Rosa Maria
A poesia em imagens
O romancista português Camilo Castelo
Branco, no século XIX, dizia que “a poesia não tem presente:
ou é esperança ou a saudade”. Essas palavras se aplicam
perfeitamente aos quadros da paulista Rosa Maria. Suas imagens de
pequenas cidades do interior, plantações e cenas rurais mostram
que o tempo, na alma da pintora, simplesmente não existe.
As figuras surgem congeladas em suas
telas, guardando um momento atemporal. Quando se trata de uma
colheita, dezenas de trabalhadores rurais aparecem com roupas
coloridas e vibrantes desempenhando o seu ofício em massa de
cores, geralmente quentes, que se espalham em meio ao verde da
natureza e ao azul do céu.
Se o universo retratado é o do
Pantanal, a riqueza da fauna mato-grossense é mostrada em seu
esplendor, em composições marcadas pelo movimento e pela busca
de harmonia entre diversas cores. Os vermelhos surgem para dar
cromatismo e equilíbrio à imagem, enquanto, em meio a uma
árvore plena de folhas verdes, um pássaro azul surge, quebrando
a monotonia da composição.
A combinação de cenas de colheita
com a meiguice de um rancho oferece excelentes resultados, pois o
branco caiado das paredes dá intensa luminosidade à tela. As
árvores, plantações e trabalhadores rurais tornam-se assim
coadjuvantes do mundo difícil do trabalhador rural, mas poetizado
com solenidade pictórica pela artista plástica.
As imagens de pequenas vilas
exemplificam plenamente como é possível tornar um microcosmo
composto por uma igreja, um ambiente rural, um bumba-meu-boi e
bandeirinhas num universo de amplas referências. Toda a alma e a
essência de uma festa popular podem ser encontradas em quadros de
uma linguagem aparentemente simples, mas densa em sua
significação folclórica.
Nascida em Ibitinga, SP, em 1952, Rosa
Maria, cujo nome completo é Rosa Maria Fernandes Lippe, chegou a
realizar estudos de pintura na Escola de Belas Artes, de 1979 a
1983, mas isso não lhe retirou a espontaneidade. Talvez até
tenha acentuado um traço seguro, pleno de delicadeza.
A maior característica da pintura de
Rosa está justamente na execução precisa das imagens que se
propõe a mostrar. Os detalhes das janelas ou dos vestidos revelam
uma pincelada segura e serena. Cores e imagens exercem funções
precisas num conjunto agradável de ser visto, mas não por isso
menos elaborado.
Os temas do campo surgem com força
oriundas do imaginário da artista e da disposição de compor
imagens e cores além de suas memórias. A realidade ganha, nesse
exercício cotidiano, uma dimensão artística. Cria-se assim uma
supra-realidade que conquista rapidamente pelo clima de
encantamento.
Premiada com a Medalha de Ouro na Casa
de Cultura Sorocabana, em 1994, Rosa Maria já expôs seus
trabalhos no Uruguai, Argentina, EUA, China, Japão e Dinamarca.
Com seu estilo ingênuo, consegue desnudar o universo rural das
agruras do trabalhador braçal, oferecendo tanto um mundo de
saudade de um passado harmonioso e idílico, como a esperança de
uma realidade mais bela.
O mesmo Camilo, que via a poesia como
retratos da esperança ou da saudade, também já apontou que
poeta “é aquele que desmente as leis anatômicas e
filosóficas, vivendo do princípio vital de uma única entranha:
o coração”. A pintura de Rosa Maria obedece a essa poesia,
pois, muito mais do que leis acadêmicas de arte ou divagações
existenciais, seus quadros oferecem aquele tipo de poesia original
e verdadeira, que brota dos artistas que, como a artista paulista,
conseguem, com naturalidade, juntar a emoção ao talento.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).