Rocha
Maia
O domínio do espaço
Uma das principais funções
da arte é comunicar ao observador um pensamento, seja ele de caráter
mais político ou estético. O que não pode ocorrer num trabalho
significativo é que ele passe indiferente ao receptor, fazendo com
que não tenha nenhum tipo de emoção após contemplá-lo.
Rocha
Maia foge a esse risco com sua obra plástica. Há um resultado
final que agrada em duas dimensões. De um lado, existe a questão técnica,
pelo uso de cores geralmente fortes e contrastantes, que conseguem
transmitir justamente um certo estado de espírito.
Sua
trajetória, iniciada na cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1º/11/1947
e desenvolveu sua técnica
autodidata, tem o cotidiano como tema central e essencial. Começou
a sua carreira aos 18 anos, mudando depois para a região rural de
Teresópolis, próximo à Serra dos Órgãos.
Desde
1979, reside em Brasília, DF, onde montou o Atelier Luz
Dourada, junto com a sua esposa,
também artista plástica. Nessa cidade, atua ainda como
diretor social da Sociedade dos Artistas Plásticos de Brasília. Em
2006, obteve a premiação de destaque na Bienal Naïfs do Brasil,
organizada pelo SESC Piracicaba.
É
relevante em sua produção a série Rumo Reverso, com 35 telas,
sendo que 19 delas foram usadas como ilustrações do livro homônimo,
de Francisco Bezerra Siqueira, lançado em 2002. Trata-se de um
conjunto de trabalhos que reúnem as principais características do
artista, como o uso das cores quentes, a presença vigorosa da terra
e o uso de amplos céus abertos.
Tais
particularidades se repetem e reafirmam em outros trabalhos, com a
preocupação de oferecer um visual significativo associado a algum
tipo de pensamento que alerte para as várias facetas de um Brasil
repleto de contradições, tanto sociais como econômicas e
culturais.
A arte
de Rocha Maia não aliena, mas insere o receptor na realidade
circundante. Trata-se de uma ponte para o mundo, uma espécie de
portal que propicia visões de uma nação sempre pronta a oferecer
surpresas, convivendo com a modernidade dos grandes centros urbanos
e imagens de um passado em que o coronelismo ainda fala alto.
Estritamente
em termos plásticos, a maneira como o artista utiliza o espaço da
tela merece especial referência. Ele mostra uma maior facilidade no
trato com a horizontalidade e se vale de largas faixas nas partes
superior e inferior para estabelecer seu lirismo, muitas vezes
marcado pela crítica social, pela ironia ao Brasil contemporâneo
ou por um certo bom humor na forma de visualizar o cotidiano.
O grande
mérito de Rocha Maia está justamente na forma como realiza suas
composições e aproveita o espaço. Vale-se de tons de amarelo e
vermelho, por exemplo, para criar os climas que deseja, dando a cada
obra uma atmosfera peculiar, em que, muitas vezes o ser humano se vê
ínfimo perante o ambiente, como se fosse um personagem consciente
de seus limites perante a grandiosidade do mundo.
Após a
premiação na Bienal de Piracicaba, principal evento nacional
envolvendo a arte naïf, o desafio do pintor carioca radicado em
Brasília é gerar, tanto pelo assunto como pela técnica, efeitos
plásticos cada vez mais significativos em sua pintura no sentido de
indagar o espectador, obrigando-o a pensar sobre o mundo em que ele
habita. Atingir essa proposta é certamente o caminho para
conquistas ainda maiores nos próximos anos.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA)
da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).