A Transilvânia é uma
região peculiar. Além de estar ligada, na literatura, à história
de Drácula, é uma região de um complexo passado histórico. Ela
integrou o antigo reino da Dácia e foi conquistada pelos romanos
em 105. Sofreu depois várias invasões e foi colonizada por alemães,
romenos e magiares. Depois de pertencer à Hungria, Império
Otomano e Áustria, passou à Romênia após a I Guerra Mundial.
De fato, a região é
um planalto separado do resto do país, isolado ao Sul pelos Alpes
e pelos Cárpatos ao Este e Norte. Coberta por extensas florestas
e banhada por diversos rios, apresenta um solo fértil, excelente
para produzir cereais, frutas e fumo, além de contar com pecuária
de qualidade e possuir ricas jazidas de ferro, chumbo, ouro, carvão
e petróleo.
É nesse universo muito
peculiar que nasceu, em 14 de março de 1928, em Csíkszendtdomokos,
uma aldeia da Transilvânia, a pintora Juhászné Albert Rozália,
filha de um carpinteiro e de uma fiandeira, que trabalhava com
todo tipo de tecidos e ainda cuidava de seus sete filhos.
Com a Segunda Guerra, a
família escapou do front e se mudou para Szabolcs (Hungria) em
setembro de 1944. Rozália se habituou muito bem ao novo país e,
em 1961, prestou exame para costureira profissional. Não só foi
aprovada, como se deu muito bem no ofício, trabalhando nele até
1983, quando tinha onze discípulas que seguiam seus passos.
A artista lembra bem de
sua paixão pelas linhas e agulhas. "Sempre costurei roupas
de bebê e já as desenhava quando era criança. Havia um córrego
no fundo do jardim de casa e eu tirava pedras e fazia modelos para
elas. Na Páscoa, com a casca dos tradicionais ovos coloridos,
fazia mosaicos com figuras dançando", conta.
Rozália conta ainda como começou a
pintar e a desenhar nas horas livres. "Utilizava tintas
rudimentares e papel simples de desenho. Meu irmão, que morava em
Budapeste, observou isso e me trazia tinta a óleo e telas.
Somente comecei a pintar a sério, porém há uma década, devido
a três fatores: meus filhos cresceram e saíram de casa; os pais
do meu marido, que moraram 22 anos conosco, morreram; e a família
de minha irmã construiu uma casa própria".
As telas de Rozália
revivem, de forma poética, etnográfica e quase antropológica em
alguns casos, o autêntico mundo da Transilvânia. Isso significar
colocar em imagens o ambiente natural da região, as casas com
altos muros para combater o frio, as roupas de lá feitas a mão e
costumes e festas nacionais ainda existentes.
Em uma carta de 10 de
dezembro de 1996, a artista escreveu: "Gosto de pintar
mulheres vestidas com roupas de feriado, com seus rostos devotos,
rodeados pelos lenços tradicionalmente usados na cabeça aos
domingos. Também adoro colocar na tela as maravilhosas montanhas
verdes no verão da Transilvânia que, no inverno, descansam
embaixo da neve espessa. A natividade e a bênção junto ao bolo
na Páscoa são outros temas constantes, assim como trenós
espirrando água nas moças, festas populares, o nascimento do
amarelo de um girassol, a beleza das papoulas, a cor dourada de um
campo de milho, as plantações de trigo, os trabalhadores na
colheita e todas as belezas na natureza".
Rozália já realizou
mais de doze exposições individuais e a rainha Elisabeth II da
Inglaterra escolheu uma tela dela como lembrança da Hungria. Além
disso, a editora japonesa Gakken, ao publicar, em 1991, cinco
volumes sobre a arte naïf mundial, destaca seus quadros como
representativos da arte naïf húngara.
Ao enfocar sua cidade
natal, Rozália enfatiza o inverno, mostrando os tetos cobertos de
neve, as ruas brancas e uma paisagem cinzenta, com o céu plúmbeo
e figuras humanas em tom pastel. Trata-se da visão pessoal de um
cotidiano marcado pelo trabalho agrícola, mas pontuado por festas
religiosas em que moradores se vestem de reis magos, anjos e
Virgem Maria para celebrar, por exemplo, a Natividade. Vários
tons de branco dão a esse tipo de quadro uma magia e um clima de
conto de fadas.
É, no entanto, em
imagens mais fantásticas, em que a imaginação da artista se
solta mais, que encontramos uma excelente demonstração do
trabalho de Rozália. É o que ocorre em A kis pásztor alma,
em que um pastor dormindo liberta sua alma, que sonha em
percorrer, no lombo de um belo cavalo marrom, voltas circulares em
torno da lua e partir rumo ao infinito por uma estrada de estrelas
amarelas sobre um céu em diversos tons de azul e verde, que
preenchem desde a parte superior do quadro até a metade.
Na metade inferior, do
lado direito, está a casa do pastor, que sonha em meio à palha,
segurando seu cajado. Do lado oposto, há um poço. Entre este e o
pastor dormindo, encontra-se o rebanho de cabras, igualmente
descansando, num bloco de cor branca compacto, vigiado, à
esquerda, por um cão preto da mesma cor do poço. Este último e
o animal contrastam com o tom alvo dos caprinos, alheios aos
desejos inconscientes do pastor. Tudo isso ocorre rodeado por uma
vegetação típica da região da Transilvânia própria para a
pastagem.
O conjunto da obra de
Rozália, em síntese, é uma jornada pictórica pelas paisagens e
hábitos da Transilvânia. Cada tela traz um ensinamento sobre
essa região, sendo um fragmento poético de uma realidade que
serve de ponto de partida não só para telas fiéis àquilo que a
artista viu na juventude e vivencia hoje, mas também motivadoras
de situações fantásticas, em que a célebre terra natal do
Conde Drácula é vista sob uma nova ótica, livre, em que a
imaginação flutua e nos revela uma nova região, sem monstros,
mas bela em suas paisagens nevadas e em seus cenários recriados
pela fantasia de Rozália, a poeta visual da Transilvânia.