por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rosa Maria

A poesia em imagens

O romancista português Camilo Castelo Branco, no século XIX, dizia que “a poesia não tem presente: ou é esperança ou a saudade”. Essas palavras se aplicam perfeitamente aos quadros da paulista Rosa Maria. Suas imagens de pequenas cidades do interior, plantações e cenas rurais mostram que o tempo, na alma da pintora, simplesmente não existe.

As figuras surgem congeladas em suas telas, guardando um momento atemporal. Quando se trata de uma colheita, dezenas de trabalhadores rurais aparecem com roupas coloridas e vibrantes desempenhando o seu ofício em massa de cores, geralmente quentes, que se espalham em meio ao verde da natureza e ao azul do céu.

Se o universo retratado é o do Pantanal, a riqueza da fauna mato-grossense é mostrada em seu esplendor, em composições marcadas pelo movimento e pela busca de harmonia entre diversas cores. Os vermelhos surgem para dar cromatismo e equilíbrio à imagem, enquanto, em meio a uma árvore plena de folhas verdes, um pássaro azul surge, quebrando a monotonia da composição.

A combinação de cenas de colheita com a meiguice de um rancho oferece excelentes resultados, pois o branco caiado das paredes dá intensa luminosidade à tela. As árvores, plantações e trabalhadores rurais tornam-se assim coadjuvantes do mundo difícil do trabalhador rural, mas poetizado com solenidade pictórica pela artista plástica.

As imagens de pequenas vilas exemplificam plenamente como é possível tornar um microcosmo composto por uma igreja, um ambiente rural, um bumba-meu-boi e bandeirinhas num universo de amplas referências. Toda a alma e a essência de uma festa popular podem ser encontradas em quadros de uma linguagem aparentemente simples, mas densa em sua significação folclórica.

Nascida em Ibitinga, SP, em 1952, Rosa Maria, cujo nome completo é Rosa Maria Fernandes Lippe, chegou a realizar estudos de pintura na Escola de Belas Artes, de 1979 a 1983, mas isso não lhe retirou a espontaneidade. Talvez até tenha acentuado um traço seguro, pleno de delicadeza.

A maior característica da pintura de Rosa está justamente na execução precisa das imagens que se propõe a mostrar. Os detalhes das janelas ou dos vestidos revelam uma pincelada segura e serena. Cores e imagens exercem funções precisas num conjunto agradável de ser visto, mas não por isso menos elaborado.

Os temas do campo surgem com força oriundas do imaginário da artista e da disposição de compor imagens e cores além de suas memórias. A realidade ganha, nesse exercício cotidiano, uma dimensão artística. Cria-se assim uma supra-realidade que conquista rapidamente pelo clima de encantamento.

Premiada com a Medalha de Ouro na Casa de Cultura Sorocabana, em 1994, Rosa Maria já expôs seus trabalhos no Uruguai, Argentina, EUA, China, Japão e Dinamarca. Com seu estilo ingênuo, consegue desnudar o universo rural das agruras do trabalhador braçal, oferecendo tanto um mundo de saudade de um passado harmonioso e idílico, como a esperança de uma realidade mais bela.

O mesmo Camilo, que via a poesia como retratos da esperança ou da saudade, também já apontou que poeta “é aquele que desmente as leis anatômicas e filosóficas, vivendo do princípio vital de uma única entranha: o coração”. A pintura de Rosa Maria obedece a essa poesia, pois, muito mais do que leis acadêmicas de arte ou divagações existenciais, seus quadros oferecem aquele tipo de poesia original e verdadeira, que brota dos artistas que, como a artista paulista, conseguem, com naturalidade, juntar a emoção ao talento.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 


  

 

 

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