Rodrigo
Nucci
A mentira verdadeira
Para o escritor francês
Jean Rostand (1894-1977), “a arte deve ser mentira verdadeira e
não falsa verdade”. O trabalho artístico de Rodrigo Nucci
segue justamente esse caminho, pois as imagens que cria são
marcadas por uma grande honestidade intelectual e uma visceral
dedicação ao próprio trabalho.
Nascido em São
Paulo, SP, em 24 de abril de 1974, Nucci concebeu seus primeiros
trabalhos com o auxílio do pai, como pipas, balões e aviões de
papel. Essa atividade já anunciava um amor pelo método da
construção que adotaria mais tarde. Ainda no pré-jardim,
percebeu-se daltônico após pintar um desenho com uma pessoa em
azul e uma árvore com tronco verde e folhas marrons.
O
hábito de construir e a visão peculiar da cor são fatos
importantes em sua obra. Basta lembrar que, aos 13 anos, a
necessidade de criar resultou na feitura de recortes de letras e
desenhos em cartolina para pichar muros e camisetas. Com essa
mesma idade, mudou com a família para Taubaté, cidade onde,
quatro anos depois, ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade de Taubaté (Unitau).
Logo
no primeiro ano, Nucci interessou-se por desenho, plástica e
maquetes volumétricas, fato também importante pelo amor que dá
ao detalhe em suas atuais obras. Em 1992, já interessado pelo
mundo da arte, inscreve-se no ateliê de desenho e pintura do
artista plástico Ricardo Montenegro, onde permanece durante um
ano.
No
ano seguinte, o jovem artista começou a pintar painéis de
eucatex e telas com tinta a óleo. Uma de suas primeiras influências
foi um livro com imagens de Salvador Dali. Inquieto – característica
que mantém até hoje em seu ritmo quase industrial de produção
–, Nucci começou a pintar com os dedos, assoprando tinta e
construindo grandes espátulas que pareciam rodos, numa tentativa
de se aproximar do processo de criação apregoado pelo
surrealismo, que valorizava o papel do subconsciente e do
inconsciente na arte.
Dois
anos depois, o artista conheceu uma gravura de Manabu Mabe, que
lhe causou forte impressão e o estimulou a produzir obras
abstratas. O resultado foi, de 1995 a 2001, a consecução de uma
série de painéis com tinta automotiva e acrílica. As telas,
embora bastante impressionantes pelo uso vigoroso das cores,
careciam de maior pesquisa estética.
Mas
mudanças maiores estavam por vir. Desde 1994, Nucci trabalhava
com maquetes de arquitetura e, dois anos depois, ao se formar,
abriu um escritório, passando, em 1998, a atuar em uma
construtora em Taubaté. A arte, porém, continuava presente –
e o levou a agendar uma visita ao artista plástico José
Zaragossa.
Para
a reunião, Nucci levou 30 quadros. Zaragossa os elogiou, mas lhe
deu um conselho fundamental: se quisesse realmente ser artista
deveria pintar oito horas por dia para pesquisar técnicas e
desenvolver um estilo. Perante as atividades que tinha até então,
a tarefa se apresentava como impossível para o arquiteto, que
decidiu não pintar mais e dar prosseguimento a sua carreira
profissional.
Uma
transformação, no entanto, ocorreu em 1999. Foi uma total
guinada. Em dez dias, Nucci fecha o escritório, sai da
construtora e, como estava sozinho em casa, já que os pais
haviam viajado, resolveu colocar em prática o conselho de
Zaragossa. Pegou 30 telas e painéis e voltou a pintar com tinta
acrílica e automotiva, gerando a série abstrata “Núcleos”,
marcada pelo impulso criativo e por uma forte gestualidade, numa
espécie de grito de amor à arte.
Surgiu
em seguida a oportunidade de expor no Taubaté Shopping Center.
Nucci montou a exposição rapidamente, colocando aproximadamente
35 obras numa sala de 10 x 15 m. Houve repercussão na mídia
local e o escultor Fernando Ribeiro Ito, ao visitar o espaço,
elogiou o trabalho, mas alertou o artista quanto a uma certa
confusão temática e ao número excessivo de telas para o espaço
disponível.
A
crítica construtiva funcionou, e Nucci pediu orientação para
conhecer ateliês em São Paulo. Assim, a partir de 2000, passou
a ter contato com artistas como Aldemir Martins e Rubens Matuck.
Com este último, começou então a freqüentar semanalmente
aulas de modelo vivo e história da arte, viajando, com esse
objetivo, uma vez por semana de Taubaté a São Paulo.
O
contato com a intensa ética e rigor formal de Matuck foi um
choque para o impulso criativamente desordenado de Nucci. Talvez
para mergulhar justamente num processo de auto-conhecimento começou
a produzir uma série de auto-retratos grisalhos. A figuração,
certamente em função das aulas de modelo vivo e de história da
arte, começou a ter maior importância em seu trabalho.
A
partir de 2002, a mulher, a família, os amigos e o daltonismo
tornaram-se seus temas. A experimentação com técnicas e
materiais de qualidade começou também a integrar o cotidiano de
seu trabalho, num processo em que a consciência do ato de fazer
e dos suportes utilizados tornou-se tão ou mais importante do
que a tela pronta.
As
mencionadas aulas de modelo vivo, técnicas de preparação de
pintura, aquarela e história da arte, além das de gravura em
metal com George Gutlich e o curso de pós-graduação em História
da Arte na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) deram a
Nucci uma consciência cada vez maior do próprio fazer artístico.
A
carreira do artista, que inclui individuais em Taubaté, SP, e
coletivas em São Paulo, Piracicaba e Taubaté, passa por um
gradativo processo de aperfeiçoamento. Um de seus projetos, que
inclui a criação de figuras de animais sobre uma base de bolo
armênio e trabalho com a técnica de nanquim chinês, é
realizado com rigoroso planejamento, provavelmente fruto de sua
formação de arquiteto e o gosto de trabalhar com maquetes, o
que exige amor detalhe e criatividade.
Rodrigo
Nucci revela sinceridade em todo o seu trabalho. Em sua mente e
em suas mãos, a arte é hoje resultado de um processo de
representação realizado com ampla consciência e domínio dos
materiais. Os animais que surgem na tela estão plenos de
sensibilidade e, ao mesmo tempo, da verdade interior do artista,
que, presente desde o início de sua carreira, surge agora com um
rico processo de desenvolvimento do significado de criar e de
trabalhar com materiais concretos para atingir as abstrações
dos sentimentos humanos.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de
Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).