por Oscar D'Ambrosio


 

 



Juhászné Albert Rozália 

A poeta visual da Transilvânia – Oscar D’Ambrosio

        A Transilvânia é uma região peculiar. Além de estar ligada, na literatura, à história de Drácula, é uma região de um complexo passado histórico. Ela integrou o antigo reino da Dácia e foi conquistada pelos romanos em 105. Sofreu depois várias invasões e foi colonizada por alemães, romenos e magiares. Depois de pertencer à Hungria, Império Otomano e Áustria, passou à Romênia após a I Guerra Mundial.

        De fato, a região é um planalto separado do resto do país, isolado ao Sul pelos Alpes e pelos Cárpatos ao Este e Norte. Coberta por extensas florestas e banhada por diversos rios, apresenta um solo fértil, excelente para produzir cereais, frutas e fumo, além de contar com pecuária de qualidade e possuir ricas jazidas de ferro, chumbo, ouro, carvão e petróleo.

        É nesse universo muito peculiar que nasceu, em 14 de março de 1928, em Csíkszendtdomokos, uma aldeia da Transilvânia, a pintora Juhászné Albert Rozália, filha de um carpinteiro e de uma fiandeira, que trabalhava com todo tipo de tecidos e ainda cuidava de seus sete filhos.

        Com a Segunda Guerra, a família escapou do front e se mudou para Szabolcs (Hungria) em setembro de 1944. Rozália se habituou muito bem ao novo país e, em 1961, prestou exame para costureira profissional. Não só foi aprovada, como se deu muito bem no ofício, trabalhando nele até 1983, quando tinha onze discípulas que seguiam seus passos.

        A artista lembra bem de sua paixão pelas linhas e agulhas. "Sempre costurei roupas de bebê e já as desenhava quando era criança. Havia um córrego no fundo do jardim de casa e eu tirava pedras e fazia modelos para elas. Na Páscoa, com a casca dos tradicionais ovos coloridos, fazia mosaicos com figuras dançando", conta.

Rozália conta ainda como começou a pintar e a desenhar nas horas livres. "Utilizava tintas rudimentares e papel simples de desenho. Meu irmão, que morava em Budapeste, observou isso e me trazia tinta a óleo e telas. Somente comecei a pintar a sério, porém há uma década, devido a três fatores: meus filhos cresceram e saíram de casa; os pais do meu marido, que moraram 22 anos conosco, morreram; e a família de minha irmã construiu uma casa própria".

        As telas de Rozália revivem, de forma poética, etnográfica e quase antropológica em alguns casos, o autêntico mundo da Transilvânia. Isso significar colocar em imagens o ambiente natural da região, as casas com altos muros para combater o frio, as roupas de lá feitas a mão e costumes e festas nacionais ainda existentes.

        Em uma carta de 10 de dezembro de 1996, a artista escreveu: "Gosto de pintar mulheres vestidas com roupas de feriado, com seus rostos devotos, rodeados pelos lenços tradicionalmente usados na cabeça aos domingos. Também adoro colocar na tela as maravilhosas montanhas verdes no verão da Transilvânia que, no inverno, descansam embaixo da neve espessa. A natividade e a bênção junto ao bolo na Páscoa são outros temas constantes, assim como trenós espirrando água nas moças, festas populares, o nascimento do amarelo de um girassol, a beleza das papoulas, a cor dourada de um campo de milho, as plantações de trigo, os trabalhadores na colheita e todas as belezas na natureza".

        Rozália já realizou mais de doze exposições individuais e a rainha Elisabeth II da Inglaterra escolheu uma tela dela como lembrança da Hungria. Além disso, a editora japonesa Gakken, ao publicar, em 1991, cinco volumes sobre a arte naïf mundial, destaca seus quadros como representativos da arte naïf húngara.

        Ao enfocar sua cidade natal, Rozália enfatiza o inverno, mostrando os tetos cobertos de neve, as ruas brancas e uma paisagem cinzenta, com o céu plúmbeo e figuras humanas em tom pastel. Trata-se da visão pessoal de um cotidiano marcado pelo trabalho agrícola, mas pontuado por festas religiosas em que moradores se vestem de reis magos, anjos e Virgem Maria para celebrar, por exemplo, a Natividade. Vários tons de branco dão a esse tipo de quadro uma magia e um clima de conto de fadas.

        É, no entanto, em imagens mais fantásticas, em que a imaginação da artista se solta mais, que encontramos uma excelente demonstração do trabalho de Rozália. É o que ocorre em A kis pásztor alma, em que um pastor dormindo liberta sua alma, que sonha em percorrer, no lombo de um belo cavalo marrom, voltas circulares em torno da lua e partir rumo ao infinito por uma estrada de estrelas amarelas sobre um céu em diversos tons de azul e verde, que preenchem desde a parte superior do quadro até a metade.

        Na metade inferior, do lado direito, está a casa do pastor, que sonha em meio à palha, segurando seu cajado. Do lado oposto, há um poço. Entre este e o pastor dormindo, encontra-se o rebanho de cabras, igualmente descansando, num bloco de cor branca compacto, vigiado, à esquerda, por um cão preto da mesma cor do poço. Este último e o animal contrastam com o tom alvo dos caprinos, alheios aos desejos inconscientes do pastor. Tudo isso ocorre rodeado por uma vegetação típica da região da Transilvânia própria para a pastagem.

        O conjunto da obra de Rozália, em síntese, é uma jornada pictórica pelas paisagens e hábitos da Transilvânia. Cada tela traz um ensinamento sobre essa região, sendo um fragmento poético de uma realidade que serve de ponto de partida não só para telas fiéis àquilo que a artista viu na juventude e vivencia hoje, mas também motivadoras de situações fantásticas, em que a célebre terra natal do Conde Drácula é vista sob uma nova ótica, livre, em que a imaginação flutua e nos revela uma nova região, sem monstros, mas bela em suas paisagens nevadas e em seus cenários recriados pela fantasia de Rozália, a poeta visual da Transilvânia.

        

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).      

 
 

 

 

 

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