Roberto
Magalhães
A
fantasia da cor
O
surrealismo é um movimento com vida estranha dentro do universo artístico
nacional. Muitas vezes confundido somente com as expressões plásticas
de Salvador Dalí, costuma jogar num certo limbo os artistas que a
ele se dedicam ou que apresentam características em que o fantástico
tem um papel fundamental.
Roberto
Magalhães, que mostra seus desenhos e pinturas, em setembro de
2006, na Valu Oria Galeria de Arte, em São Paulo, é um desses
casos, pois sua obra não costuma ser mencionada com a freqüência
e o mérito que deveria. A maneira como utiliza a cor, seja no
desenho ou na pintura, o colocam como uma referência, já que, para
atingir seus resultados, se vale de diversas técnicas, seja o óleo
sobre tela ou o lápis de cor e ecoline sobre papel.
O
importante é ver o seu trabalho com olhos livres de preconceito e
atentos a um manuseio técnico dos materiais que pode servir como
ponto de partida para as novas gerações. O seu segredo é ter uma
habilidade plástica baseada na capacidade de desenvolver a pintura
e, principalmente, o desenho.
Há
nele o domínio da cor como um universo plástico. O assunto perde
interesse perante a maneira como o artista consegue desenvolver as
interações entre as imagens e a fantasia. A técnica se alia à
capacidade de criar num permanente exercício de evitar repetições
ou soluções fáceis.
O
estabelecimento de uma linguagem própria é um marco para que um
artista consiga espaço no competitivo mercado da arte,
principalmente quando os rótulos costumam, muitas vezes, falar mais
alto do que a obra plástica propriamente dita. Nesse aspecto, há
em Roberto Magalhães traços que o diferenciam.
Um
deles, talvez o mais importante, é o uso da cor como recurso, não
como fim em si mesmo. Isso explica, por exemplo, a maneira sábia
como ele se vale do branco, respeitando a sua presença em diversos
trabalhos. Decidir como usar a cor é o resultado de um processo,
que inclui desde o que se deseja pintar ou desenhar até como dar àquela
imagem um valor único, mas inserido numa poética visual e num
pensamento.
Enquanto
alguns teorizam a diferença entre a imaginação e a fantasia,
concebendo a primeira como o império da imagem e a segunda como o
estabelecimento de uma criação baseada na construção de um
universo fantástico, em que a liberdade é soberana, Roberto Magalhães
exercita as duas habilidades ao mesmo tempo.
Por
um lado, estabelece imagens surpreendentes em que a cor é um
elemento crucial. Por outro, como no vulcão com rosto humano na
horizontal, gera um mundo novo, com o poder de um demiurgo, que
parte do relevo da terra bruta para formar um ser humano, numa
imagem que evoca tanto o monstro Tifão, condenado a ruminar
eternamente embaixo do Monte Etna, como o titã Prometeu, que das
cinzas de seus irmãos e de Zagreu, filho de Zeus e Perséfone,
modelou o primeiro homem.
Mítico
em alguns significados e virtuoso em seu exercício técnico,
Roberto Magalhães estabelece um universo atemporal de imagens, como
de flores, insetos, estradas em “S” ou mergulhadores na
fronteira entre o real e o imaginário, um mundo em que a fantasia
predomina não como escapismo, mas pelo predomínio de imagens
criativas que surpreendem e encantam pelo poder de desafiar a
realidade estabelecida.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre
em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de
Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).