenhum espanto, pois a prática e a experiência pedagógica de Rubens é interdisciplinar por essência. Inclui, por exemplo, as referências a cinema e a visão mais ampla possível do que é conhecido e do que existe para descobrir.

Cada Cabana é uma extensão de seu ateliê tanto mental quanto físico e de seu modo de ver e sentir a arte e o mundo. Livros, caixas de transporte de obras de arte ou lousa são ícones de um grande jogo visual para refletir sobre os três eixos da arte, o artista propriamente dito, aquele que pensa a arte e quem leciona o tema. Na arte contemporânea, essas facetas se mesclam a ponto dos limites serem questionados, subvertidos e mesmo perdidos.

Decorre daí uma ampla discussão que não pode perder de vista, no entanto, que a produção de um criador está ligada à sua formação. É nesse ponto que Rubens do Espírito Santo apresenta uma agradável surpresa para os que conhecem apenas suas Cabanas: ele revela fatura no processo artístico.

em sua gravura, pintura e desenho características que o tornam um artista muito além da categoriaconceitual”, como muitos insistem em  denominá-lo. As pesquisas em gravura, o vigor do desenho numa sessão de modelo vivo e a proposta de  entender a pintura como uma visão plástica caracterizada pelo jogo de cores e formas e pelo acabamento esmerado, o que independe do material.

            Rubens Espírito Santo é “santonão no sentido de “soberanamente perfeito”, mas de “útil” e “benéfico”; e “espíritonão enquantoentidade sobrenatural”, mas enquantoparte imaterial do ser humano”. Seu pensamento e prática plásticas são, portanto, benéficas para o desenvolvimento dessa “parte imaterialque, paradoxalmente é talvez o que cada um de nós tenha de melhor e mais  humano.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

  Angela Castelo
bastão a óleo sobre papel 200x200 cm 2007 Espaço Transitório de Arte
 Coca Aguiar e Angela Sucar Fotografia de Rubens Espírito Santo

Rubens Espírito Santo

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio