por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rodolpho Tamanini Netto

 

            Janelas para o mundo

 

            Em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o protagonista diz que descobriu uma lei sublime, a da equivalência das janelas, estabelecendo que “o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”.

            A máxima, embora vinda da literatura, aplica-se muito bem à arte de Rodolpho Tamanini Filho. Ela se evidencia na forma como o artista trabalha, seja quando as janelas surgem explícitas, seja na forma como enquadra as suas imagens, que geralmente parecem paisagens vistas de um local privilegiado.

            Uma de suas temáticas preferidas é a urbana. A cidade que surge é a de figuras humanas geralmente diminutas perante um universo que perde a hostilidade que estamos acostumados a ver. Papéis picados, balões e fogos de artifício são elementos recorrentes em suas paisagens citadinas.

            A cidade de Tamanini é verde e humana e cenas de demolição de edifícios ou imagens recortadas de janelas ganham um lirismo incomum. A tinta surge de forma rala, utilizada com parcimônia. As telas não têm volume ou textura, conquistando pelo amor ao detalhe e pela busca da maneira mais adequada de expressar uma visão de mundo. 

Seja nas imagens urbanas ou nas paisagens em que o mar surge com importância, caracterizadas por elementos verticais, cipós ou plantas, o trabalho plástico tem como diferencial a construção de climas peculiares. A figura humana compõe a imagem de modo complementar, integrando-se ao todo sem ruptura, mas de modo delicado e associativo.

            Essa mesma poética se faz presente nas cenas de favelas, uma temática de preferência do artista. As casinhas se equilibram das maneiras mais curiosas, numa espécie de castelo de cartas. Pipas surgem no céu e os moradores aparecem diminutos, nas janelinhas das casas, com corpos ressaltados com sutis jogos pictóricos de luz.

            É, todavia, no enquadramento que Tamanini tem a sua peculiaridade. Suas pinturas são quase recortes fotográficos plenos de significado pela angulação escolhida e pelas óticas estabelecidas. Surge assim tanto uma São Paulo lírica como favelas de intensa cor junto ao mar e sem miséria ou paisagens com poéticos entardeceres.

            Há em Tamanini o estabelecimento de uma realidade quase onírica. O seu mundo não existe, mas, ao mesmo tempo, vislumbra-se como realidade possível. Talvez, como aponta sabiamente Brás Cubas, a verdadeira sabedoria do artista paulista esteja na equivalência das janelas.

            Quanto mais o artista abre a janela da imaginação, fecha a da realidade aparente e vice-versa. Assim, o seu trabalho subsiste pela capacidade de gerar uma nova urbanidade, equilibrada, mais humana, possível, mas cada vez mais utópica e distante do caos em que vivemos.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

A janela 

 I óleo sobre tela 120 x 80 cm sem data
Rodolpho Tamanini Netto

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio