por Oscar D'Ambrosio


 

 


Roberto Linsker

 

A dimensão humana da pesca

 

Projeto desenvolvido desde 1997, a exposição de fotos, no Museu da Imagem de São Paulo, SP, de 1º de agosto a 3 de setembro de 2006, e o livro Mar de homens (Editora Terra Virgem, 180 páginas), de Roberto Linsker, constituem um conjunto de imagens que busca documentar a pesca artesanal ao longo da costa brasileira, do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Elas parecem, num primeiro momento, tratar apenas dessa atividade, mas a angulação de algumas merece atenta observação e reflexão. À medida que se mergulha em cada uma, percebe-se um senso de composição que se adensa nas melhores imagens do conjunto exposto.

O grande desafio consiste em fugir das imagens clichês do assunto e, em seus melhores momentos, Roberto Linsker atinge esse nível, principalmente quando busca ângulos inusitados para mostrar um tema já bastante explorado. A grande questão é onde está – se existe – o limite entre o documental e o artístico.

Outro ponto crucial é a fronteira entre a denúncia de um problema social (o quase desaparecimento da pesca artesanal) e a competência técnica propriamente dita. O que Linsker faz é resolver com a arma que tem, a máquina fotográfica, o desafio de documentar e registrar, em diversos momentos, a atividade pesqueira.

Algumas das cenas mais interessantes são as tiradas de dentro dos barcos de pesca. É possível ver a posição dos pés dos trabalhadores do mar e como eles se equilibram para conseguir apoio suficiente para desempenhar a sua atividade com destreza.

As cenas em que a tarrafa é jogada ao mar também são de grande impacto. Incluem desde o momento em que ela é jogada ao movimento de recolhe-la para verificar o número de peixes que foram aprisionados. Trata-se de um amplo universo plástico, todo ele em branco e preto, com riqueza de visões de autênticos operários marítimos em sua luta diária pelo alimento.

Além das fotos de diversas situações envolvendo os pescadores, o conjunto de retratos dessas pessoas fala muito forte sobre um mundo, entre muitos, que a maioria do Brasil ignora. Linsker captou o universo do litoral brasileiro e nos permite, por meio dele, vislumbrar uma realidade praticamente desconhecida ou, o que é pior, muitas vezes cotada, mas vista praticamente como uma abstração.

Agora, essa realidade ganha uma concretização material: a fotografia, com  um poder de registrar o real e , ao mesmo tempo, encantar pela beleza das imagens, que transportam o observador a um universo de mar, praia, barcos, trabalho e esforço constante para superar as dificuldades do dia-a-dia.

Roberto Linsker dá à jornada do pescador do litoral brasileiro, em toda a vasta extensão da costa nacional uma dimensão épica. É possível ver nelas o esforço de cada trabalhador em sua labuta perante o meio, numa relação de respeito e admiração com a grandiosidade, beleza e espírito traiçoeiro do mar, que, como elemento da natureza que é, apresenta sempre algum aspecto inesperado.

As lentes de Linsker dão à palavra “pescador” uma dimensão de humanidade. Seres anônimos se corporificam e ganham vida. Deixam de ser estatísticas e passam a ser pessoas, com sonhos, desejos e muito trabalho diário pela frente em nome da própria sobrevivência.

 

Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

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 Exposição Mar de Homens 
Fotografia 2006

Roberto Linsker

 

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