por Oscar D'Ambrosio


 

 


Roberto Lerner

 

            Pela capacidade de imaginar

 

            O Talmude ensina que “a palavra dita é como uma abelha: tem mel e tem ferrão”.  A frase auxilia a discutir as 28 esculturas de Roberto Lerner apresentadas na exposição Concepções estética + conceito, realizada no Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, SP, de 8 a 24 de março de 2006.

            Paulistano, filho de emigrantes poloneses, Lerner dirigiu e desenvolveu durante 20 anos a área de design e produção de jóias de sua indústria. Em dezembro de 2004, realizou sua exposição individual, “Emoções”, que apresentou 18 esculturas na Galeria de Arte da Hebraica, em São Paulo.

Atualmente Lerner tem obras  em galerias de São Paulo, Curitiba e Barcelona. Na exposição do MuBe predominam as formas verticais em aço e alumínio. A cor vermelha se faz onipresente, com raras concessões ao azul e branco. O conjunto, de inegável imponência, produção e acabamento esmerado, gera, porém, uma grande questão: a do uso da palavra.

As obras, claramente vinculadas ao universo plástico do construtivismo, são todas intituladas de maneira bastante didática, com idéias como Fé, Alma, Louvação, Tríade, Devoção e Criação, que integram o módulo Mitos. Há ainda outros grupos escultóricos, sob a denominação Abstrações, Sentimentos, Visões e ainda o de Homenagens, que presta tributo aos artistas Brancusi, Duchamp, Sergio Camargo, Amílcar de Castro e Serra.

O resultado visual causa impacto favorável, e a concepção da exposição merece elogios. Há, no entanto, no uso dos mencionados títulos, um certo direcionamento nas possibilidades de fruição do observador que prejudica a liberdade do pensamento de cada novo visitante da mostra.

Títulos como Amizade, Maternidade ou Paternidade limitam muito as possibilidades de interpretação das esculturas de Lerner. A inclusão de um poema sobre a Fé, logo na entrada da exposição e também no catálogo, pode até ser considerado um guia estético e ideológico, mas a manutenção desse viés auto-explicativo torna a exposição portadora de palavras desnecessárias.

A qualidade estética inerente a cada uma das esculturas permite a dispensa do uso dos títulos. O movimento bem realizado e solene de Louvação, por exemplo, não necessita de um recurso verbal para se apoiar e justificar. A escultura fala por si mesma, como ocorre em Alma, que sugere, pela própria forma e composição, o conceito de interioridade.

Uma obra repleta de delicadeza, como Amizade, na qual o largo e o fino se encontram e se separam, pode ser melhor analisada sem a presença do título. O seu uso leva a visão da obra muito mais para o campo do conceito dessa relação humana do que para a discussão daquilo que diferencia a arte das outras manifestações: a capacidade, por meio da técnica, de sugerir estados de espírito, sentimentos e contradições.

O forte poder de sugestão das esculturas criadas por Roberto Lerner é prejudicado pela verborragia dos títulos. A sua obra tem qualidade artística para sobreviver independente de textos aplicados na parede. O modo como usa o aço e o alumínio em uma verticalidade solene transformam suas esculturas em talento a ser absorvido pelo olhar e pelo pensamento, não pela palavra, arma dos poetas, romancistas e filósofos.

A utilização excessiva do verbo poderia colocar a exposição a perder, mas, felizmente, é um ferrão que pode ser retirado no futuro para a valorização daquilo que Roberto Lerner tem de melhor: a exploração do espaço de maneira ascensional. Suas formas se elevam em busca de reconhecimento. Dominam o espaço com delicadeza, sem agressividade, como pilares da infinita capacidade humana de trabalhar a matéria.

Roberto Lerner domina o ofício escultórico principalmente pelo sucesso que atinge ao usar o espaço vazio entre as linhas verticais que constrói. Próximas ou distantes, elas geram hiatos que a luz valoriza e transforma em ricas possibilidades de diálogo. É no trato com a matéria que o escultor se destaca. Quanto às palavras, são desnecessárias quando a qualidade plástica existe.

            As esculturas de Lerner, como alerta o Talmud, são exemplos de como o mel das artes visuais pode conter o ferrão do discurso explicativo que retira do construtivismo o que ele tem de melhor: a capacidade de propiciar emoções e sentimentos a partir das infinitas possibilidades sugeridas pela deformação e combinação de linhas verticais.

É justamente a dinâmica vertical – com suas ondas, entrâncias e saliências – que, ao oscilar entre o respeito à tradição da escultura que se vale da geometria e a sugestão de formas orgânicas que a natureza oferece, cria obras que escapam do discurso pronto e limitador da palavra, possibilitando ao ser humano potencializar aquilo que as artes visuais têm de melhor em suas vertentes mais distantes do figurativo: a capacidade de imaginar.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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   Enigma 
aço pintado 200 x 33 x 33 x 5 mm sem data
Roberto Lerner

 

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