por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rolando Carrettiero

 

            A preservação de imagens em extinção

 

            No romance Quarup (1967), o escritor Antonio Callado afirma que “os índios fascinam a gente porque são anteriores ao tempo”. A frase, própria de um autor que se caracteriza pelo apuro formal, penetração psicológica e engajamento político e social, é um excelente caminho para uma melhor observação do trabalho pictórico de Rolando Carrettiero sobre os índios.

            Ao fixar em imagens os povos indígenas, o artista encontra uma forma de perpetuar povos prestes a desaparecer. Sua obra torna-se, portanto, um documento pictórico e afetivo de cidadãos brasileiros dignos de todo respeito e admiração, mas, às vezes, infelizmente, apenas lembrados durante o mês de abril, quando é celebrado o seu dia.

            Italiano de nascimento, com passagem pela Argentina antes de se estabelecer no Brasil, especificamente em São Paulo, Carrettiero, apaixonado pelo desenho e pela aquarela, encontra na representação dos índios uma maneira de manter uma cultura continuamente ameaçada de extinção.      

            O artista não busca um trabalho antropológico no sentido de reprodução fiel de etnias, adereços e pinturas corporais. Sua estética vale-se muito mais dos jogos cromáticos, da captação de atmosferas e da criação de climas para cada pintura a partir do uso do olhar e da expressão do rosto.

Desse modo, cada índio que surge é único. O alimento para essas imagens é a literatura especializada, fotografias e, acima de tudo, o entendimento de que a feitura de cada quadro funciona como um ato de resistência de uma cultura e como uma ação concreta de sobrevivência estética por meio da arte de pintar.

Carrettiero se vale do jogo de cores, principalmente da família dos ocres e terras, e de uma textura bem própria para criar a densidade de suas telas. Os resultados mais interessantes ocorrem quando mantém a referência concreta do rosto, mas ocorre a diluição de alguns dos traços que rodeiam olhos, boca e nariz.

            A força do olhar nesse momento dá a algumas pinturas um diferencial significativo, inclusive em relação a outros artistas que pintam a mesma temática. Há, portanto, em cada imagem que o artista realiza a preocupação de mostrar ao observador o estado de espírito de uma nação que enfrenta grandes dificuldades para se manter viva.

O tempo primordial da plenitude da cultura indígena brasileira, bem antes da chegada dos portugueses, é resgatado pelo pincel de Carrettiero. Ele consegue, com sutileza e talento, recuperar e eternizar com sua pintura um espaço imemorial próximo ao Éden paradisíaco que alimenta o nosso espírito e nos parece cada vez mais distante.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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  Índio brasileiro 
acrílico sobre painel 80 cm x 60 cm 2005 

Rolando Carrettiero

 

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