por Oscar D'Ambrosio


 

 


Romolo Lombardi

 

Delicadas luzes

 

Os irmãos Edmond e Jules de Goncourt, em 1856, escreveram palavras célebres quando se trata de definir a obra de artistas que, a partir das imagens que contemplam na natureza, criam seus próprios trabalhos: “Diante da tela de um bom paisagista, eu me sinto mais no campo do que se estivesse em pleno campo e em plena floresta.”

As telas de Romolo Lombardi provocam justamente esse efeito. Nascido em São Paulo, SP, em 24 de maio de 1891, filho de imigrantes italianos, ele mostrou, desde criança, inclinação para o desenho, preenchendo os assoalhos de sua casa com caretas e paisagens feitas com carvão. O caminho natural foi o estudo de pintura e, aos 12 anos, passou a ter aulas regulares com o professor Guilherme Pangella.

Lombardi começou assim a concretizar suas aspirações artísticas. O início profissional, porém, vinculado ao mundo do teatro, ocorreu em 1916. Uma confraternização na Confeitaria Guarany, em São Paulo, realizada em 29 de agosto, marca o seu ingresso na Companhia Arruda – Artistas e Técnicos, para a qual daria suporte técnico ao recém-inaugurado Teatro Municipal.

Em 1918, é contratado como cenógrafo do Teatro Municipal, realizando cenários para várias companhias durante a década de 1920. Um de seus trabalhos mais elogiados foi, em 1924, o salão gótico do segundo ato e o bosque do quarto ato da produção de A bela adormecida, ano em que o artista também colaborou na temporada da Companhia Procópio Ferreira. Em 1928, concebeu ainda imponentes cenários de Madame Butterfly, para a Associação Ópera Lírica Nacional, também no Teatro Municipal.

Lombardi participou, em 1922, da Primeira Exposição Geral de Belas Artes no Palácio das Indústrias – ainda em construção, ao lado de artistas como Anita Malfatti, Bertha Worms, Waldemar Belizário, Tarsila do Amaral, Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva. O evento, que ficou em segundo plano perante a célebre Semana dos Modernistas, promovida naquele mesmo ano, no Teatro Municipal, teve como palestrante Menotti Del Pichia e foi objeto de um elogioso artigo de Monteiro Lobato, na Revista do Brasil, de outubro de 1922.

O artista arrebatou ainda medalhas pela decoração de salões para festas carnavalescas e pela criação de imponentes carros alegóricos. Em 1933, foi convidado para decorar os salões do Hotel Terminus para o carnaval do ano seguinte. Após dois meses de trabalho, o resultado foi tão esplendoroso, que o consagrou como o mago da cenografia brasileira.

Os salões do hotel foram transformados num verdadeiro palácio de mágicas. Desde a entrada, criava-se a impressão de um fundo do mar, com polvos com enormes tentáculos, tubarões, peixes-espadas, lagostas vermelhas, camarões imensos, conchas, pérolas, corais e peixes exóticos, além de elogiados efeitos de luz e águas que davam a idéia de cascatas.

Nos anos 1930 e 1940, Lombardi trabalhou intensamente. Na segunda metade da década de 1930, Alfredo Mesquita concedeu ao artista paulista o privilégio de trabalhar nos tradicionais espetáculos beneficentes anuais do Teatro Municipal de São Paulo, executando as cenografias desenhadas por José Wast Rodrigues; e, em 1940, foi diretor cenotécnico de 18 óperas do Teatro Municipal de São Paulo e 20, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Em meados da década de 1940, o artista saiu do Teatro Municipal e, com a progressiva decadência da cenografia, passou, em 1943, para a tela, dizendo que, por meio dessa manifestação artística, transformava em imagens as suas desilusões. A conseqüência natural foi a realização, em outubro de 1945, da primeira exposição individual, seguida da segunda, no ano seguinte, na Galeria Benedetti.

Três anos depois, em 1948, além de mais uma individual, Lombardi decora o Ginasium, de Campinas. O paisagismo, no entanto, invadira o seu sangue. Participa várias vezes do Salão Paulista de Belas Artes, sendo premiado, em 1952, com menção honrosa, por duas aquarelas.

O universo pictórico do artista se caracteriza por cores sóbrias, fiéis à realidade, em telas que mostram paisagens, cenas pastoris, naturezas mortas e imagens de matas virgens Embora não rejeitasse a pintura moderna – que teve sua explosão com a Semana realizada em 1922, no Teatro Municipal – ele admitia que queria manter-se ligado à sua arte acadêmica, longe de ousadias em termo de cores e formas.

Em 12 de novembro de 1957, quando preparava uma grande mostra individual, Lombardi falece. No mês seguinte, o Salão Paulista lhe presta homenagem póstuma. Mais de 30 anos depois, em 1988, com reabertura do Teatro Municipal, o prefeito Jânio Quadros autoriza a primeira retrospectiva Lombardi, no Centro Cultural São Paulo, com apoio do Instituto Italiano di Cultura e do Instituto Ítalo Cultural Brasileiro.

Dez anos depois, no o Solar da Marquesa, próximo à Praça da Sé, em São Paulo, Capital, é organizada uma exposição de 22 obras de Lombardi, incluindo a tela Jesus entre os doutores, do acervo da Igreja Nossa Senhora do Brasil. Em 1999, ocorre nova retrospectiva, no Espaço Cultural Banespa, com 133 trabalhos, incluindo cenografia, óleos, aquarelas, guaches e estudos pertencentes a coleções particulares.

Envolvidos na recuperação da memória do artista, Dario Bueno e Celso Donizetti dos Santos participam ativamente dessas exposições, tanto no papel de organizadores como no de curadores. Nesse esforço, costumam ressaltar o tom geralmente nostálgico das imagens criadas pelo artista paulistano.

Romântico ao dizer que “em cada tela que termino, deixo um pedacinho de mim”, Romolo Lombardi mostrou um grande talento em suas paisagens, principalmente no domínio de nuances de cores na delicadeza de abordagens. Seu tom sereno – muitas vezes triste – desperta no observador de suas telas o amor à contemplação. Capaz de realizar de imensos painéis cenográficos a diminutas aquarelas com o mesmo preciosismo, o artista permanece como um nome a ser devidamente resgatado no panorama artístico paulista e nacional.

Se, no dizer dos irmãos Goncourt, a floresta se torna mais real do que ela é quando tratada com habilidade pictórica, as paisagens presentes no trabalho de Romolo Lombardi são plenas de lirismo e poesia, com extremo rigor técnico e inegável capacidade de transformar paisagens vistas ou imaginadas em emoções vividas, geralmente com ênfase para a solidão existencial e o surgimento de delicadas e sutis indagações sobre a própria razão de ser da Humanidade.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Artes (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

 

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"Parque Trianon "

  óleo sobre tela 44x61 cm 1938

Romolo Lombardi 

 

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