por Oscar D'Ambrosio


 

 


Rocha Maia

 

            O domínio do espaço

 

            Uma das principais funções da arte é comunicar ao observador um pensamento, seja ele de caráter mais político ou estético. O que não pode ocorrer num trabalho significativo é que ele passe indiferente ao receptor, fazendo com que não tenha nenhum tipo de emoção após contemplá-lo.

            Rocha Maia foge a esse risco com sua obra plástica. Há um resultado final que agrada em duas dimensões. De um lado, existe a questão técnica, pelo uso de cores geralmente fortes e contrastantes, que conseguem transmitir justamente um certo estado de espírito.

            Sua trajetória, iniciada na cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1º/11/1947 e  desenvolveu sua técnica autodidata, tem o cotidiano como tema central e essencial. Começou a sua carreira aos 18 anos, mudando depois para a região rural de Teresópolis, próximo à Serra dos Órgãos.

Desde  1979, reside em Brasília, DF, onde montou o Atelier Luz Dourada, junto com a sua esposa,  também artista plástica. Nessa cidade, atua ainda como diretor social da Sociedade dos Artistas Plásticos de Brasília. Em 2006, obteve a premiação de destaque na Bienal Naïfs do Brasil, organizada pelo SESC Piracicaba.

            É relevante em sua produção a série Rumo Reverso, com 35 telas, sendo que 19 delas foram usadas como ilustrações do livro homônimo, de Francisco Bezerra Siqueira, lançado em 2002. Trata-se de um conjunto de trabalhos que reúnem as principais características do artista, como o uso das cores quentes, a presença vigorosa da terra e o uso de amplos céus abertos.

            Tais particularidades se repetem e reafirmam em outros trabalhos, com a preocupação de oferecer um visual significativo associado a algum tipo de pensamento que alerte para as várias facetas de um Brasil repleto de contradições, tanto sociais como econômicas e culturais.

            A arte de Rocha Maia não aliena, mas insere o receptor na realidade circundante. Trata-se de uma ponte para o mundo, uma espécie de portal que propicia visões de uma nação sempre pronta a oferecer surpresas, convivendo com a modernidade dos grandes centros urbanos e imagens de um passado em que o coronelismo ainda fala alto.

            Estritamente em termos plásticos, a maneira como o artista utiliza o espaço da tela merece especial referência. Ele mostra uma maior facilidade no trato com a horizontalidade e se vale de largas faixas nas partes superior e inferior para estabelecer seu lirismo, muitas vezes marcado pela crítica social, pela ironia ao Brasil contemporâneo ou por um certo bom humor na forma de visualizar o cotidiano.

            O grande mérito de Rocha Maia está justamente na forma como realiza suas composições e aproveita o espaço. Vale-se de tons de amarelo e vermelho, por exemplo, para criar os climas que deseja, dando a cada obra uma atmosfera peculiar, em que, muitas vezes o ser humano se vê ínfimo perante o ambiente, como se fosse um personagem consciente de seus limites perante a grandiosidade do mundo.

            Após a premiação na Bienal de Piracicaba, principal evento nacional envolvendo a arte naïf, o desafio do pintor carioca radicado em Brasília é gerar, tanto pelo assunto como pela técnica, efeitos plásticos cada vez mais significativos em sua pintura no sentido de indagar o espectador, obrigando-o a pensar sobre o mundo em que ele habita. Atingir essa proposta é certamente o caminho para conquistas ainda maiores nos próximos anos.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

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500 anos antes técnica mista 50x150 cm 2006
500 anos depois
técnica mista 50x150 cm 2006

Rocha Maia

 

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