Rosana
Bortolin
O corpo dos ninhos
Francis Bacon (1561-1626), em Da
construção, afirmou que “As casas são construídas para que se
viva nelas, não para serem olhadas”. A frase do filósofo inglês
ganha novas conotações após participar da exposição “Ninho, casa,
corpo”, da série "Habitar ninhos”, da artista plástica Rosana
Bortolin, no Centro Empresarial do Aço – Espaço Cosipa, em São
Paulo, SP, de 15 de fevereiro a 15 de março de 2006.
O trabalho não
convida a uma mera observação passiva, mas a uma reflexão ativa,
devido ao número de leituras que sugere a partir de suas três partes.
Bem diferentes entre si em conceito, integram-se pelo poder de sugerir
novas maneiras de ver a realidade. Ninho, casa e corpo, embora mantenham
elementos próprios, unem-se na idéia de serem um objeto a guardar
outros, animados ou não.
O ninho, que
pode ser visto, inicialmente, apenas como uma construção em que as
aves, alguns insetos, peixes e répteis fazem para depositar os ovos,
chocá-los e criar filhotes, torna-se, na linguagem humana, uma habitação
que ganha dimensões de teto, casa, lar, esconderijo e refúgio.
Na primeira
parte da exposição de Rosana, gaúcha de Passo Fundo radicada em
Florianópolis, SC, os ninhos são feitos de terra crua e cerâmica. Os
objetos estabelecem analogias com a simbologia de casulos, ou seja, são
invólucros que envolvem animais ou sementes de plantas.
O fascínio
da obra plástica da artista está em verificar como as cerâmicas
poderiam perfeitamente estar presentes na natureza. Como faz a boa
manifestação artística, cada trabalho apresenta o mérito de indagar
se não poderia ser real. Desse modo, as fronteiras entre o imaginário
e o existente são diluídas pela variável do verossímil.
Trata-se de
um exercício visual que obriga a repensar qualquer visão dogmática de
um provável afastamento entre a arte e o mundo considerado cotidiano.
Os ninhos e casulos criados pela artista são tão ou mais fascinantes
que os reais, estabelecendo uma conversa mútua inesgotável,
aprofundada pela presença de espelhos junto às peças de cerâmicas.
Os espelhos,
na horizontal e na vertical, criam novas dimensões de observação das
obras e, acima de tudo, convidam o espectador a também se observar,
pois, ao buscar novos ângulos de visão, principalmente no espelho
colocado embaixo dos “ninhos”, acaba vendo a si mesmo e se
relacionando de novas formas com esse objeto e com a própria imagem.
Esse passo
conduz à concepção do ninho como “casa”, ou seja edifício
destinado à morada. A inovação está na colocação de, agora sim,
ninhos verdadeiros, colhidos na natureza, dentro de malas. Dentro de um
raciocínio em que viajar e levar consigo, na mente e no coração, ou
seja, racional ou emotivamente, pedaços do ninho, as malas são as
portadoras desses pensamentos e emoções.
As malas que
guardam os ninhos e casulos estão abertas e os elementos da natureza
podem ser melhor vistos com lupas, que ampliam o potencial de cada
fragmento de se multiplicar, em termos denotativos e conotativos, em
proporções inimagináveis. Cada ninho (vale dizer, cada lembrança)
pode dominar o espaço mental, tornando-se muito maior que uma mala e
transformando vidas.
A relação
entre o corpo e a vida é o terceiro segmento da exposição. O corpo
surge como a casa de uma nova existência, situação exemplificada na
gravidez. A mãe guarda o filho, no ventre, ninho primordial, casulo que
logo se rompe. Fotos da artista grávida, com o corpo coberto de argila,
indicam para as complexas relações entre criador e criatura, fonte da
vida e feto a crescer com sangue, desejos e batimento cardíaco próprios.
A argila que
cobre o corpo da artista/mulher/grávida é o material que origina a cerâmica,
em diferentes tonalidades e queimada em temperaturas distintas. Se do pó
viemos e a ele voltaremos, a poética de Rosana Bortolin, mestre pela
Escola de Comunicações e Artes da USP, aponta que a cerâmica faz essa
trajetória com lirismo.
Na ação
criativa da modelagem, onde a água tem um papel essencial, no controle
das formas do barro, no sopro primordial emitido pelo fogo e no exercício
vital de respirar para sair do ninho e conquistar o mundo, a série Habitar
ninhos reúne numerosas qualidades, conectadas pela profundidade e
sinceridade no estudo de uma mesma temática: o poder dos ninhos de,
como objetos construídos, por recursos humanos ou animais, evocar
segurança, recordações e energia vital em cada uma de suas curvas e
reentrâncias.
Se Bacon via
casa como um universo para ser vivenciado como moradia, Rosana gaúcha vê
no ninho muito mais do que uma casa construída. Ele se torna a razão
de continuidade da espécie. Oferece proteção ao inseto, moradia ao
ovo e local de formação de um feto.
Rosana
Bertolin tem a força dos insetos sociais, em seu trabalho de construir
locais de habitação, a criatividade humana no manejo dos materiais,
presente no mítico Prometeu e na habilidade nas forjas do deus ferreiro
Hefesto, e a coragem de
refletir, com densidade e talento, sobre o milagre ainda não totalmente
explicado da vida.
Cada
ninho se torna uma manjedoura de amor, não no sentido piegas romântico,
mas na essência da arte, ou seja, a capacidade que ela tem de gerar, no
criador e no observador/participante, uma visão de mundo que mescle razão
e emoção, lógica e sensibilidade, desafio que a artista gaúcha expõe
e responde com a capacidade de gerar novas e densas inquietações. Cada
ninho é um corpo a ser desvendado, uma casa em busca de moradores, como
Rosana Bertolin, que lhe investiguem os seus segredos.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em
Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor,
entre outros, de Contando a arte de Rubens Matuck (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).